A ASCENDÊNCIA PORTUGUESA DOS CANARINOS – CRÓNICA DE JESÚS ACOSTA | FOTOS DE NAIM ACOSTA
Apesar de pouco conhecidas, são muitas as
afinidades entre os portugueses e os canarinos, tal como são históricas as
ligações entre Portugal e as Canárias. São precisamente tais afinidades e
ligações históricas que, graças à gentileza do sr. Jesús Sebastián Acosta
Pacheco, a quem desde já endereçamos os nossos agradecimentos, o BLOGUE DO
MINHO vai dar a conhecer aos seus leitores, publicando diversos artigos de sua
autoria.
Os Arquipélagos das Ilhas Canárias, dos
Açores, da Madeira, das Ilhas Selvagens e de Cabo Verde, constituem a região
biogeográfica da Macaronésia, mas as “Ilhas Afortunadas”, não só
estão vinculadas no que respeita à natureza e geografia, também à história,
cultura e património, mas há uma diferença entre os Açores, a Madeira e Cabo
Verde com as Canárias, os três primeiros arquipélagos com maior conexão a
Portugal, estavam desabitados e foram descobertos e povoados pelos portugueses,
as Ilhas Canárias estavam habitadas pelo povo guanche. Os guanches, eram as
únicas pessoas nativas que viviam na região da Macaronésia antes
da chegada dos europeus, originários do Norte da África com
civilização neolítica e língua da família linguística berbere e escrita com
carateres tifinagues. Por tanto, as Ilhas Canárias foram conquistadas pelos
castelhanos, mas na conquista e colonização, os portugueses tomaram parte, no
caso da ilha de Tenerife, a maior do arquipélago canarino e de toda a
Macaronésia, foi colonizada na mesma proporção por portugueses e espanhóis
(principalmente andaluzes), segundo os historiadores Elías Serra Ràfols e
Leopoldo de la Rosa Olivera.
Gaspar Frutuoso, foi um historiador, sacerdote e humanista açoriano, natural da
cidade de Ponta Delgada na ilha de São Miguel, destacou-se pela autoria da obra Saudades da Terra,
uma detalhada descrição histórica e geográfica dos arquipélagos dos Açores, Madeira e Canárias, este grande
cronista insulano, na descrição das Ilhas Canárias que faz no livro primeiro
das Saudades da Terra, no capítulo décimo terceiro «De
algumas cousas de ilha chamada Tenerife» diz: «[...] e daí a duas léguas está Icode dos Vinhos, que
também é vila de duzentos vizinhos, quasi todos portugueses ricos de vinhos,
lavouras e criações.[...]»,
posteriormente, Leonardo Torriani, um engenheiro militar e arquiteto italiano radicado
em Portugal que foi
enviado pelo rei Felipe II de Espanha e I de Portugal em 1587, com a
missão de analisar e fortalecer a fortificação das ilhas, e no valiossísimo
códice que nos deixou: Descrição e história do
Reino das Ilhas Canárias, antes ditas Afortunadas, com o parecer das suas
fortificações, que se encontra na Biblioteca Geral
da Universidade de Coimbra, quando descreve a ilha de Tenerife expõe: «[...] A maior parte da gente é portuguesa, a qual,
superando as demais nações espanholas na indústria da agricultura, tem dado a
esta ilha maior fertilidade e riqueza232».
Página 136 do estudo e tradução da obra de Torriani primeira versão em
português da autoria de José Manuel Azevedo e Silva publicado pela Edições
Cosmos em Lisboa no ano 1999 e, na nota 232 deste autor, podemos ler: «Conhecedor da realidade das Canárias, onde
permaneceu durante alguns anos, Torriani constatou que a maior parte da gente
da ilha de Tenerife era portuguesa, à qual atribuiu um maior desenvolvimento
económico em relação às outras ilhas. A apreciação lisonjeira que faz à gente
portuguesa que, segundo afirma, supera as demais nações espanholas na
agricultura, deve estar relacionada com a rica produção de açúcar e de vinho de
Tenerife (de longe maior que nas outras ilhas), pelo que é de supor tratar-se
da presença de emigrantes madeirenses, bom conhecedores daquelas culturas.».
Quando Torriani fala da cidade de Santa Cruz da Palma narra: «[...] As casas são brancas, feitas à portuguesa326, pequenas por dentro e, em geral, sem
poços nem pátios, com tudo isto, são mais altas e alegres que as das outras
ilhas. Esta ilha é habitada por portugueses, castelhanos, flamengos, franceses
e alguns genoveses. [...]».
Página 191 e na nota do estudioso e tradutor pode-se ler: «De notar a influência portuguesa no modelo de
construção das casas da cidade. Se, como se vê a seguir, os portugueses
compartilhavam a cidade com castelhanos, flamengos, franceses e genoveses,
possivelmente os mestres construtores eram portugueses. E não será por acaso
que Torriani os cita em primeiro lugar». Prova desta presença
portuguesa é o livro 1º de visitas da igreja do povo de Boavista do Norte em
Tenerife (até a primeira metade do século XVI) e o livro da igreja de Garafía na ilha da Palma
no século XVII, escritos em português.
No repartimento das terras conquistadas, os portugueses que
colaboraram com o conquistador às ordens da Coroa de Castela, receberam terras
através das “datas” e, os que chegaram como
colonizadores à nova terra, alguns deles judeus portugueses que optaram pelo
desterro imposto pelo édito real assinado em 1496 pelo Rei Dom Manuel I e,
outros judeus portugueses conversos ou cristãos-novos, na sua maioria lavradores
e artesãos, vieram com o estabelecimento da indústria da cana-de-açúcar e a
plantação de videiras para a produção de vinho, além disso, introduziram em
princípios do século XVII o cultivo do milho. Junto dos colonos madeirenses
chegados às ilhas, retornaram os guanches libertos que os portugueses
capturaram e levaram como escravos para a ilha da Madeira, com a finalidade de
fornecer mão-de-obra para o penoso trabalho nos canaviais, libertaram e
expulsaram ou devolveram aos guanches escravizados à sua terra natal, porque os
madeirenses donos das plantações de cana-de-açúcar não os conseguiram submeter.
Os guanches que voltaram às suas ilhas já eram grandes mestres da elaboração do
açúcar, cristianizados e tinham apelidos portugueses.
Como referem os historiadores, em algumas cidades e vilas
os portugueses eram maioritários e, até mesmo, foram os seus fundadores e
construtores dos seus monumentos mais importantes. Pomos como exemplo a Cidade
de Tacoronte fundada em 23 de outubro de 1497 por Dom Sebastião Machado oriundo
de Guimarães, que conservou o nome aborígene do Menceyato (reino guanche) para a nova cidade que está geminada
com o berço da nação portuguesa e Património da Humanidade desde o dia 26 de
outubro de 1997. O ex-convento de Santo Agostinho e Igreja do Santíssimo Cristo
das Dores e Agonia, mais conhecido popularmente como Cristo de Tacoronte, foi
edificado em 1662 pelo Capitão Dom Diogo Pereira de Castro natural de Barcelos
e o seu sobrinho Tomás Pereira de Castro-Ayala e este, foi o que trouxe a
milagrosa imagem do Santíssimo Cristo, segunda advocação de Cristo mais
venerada nas Ilhas Canárias trás o Santíssimo Cristo da Lagoa. Nesta muito
bonita e encantadora cidade do norte de Tenerife de bons vinhos e, onde há
muitos munícipes com o apelido Dorta, morou os primeiros anos da sua vida o
famoso pintor surrealista Óscar Domínguez, no filme, Óscar. Una pasión surrealista inspirado na biografia deste insigne tinerfenho, o ator
português Joaquim de Almeida veste a pele do pintor. É filha ilustre desta
cidade a escritora Maria Rosa Alonso, estudiosa e investigadora do Mencey (Rei) guanche que os Reis Católicos
entregaram como presente ao Doge de Veneza e, que este dirigente, expôs como
exemplar exótico na sua corte.
Na primeira foto podemos ver o monumento dedicado a D.
Sebastião Machado e a frontaria e torre da igreja da Santa Catarina de
Alexandria padroerira da cidade de Tacoronte. Na Segunda Foto a placa do
monumento que diz: A CIDADE
DE TACORONTE / A / SEBASTIÃO
MACHADO / NATURAL
DE GUIMARÃES PORTUGAL / CRIADOR
DO PRIMITIVO / NÚCLEO
POPULACIONAL / 1497 - 1997 / CINCO
SÉCULOS DE HISTÓRIA e, após do texto, os brasões dos concelhos
de Guimarães e Tacoronte.
Na
primeira foto temos a bela frontaria em cantaria, obra de Domingo
Rodríguez Rivero e tem sobre da porta central e principal o
brasão dos Pereira de Castro. Na segunda fotografia a imagem milagrosa do
Santíssimo Cristo de Tacoronte, Padroeiro da Cidade de Tacoronte, escultura que
se lhe atribui a Domingo de La Rioja.
Há historiadores, estudiosos e investigadores que
têm manifestado que o povo canarino é mestiço, porque descende de grupos
étnicos diferentes, que é uma mistura: um 30% de guanches, um 30% de andaluzes
e um 30% de portugueses, o 10% restante e formado por outros espanhóis e
europeus na sua maioria flamengos, genoveses, franceses e ingleses. Os outros
arquipélagos da Macaronésia não têm esta singularidade e, o caso de Cabo Verde,
é diferente aos demais. É evidente a ascêndencia portuguesa dos canarinos, pelo
que não é um erro, dizer que são descendentes longínquos de portugueses. O
melhor testemunho da presença portuguesa nas Ilhas Canárias, na sua conquista e
na sua colonização, não são somente as “datas”, também os mais de
cem apelidos ou sobrenomes portugueses que existem nas Canárias, há canarinos
que não têm apelidos portugueses, mas podem ter os seus pais, os seus avós ou
os seus antepassados. A seguir alguns deles em português e a correspondente forma
castelhanizada.
|
PORTUGUÊS |
ESPANHOL |
PORTUGUÊS |
ESPANHOL |
PORTUGUÊS |
ESPANHOL |
|
Aleixo |
Alejo |
Falção |
Falcón |
Medeiros |
Mederos |
|
Belchior |
Melchior |
Farinha |
Fariña |
Monteiro |
Montero |
|
Chaves |
Chávez |
Galvão |
Galbán |
Pereira |
Perera |
|
Coelho |
Coello |
Godinho |
Godiño |
Ramalho |
Ramallo |
|
Correia |
Correa |
Horta |
Dorta |
Soares |
Suárez |
|
Curvelo |
Curbelo |
Lemos |
Lemus |
Sousa |
Sosa |
|
da Costa |
Acosta |
Maia |
Maya |
Teixeira |
Tejera |
|
Eanes |
Yánez |
Marreiro |
Marrero |
Vieira |
Viera |
Alguns apelidos não mudaram: Afonso, Aguiar,
Barroso, Camacho, Lemes, Machado, Pacheco, Pestana, Queirós, Rabelo, Toste,
mais outros. Há alguns que têm as duas formas Ferreira /Ferrera e outros três:
Vieira / Viera / Vera.
Portugal reconheceu a soberania castelhana das
ilhas Canárias, quando o Rei Alfonso V de Portugal em 8 de setembro de 1479
ratificou o Tratado das Alcáçovas, também conhecido como Paz de Alcáçovas,
assinado na vila portuguesa de Alcáçovas, no Alentejo,
em 4 de setembro de 1479.
Com a ratificação dos Reis Católicos em 6 de março de 1480, na cidade de
Toledo, pelo que também ficou denominado como Tratado das Alcáçovas-Toledo,
Portugal abandonou definitivamente as suas pretenções de domínio sobre as
célebres “Ilhas Afortunadas”. O arquipélago canarino ficou na posse da
Coroa de Castela e não é a Galiza, que junto do Condado Portucalense, é o berço
da cultura galaico-portuguesa, mas depois dos hermisendeños, alamedillenses, xalimegus, cedilleros, ferrereños, oliventinos mais
outros povos arraianos é, o povo integrado no atual Reino de Espanha, que mais
raizes galaico-portuguesas tem.
Queremeos agradecer ao Exmo. Sr. D. Carlos Gomes
o seu convite para escrever no seu maravilhoso blogue. Tudo começou quando
contactamos con ele para lhe perguntar o nome das coleira com campaínhas que
levam no pescoço os bois e vacas nas nossas romarias e benções de gado que são
semelhantes às que temos visto no Minho. Uma breve explicação complementar da
influência portuguesa nas Ilhas Canárias que fizemos à pergunta, despertou o
seu interesse e disse: «O BLOGUE DO MINHO (e o BLOGUE DE LISBOA)
encontram-se à sua disposição e será com o maior prazer que acolherá a
colaboração que quiser dispensar». Como ele também tenciona partilhar o
artigo nas páginas do facebook dedicadas ao folclore português, incluindo a
Federação do Folclore Português, decidimos escrever acerca dos Aires de
Lima, um género da música folclórica das Ilhas Canárias típico das descamisadas canarinas,
esfolhas no Minho, que trouxeram os minhotos no século XVII com o cultivo do
milho, mas achamos que era conveniente fazer antes uma apresentação e
introdução com este artigo e o seguinte que fala da profunda influência
portuguesa no povo canarino, pois será mais fácil para os leitores e seguidores
deste ótimo blogue, compreenderem a razão pela que nas Canárias há uma canção
tradicional que tem a sua origem no Minho. É uma dívida que temos pela ajuda
recebida e a grande gentileza.
Aproveitamos este artigo, para exprimir
públicamente o nosso mais muito obrigado a três grandes portugueses que amam a
sua maravilhosa terra e contribuem à proteção, preservação e difusão do seu
precioso património. Ao Exmo. Sr. D. Rui Barbosa, “A man and
his Dream” que com o seu sonho e magnísifico blogue Carris,
temos uma preciosa informação do PNPG (Parque Nacional Peneda-Gerês),
agradecemos imensamente a sua ajuda para poder indicar nos planos os
hidrónimos, orónimos e o património etnográgico do PNPG. Ao Exmo.
Sr. D. Manuel de Azevedo Antunes, grande amigo e a maior autoridade
em relação a Vilarinho da Furna, com ele a sua aldeia natal,
lamentavelmente afundada, nunca morirá. Finalmente, ao Exmo. Sr. D. Paulo
Lima, o homem dos portugueses na UNESCO, graças ao seu precioso
trabalho e de outras pessoas o Fado, a música e canção mais bela do
mundo, o cante alentejano e a arte chocalheira é
Parimónio Mundial.
Este artigo foi escrito por Jesús Acosta Vice-Presidente
da ACGEIA: ASSOCIAÇÃO CULTURAL: GRUPO DE
ESTUDO E INVESTIGAÇÃO ACHBINICO e as fotografias realizadas
por Naim Aléix Acosta Febles.
A ACGEIA, tem entre os seus fins
estatutários, o estudo e investigação da língua e literatura portuguesa e
outras línguas e dialetos de família linguística galaico-portuguesa, a
ascendência portuguesa dos canarinos, a influência portuguesa no povo canarino,
a natureza, geografia, história, cultura e patrimonio de Portugal porque é o
país de onde vieram os colonizadores que juntos dos guanches, andaluzes e
outros espanhóis e europeus contribuíram notavelmente à fundação do povo
canarino. Finalmente, esta Associação estuda e investiga a vida e obra de São
José de Anchieta, que nasceu em 19 de março de 1534 na cidade de São Cristóvão
da Lagoa, foi o Apóstolo do Brasil e a maior contribuição do povo canarino ao
Mundo Lusófono. A ACGEIA tem a sua sede estatutária no berço
do São José de Anchieta, cidade fundada em 1497 por Alonso Fernández de Lugo,
o fidalgo e
conquistador castelhano-andaluz, responsável da incorporação definitiva das
Ilhas Canárias à Coroa de Castela no século XV. Esta belíssima e
fascinante cidade foi classificada Património da Humanidade em 2 de dezembro de
1999 pela UNESCO, é sede da diocese de Tenerife, da Universidade da Lagoa,
recebe aos turistas pelo Aeroporto de Tenerife-Norte e, como Braga, é chuvosa,
húmida, monumental e tem a Semana Santa mais solene das Ilhas Canárias.




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