ELISABETE DA CUNHA: UMA ASTROFÍSICA VIANENSE NA VANGUARDA DA CIÊNCIA GLOBAL – CRÓNICA DE DANIEL BASTOS

 


Elisabete da Cunha, professora na Universidade da Austrália Ocidental e investigadora em Astrofísica – © University of Western Australia (UWA)

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e científico.

Neste último domínio, e numa época em que o mundo se encontra cada vez mais interligado e dependente do conhecimento tecnológico, a diáspora científica portuguesa — constituída, em larga medida, por profissionais altamente qualificados — é hoje amplamente reconhecida como uma mais-valia para o desenvolvimento dos países de acolhimento. Simultaneamente, afirma-se como um ativo estratégico na transferência de conhecimento, na promoção internacional de Portugal e na afirmação de uma ciência sem fronteiras.

É neste contexto que se destaca o percurso paradigmático e inspirador de Elisabete da Cunha, investigadora da Universidade da Austrália Ocidental e uma referência internacional na área da astrofísica. Ao longo da sua carreira, tem trabalhado com alguns dos mais avançados instrumentos de observação do Universo, incluindo o James Webb Space Telescope, posicionando-se na linha da frente da investigação contemporânea.

Filha de emigrantes portugueses, Elisabete da Cunha nasceu em Paris, mas foi no Alto Minho, na vila de Barroselas (Viana do Castelo), que cresceu, após o regresso da família a Portugal quando tinha sete anos, juntamente com o seu irmão gémeo. Foi a partir deste contexto que construiu um percurso académico sólido, alicerçado numa licenciatura em Física/Matemática Aplicada (Astronomia), pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (2005), e num doutoramento pela Universidade de Paris VI (Pierre et Marie Curie), concluído em 2008.

Seguiram-se vários períodos de investigação pós-doutoral na Grécia, Alemanha e Austrália, país onde se fixou em 2014. Após passagens por Melbourne e Camberra, estabeleceu-se em Perth, onde, desde 2019, exerce funções como investigadora sénior e professora associada no Centro Internacional de Investigação em Radioastronomia da Universidade da Austrália Ocidental.

O seu percurso científico, marcado por uma notável consistência e projeção internacional, inclui participação em projetos científicos de grande escala associados a infraestruturas de referência, como o ALMA e o James Webb Space Telescope. A sua investigação combina observações profundas do cosmos com modelos teóricos sofisticados, permitindo compreender de que forma galáxias como a Via Láctea se formaram e evoluíram ao longo de milhares de milhões de anos.

Entre os seus contributos mais relevantes destaca-se o desenvolvimento do MAGPHYS, uma ferramenta amplamente utilizada pela comunidade científica internacional, que permite inferir propriedades físicas das galáxias a partir de dados observacionais em diferentes comprimentos de onda. O impacto do seu trabalho traduziu-se no reconhecimento como “Investigadora Altamente Citada” pela Clarivate em 2023 e 2025, bem como na atribuição de diversos prémios, entre os quais o de “Cidadã Portuguesa do Ano da Austrália Ocidental” (2023) e distinções académicas de relevo no contexto da investigação científica australiana.

Apesar de uma carreira consolidada além-fronteiras, Elisabete da Cunha mantém uma ligação estreita a Portugal. Em 2019, copresidiu, em Viana do Castelo, um simpósio da União Astronómica Internacional dedicado à evolução precoce das galáxias na era do ALMA e do James Webb Space Telescope, reunindo mais de 170 especialistas de todo o mundo. Mais recentemente, publicou a obra O que se Passa Acima das Nossas Cabeças, dirigida ao público português, com o propósito de aproximar a sociedade dos grandes desafios e descobertas da ciência contemporânea.

O seu percurso evidencia, de forma clara, o papel inovador da diáspora científica portuguesa na produção de conhecimento de ponta e na construção de pontes entre Portugal e o mundo. Elisabete da Cunha personifica uma geração de investigadores que, sem perderem o vínculo às suas origens, projetam o nome do país no panorama científico internacional, contribuindo para a valorização do capital humano português e para a afirmação de Portugal como um ator relevante na ciência global.

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