A ARTE DE MARINHEIRO E O OFÍCIO DOS MOLEIROS DOS MOINHOS DE VENTO
Quem já alguma vez teve a felicidade de contactar de
alguma forma com o labor do moleiro, num moinho de vento, certamente se
apercebeu da extraordinária semelhança de numerosos vocábulos empregues neste
ofício relativamente à linguagem das gentes do mar. Com efeito, existem muitos
termos que são comuns às duas atividades, em grande medida resultante da
identidade de processos utilizados em ambas as atividades.
À semelhança das naus e, em geral, de todas as
embarcações à vela, também os moinhos de vento aproveitam a mesma fonte de
energia, recorrendo a uma técnica semelhante para assegurarem o seu próprio
funcionamento. Tal como o marinheiro, também o moleiro deve saber medir a
direção e intensidade do vento e manobrar as velas para dele tirar o máximo
rendimento. Para tal, utiliza o cata-vento estrategicamente colocado sobre o
capelo do moinho e os búzios atados na extremidade das vergas. Na realidade, o
moinho de vento é como um veleiro a navegar em terra firme que requer a
sabedoria do seu marinheiro – o moleiro!
Quando os portugueses se fizeram ao mar, a tripulação
das naus partiu de terra e era naturalmente constituída por gente que, nas suas
lides quotidianas, se dedicava aos mais variados ofícios. Entre ela
encontravam-se certamente os moleiros cuja arte foi seguramente determinante
para as atividades de manobra uma vez que, à semelhança dos moinhos, as naus e
as caravelas navegavam à vela, sendo necessários marinheiros experimentados na
arte de marinharia que era, afinal de contas, a arte dos próprios moleiros.
Não admira, pois, que ambas as linguagens se
confundam em grande medida. De resto, é bastante sintomática a expressão
outrora utilizada pelos navegadores quando, ao constatarem a evolução demasiado
lenta da nau, a ela se referiam dizendo que “a nau ia
moendo”, numa clara alusão ao ritmo pachorrento com que o moinho
procede à moagem do grão.
O estudo dos moinhos é de uma extraordinária riqueza
e elevado interesse cultural, sob todas as suas variantes, desde o ponto de
vista tecnológico como ainda etnográfico, histórico e linguístico. Refira-se, a
título de exemplo, que os construtores de moinhos eram outrora apelidados de engenheiros por se tratarem,
na realidade, de construtores de engenhos.
Desde que o Homem sentiu necessidade de recorrer a
processos mais eficazes para moer os grãos que utilizava na sua alimentação,
ultrapassando a forma primitiva de os esmagar à mão com o emprego de duas
pedras, os moinhos acompanharam a evolução do seu conhecimento e refletiram a
sua própria organização social. Aproveitando os mais diversos recursos naturais
e apresentando-se sob variadas formas, incluindo as azenhas e os moinhos de
maré, eles encontram-se presentes nas novas tecnologias para captação da energia
eólica ou ainda para bombagem de água como sucede na captação de água dos poços
ou na manutenção dos diques da Holanda.
Atendendo ao valor cultural que o estudo dos moinhos
representa, junta-se um pequeno dicionário comparado da linguagem utilizada
pelos moleiros que trabalham nos moinhos de vento relativamente à empregue no
meio náutico
Andadeira –Mó de cima. Corredor.
Bolacho – Diz-se quando a vela
tem três voltas em torno da vara.
Braços – Varas, Vergas.
Búzio – Alcatruz. Pequeno
objeto de barro, por vezes com a forma de uma cabaça, contendo um só orifício,
que se coloca na ponta das vergas das velas dos moinhos de vento e que, com o
girar destas, produz uma espécie de assobio que permite ao moleiro calcular a
intensidade do vento e a velocidade adquirida pelas velas.
Cabrestante – Sarilho. Dispositivo
para fazer rodar o capelo do moinho. – Nos navios, refere-se ao sarilho para
manobrar e levantar a âncora e outros pesos.
Cabresto – Corda comprida que
segura as varas e que serve para efetuar a amarração das velas no exterior. –
Cada um dos cabos que, da ponta do gurupés vem à proa do navio, junto ao couce
do beque. O gurupés é o mastro oblíquo situado na proa dos navios.
Calha – Peça que leva o grão
da tremonha para o olho da mó. Ligação entre o tegão e o olho da mó. Quelha.
Canoura - Vaso de madeira
donde o grão vai caindo para a mó. Moega. Tremonha.
Capelo – Parte superior do
moinho que roda em função da direção do vento. Existem, contudo, moinhos que
são rodados a partir da base, com a utilização de rodados. – Em linguagem
náutica, diz-se da volta da amarra na abita que constitui a peça de madeira ou
ferro, existente na proa dos navios, para fixar a amarra da âncora. Esta peça,
apresenta-se geralmente de forma retilínea e liga ao “pé de
roda” e termina na roda de proa. Nos barcos rabões, embarcações da
família dos rabelos durienses, indica a sua extremidade superior. Nos
valvoeiros, refere-se à parte superior da caverna.
Carreto – Roda colocada na
parte superior do eixo central do moinho e ligado à entrosa.
Corredor – Mó de cima, com raio
idêntico ao poiso, mas com altura inferior a esta.
Eixo – Mastro.
Entrosa – Rosa dentada
existente no mastro do moinho, com os dentes na lateral engrenando noutra roda
dentada.
Frechal – Calha onde assenta a
cúpula móvel sobre a torre do moinho.
Forquilha – Vara comprida e com
a ferragem em ponta em forma de “V”. – No meio náutico também se designa por
forqueta e é constituído por duas hastes de madeira onde os pescadores arrumam
o mastro, a verga e a palamenta enquanto pescam. A forquilha de retranca é uma
cruzeta de madeira ou de ferro colocada na borda do navio, à popa, a meia-nau,
para descanso da retranca.
Mastro – Eixo do moinho de
vento. – Numa embarcação designa cada uma das peças altas constituídas por
vergônteas de madeira que sustentam as velas.
Meia-ponta – Diz-se quando a vela
tem cinco voltas em torno da vara.
Meia-vela – Diz-se quando a vela
do moinho tem uma volta em redor da vara.
Mó – Pedra cilíndrica em
forma de anel que serve para moer o grão.
Moageiro – Aquele que produz
moagem.
Moagem – Acto ou efeito de
moer. Moedura
Moedura – Moagem.
Moega – Canoura. Tremonha.
Moenda – Mó. Acto ou efeito de moer. Maquia que o moleiro retribui em
géneros. Moinho. Moenga.
Moenga – Moenda
Moer – acto ou efeito de
transformar o grão em farinha – Em linguagem antiga de marinha, “a nau ir moendo” referia-se à
evolução demasiado lenta de um navio.
Olho da mó – Parte vazia no
centro da mó.
Pano – Diz-se quando a vela
do moinho se encontra toda aberta. – Os marinheiros referem “navegar a todo o pano” quando se
pretende que o navio obtenha a sua velocidade máxima, aludindo ao completo
desfraldar das velas.
Pião – Eixo do moinho de
vento. Mastro.
Picadeira – Ferramenta usada para picar a mó a fim de criar novos sulcos.
Picão.
Picão – Picadeira.
Poiso – A mó que fica por
debaixo, estática.
Ponta – Diz-se quando a vela tem quatro voltas em torno da vara.
Quelha – Calha.
Sarilho – Dispositivo para
fazer rodar o capelo. Cabrestante. – Nos navios consiste na máquina onde se
enrola o cabo ou cadeia do cabrestante.
Segurelha – Suporte metálico regulável que fixa o corredor ao eixo
vertical. Peça onde entra o ferro que segura a mó inferior ou poiso para tornar
uniforme o movimento da superior ou andadeira.
Taleiga – Saco pequeno para
condução de farinha.
Tegão – Peça por onde o grão
passa para moer.
Traquete – Diz-se quando a vela do moinho tem duas voltas em redor da
vara. – Nos navios, é a maior vela do mastro da proa.
Tremonha – Canoura. Moega.
Varas – Hastes de madeira de
auxílio à amarração. Vergas. – Nos navios, constituem peças longas de madeira
colocadas horizontalmente sobre os mastros para nelas se prenderem as velas.
Vela – Pano forte e
resistente que se prende aos braços dos moinhos para os fazer girar sob a ação
do vento. – Nos navios e embarcações, é o pano que se prende aos mastros para
as fazer navegar.
Vela fechada – Diz-se quando a vela
tem seis voltas em torno da vara.
Vela latina – Vela de formato
triangular geralmente utilizada nos moinhos e nos navios.
Velame – Conjunto das velas
de um moinho ou de um navio.
Vergas – Varas de auxílio à amarração. – Na linguagem náutica, existe
uma grande variedade de designações, as quais remetem para as velas que nelas
envergavam. De sublinhar, aliás, a proveniência do verbo envergar.
Bibliografia: LEITÃO, Humberto; LOPES, J. Vicente. Dicionário da
Linguagem de Marinha Antiga e Actual. Edições Culturais de Marinha. Lisboa.
1990.
Moinhos de Cima e do Marinheiro,
em Carreço, no Concelho de Viana do Castelo.


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