DIA DO PESCADOR: UMA HOMENAGEM E UM APELO! - CRÓNICA DE CARLOS SAMPAIO

Hoje é Dia do Pescador.

É dia de homenagear os homens e mulheres do mar, mas também de refletir sobre o futuro da pesca profissional e das comunidades que dela dependem.
Em Vila Praia de Âncora, a pesca local continua a ser predominante. Falamos de uma pesca artesanal, sustentável e seletiva, praticada por profissionais que conhecem o mar, respeitam os seus ciclos e contribuem diariamente para a preservação dos recursos marinhos.
São pescadores que trabalham dentro das capacidades das suas embarcações, enfrentando condições cada vez mais difíceis para manter vivo um dos setores primários mais importantes do concelho de Caminha.
𝗠𝗮𝘀 𝗵𝗼𝗷𝗲 𝗾𝘂𝗲𝗿𝗼 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮𝗿 𝘁𝗮𝗺𝗯𝗲́𝗺 𝘂𝗺 𝗮𝗽𝗲𝗹𝗼.
A dedicação, o esforço e a paixão que os nossos pescadores colocam todos os dias na sua atividade têm de encontrar a mesma determinação por parte das entidades responsáveis pela gestão do setor e das infraestruturas que servem a pesca.
Seria injusto apontar responsabilidades ao poder local. Ao longo de décadas, autarcas, juntas de freguesia, associações e comunidades locais têm lutado persistentemente por melhores condições para a pesca profissional. O problema é mais profundo e muitas vezes ultrapassa as competências e a capacidade de decisão dos órgãos locais.
A lentidão das decisões relacionadas com as infraestruturas em terra e com as condições do espelho de água é profundamente desmotivadora para uma classe profissional que, além de assegurar diariamente peixe fresco nas mesas dos portugueses, continua a desempenhar um papel fundamental na economia e na identidade das comunidades costeiras.
Sabemos que a requalificação do Porto de Mar de Vila Praia de Âncora está em desenvolvimento e que o concurso da empreitada poderá ser lançado em 2027. Contudo, até à concretização dessa obra e à sua entrada em funcionamento, temos de sobreviver. É fundamental continuar a melhorar as infraestruturas existentes em terra e no espelho de água, reforçando a segurança, a operacionalidade e a confiança dos profissionais do mar. A esperança também se constrói através de pequenas intervenções concretas que permitam aos pescadores continuar a trabalhar com dignidade enquanto aguardam pela solução definitiva.
Talvez tenha chegado o momento de refletir se alguns modelos de gestão continuam adequados à realidade atual da pequena pesca portuguesa. Talvez seja tempo de questionar se os pescadores e as comunidades marítimas têm efetivamente a voz e a prioridade que merecem nas decisões que condicionam o seu futuro.
Não deixo acusações.
Deixo apenas uma pergunta legítima:
𝗘𝘀𝘁𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗮 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝘁𝘂𝗱𝗼 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗮́ 𝗮𝗼 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗼 𝗮𝗹𝗰𝗮𝗻𝗰𝗲 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗴𝗮𝗿𝗮𝗻𝘁𝗶𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝘀 𝗽𝗿𝗼́𝘅𝗶𝗺𝗮𝘀 𝗴𝗲𝗿𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗽𝗼𝘀𝘀𝗮𝗺 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗿 𝗮 𝘃𝗶𝘃𝗲𝗿 𝗱𝗮 𝗽𝗲𝘀𝗰𝗮 𝗲𝗺 𝗩𝗶𝗹𝗮 𝗣𝗿𝗮𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗔̂𝗻𝗰𝗼𝗿𝗮?
A Pesca em Vila Praia de Âncora é muito mais do que uma atividade económica.
É 𝗜𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲, 𝗦𝘂𝘀𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮𝗯𝗶𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲, 𝗚𝗮𝘀𝘁𝗿𝗼𝗻𝗼𝗺𝗶𝗮, 𝗧𝘂𝗿𝗶𝘀𝗺𝗼, 𝗛𝗶𝘀𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗲 𝗖𝗼𝗲𝘀𝗮̃𝗼 𝗧𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼𝗿𝗶𝗮𝗹.
E deve ser tratada como tal.
Porque defender a pesca é defender um património humano, cultural e económico que pertence a todo o concelho e a todo o país.
Se queremos garantir um futuro para as comunidades marítimas, então temos de criar condições para assegurar aquilo que hoje é um dos maiores desafios do setor:
𝗨𝗺 𝗙𝘂𝘁𝘂𝗿𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗥𝗲𝗻𝗼𝘃𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗚𝗲𝗿𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹.
Sem jovens pescadores, sem condições de trabalho dignas, sem infraestruturas adequadas e sem perspetivas de futuro, nenhuma tradição sobrevive apenas pela força da memória.
Hoje homenageamos os pescadores.
Amanhã devemos honrar essa homenagem com decisões, investimentos e políticas que lhes permitam continuar a sair para o mar com segurança, dignidade e esperança.
A todos os pescadores, o meu respeito, a minha gratidão e o meu reconhecimento.
𝗙𝗲𝗹𝗶𝘇 𝗗𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗣𝗲𝘀𝗰𝗮𝗱𝗼𝗿!

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