A FONTE DO ÍDOLO EM BRAGA E O CULTO À DEUSA NÁBIA, A DIVINDADE PAGÃ DO RIO NEIVA
Durante o período que antecedeu à ocupação romana, a
deusa Nábia era venerada pelos povos autóctones da Hispânia, designação dada
pelos romanos à província que atualmente corresponde nomeadamente a Portugal e
Espanha. Entre os vestígios desse culto salienta-se a Fonte do Ídolo, em Braga,
com as suas inscrições epigráficas, além do nome atribuído a diversos rios como
o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal.
Com a cristianização, o culto pagão a Nábia veio a
ser substituído pela devoção a Santa Iria ou Santa Irene. Conta a lenda que
Iria – ou Irene – nascera em Nabância,
uma villae romana próxima de Sellium, a atual cidade de Tomar.
Oriunda de uma família abastada, Iria veio a receber educação esmerada num
mosteiro de monjas beneditinas, o qual era governado pelo seu tio, o Abade
Sélio.
Dotada de beleza e inteligência, a jovem Iria atraía
as atenções sobretudo dos fidalgos que disputavam entre si as suas atenções.
Contava-se entre eles o jovem Britaldo que por ela alimentou uma enorme paixão.
Contudo, Iria entregava-se a Deus e recusava as suas investidas amorosas.
Roído de ciúmes pela paixão de Britaldo, o monge
Remígio que era o diretor espiritual de Iria, deu a beber a Iria uma mistela
que lhe provocou no corpo a aparência de gravidez, provocando desse modo a sua
expulsão do convento, levando-a a procurar refúgio junto do rio Nabão.
Britaldo, a que entretanto chegara os rumores do ocorrido, movido por despeito,
ordenou a um servo o seu assassínio.
Atirado ao rio Nabão cujas águas correm para o rio
Zêzere, o corpo da mártir Iria ficou depositado nas areias do rio Tejo, aí
permanecendo incorruptível para a eternidade, tendo o seu culto sido muito
popular sobretudo no período do domínio visigótico.
Do nome de Irene – Santa Iria – tomou a antiga Scallabis romana o nome passando a denominar-se de Sancta Irene, daí derivando a atual
designação de Santarém. Da mesma maneira que, para além de assinalar um
acidente orográfico, a designação toponímica Cova da Iria deverá ter a sua
origem no referido culto a Santa Iria, porventura já sob o rito moçárabe, ou
seja, cristão sob o domínio muçulmano embora adoptando aspectos da cultura
árabe.
A lenda de Santa Iria e o relacionamento com o local
onde nascera ou seja, a villaeromana
de Nabância, remete-nos ainda para o
culto de Nábia, a deusa dos rios e da água, uma das divindades mais veneradas
na antiguidade na faixa ocidental da Península Ibérica ou seja, a área que atualmente
corresponde a Portugal e à Galiza.
Quando ocuparam a Península Ibérica à qual deram o
nome de Hispânia, os romanos que à época não se haviam convertido ainda ao
Cristianismo, adotaram as divindades indígenas e ampliaram o seu panteão,
apenas convertendo o nome de Nábia para Nabanus, tal como antes haviam feito
com os deuses da antiga Grécia.
Qual reminiscência de antigas crenças, o culto pagão
à deusa Nábia – ou Nabanus – veio a dar origem à famosa lenda de Santa Iria –
ou Santa Irene – cuja festa é bastante celebrada em muitas localidades
portuguesas como sucede em Tomar e Ourém


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