É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro, Com lâmpadas de cor, sobre o balcão. Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro E flocos finos de algodão. Nas férias, foge a freguesia Do final das manhãs, Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia, E o conforto das lãs. Bebem-se mais bebidas quentes. O chão, mais húmido, incomoda. E há apelos insistentes Do cauteleiro que anda à roda. Os embrulhos, nas mesas, nos regaços, Com vistosos papéis, Florescem de acetinados laços, Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis. Muitos adultos. Pouca criançada. Muito cansaço. Pouca animação. A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada! E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são. Consigo mesa junto à vidraça. E é em mim que procuro, ou é lá fora, A estrela que não luz, o pastor que não passa, O anjo que não vem anunciar a hora?" António Manuel Couto Viana, in Café de Subúrbio, 1991