AS BRUXAS SÃO AS SACERDOTISAS DO PAGANISMO
Quais
sacerdotisas dos ritos próprios do culto pagão, as chamadas bruxas desde sempre
povoam o nosso imaginário, associado ao mal e representando figuras demoníacas
que ao longo dos séculos foram inculcadas nas nossas mentes pela religião
Cristã que entre nós viria a impor-se ao paganismo. Tal como a figura de Pã,
deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores veio ao longo da
Idade Média a ficar associada à do Diabo transfigurado na dama pé-de-cabra.
Proveniente do latim paganus que
significa literalmente camponês ou rústico, o paganismo constitui uma forma de
expressão religiosa em íntima comunhão com os fenómenos da natureza e
profundamente ligado às necessidades espirituais do indivíduo inserido no mundo
rural. Prova evidente dessa realidade constitui as tradições que respeitam aos
ritos do inverno e ao culto dos mortos, desde os peditórios de “Pão Por Deus”
até à “Serração da Velha”, passando pela celebração do solstício de Inverno e o
Entrudos, celebrações quase todas convertidas em celebrações cristãs como o
Natal, como se de festividades pagãs não se tratassem a sua origem. O mesmo
sucede com outras festividades como o Solstício de Verão, com os seus ritos
associados ao fogo e transformados em festividades são-joaninas.
Existem entre nós vestígios de antigos santuários
pagãos como a do deus Endovélico na região do Alandroal, registando a própria
toponímia a sua ancestral influência como sucede com a serra do Larouco,
proveniente do deus Laraucus.
Porém, no ano 312 deu-se a alegada conversão do
Imperador Constantino ao Cristianismo e, a partir do ano 392, passou o
paganismo a ser proibido no Império Romano e consequentemente reprimido e
perseguido, sendo essas medidas agravadas com a pena de morte a partir de 435
para quem praticasse ritos envolvendo o sacrifício de animais. Não obstante, o
paganismo continuou a praticar-se, de forma mais ou menos discreta, sobretudo
entre as gentes que viviam no campo. E a conversão à nova religião trazida
pelos invasores romanos não foi tarefa fácil, deparando-se com maiores
dificuldades entre os povos de regiões com maior apego às mais ancestrais
tradições como se verificou no Minho e em Trás-os-Montes.
Os antigos templos e santuários pagãos foram
destruídos para em seu lugar serem erguidas igrejas, o mesmo sucedendo com as
encruzilhadas dos caminhos rurais e outros locais de culto nas aldeias que
deram lugar a cruzeiros e a pequenos nichos contendo retábulos com as
“alminhas” do Purgatório que passaram espiritualmente a aterrorizar as mentes
dos humildes camponeses, até então habituados a uma relação mais sadia com a
natureza que os rodeavam. Os sacerdotes pagãos conferiram uma nova roupagem às
festas pagãs, procurando por esse meio conferir-lhes um novo sentido.
Mas, ainda assim, a religiosidade pagã sobrevive ao
lado da nova fé, traduzida na manutenção de velhas tradições como as máscaras
transmontanas e as festas dos caretos, o entrudo e as fogueiras de S. João. E,
mesmo no Minho onde aparentemente existe forte religiosidade cristã, o que se
verifica realmente é uma verdadeira manifestação de exuberância que caracteriza
o minhoto, mais não constituindo a festa cristã do que um pretexto para
exteriorizar a sua alegria como uma forma de profunda comunhão com a vida e o
meio que o rodeia, iluminada por magníficas girândolas de fogo-de-vistas que
revelam o seu apego embora inconsciente a antigas práticas religiosas.
Devemos a tais práticas religiosas pagãs os nossos
mais profundos conhecimentos de medicina popular no uso das mais variadas
espécies botânicas, o saber da meteorologia baseado na observação constante dos
fenómenos naturais e da própria astronomia transmitido de geração em geração
através de axiomas, a riqueza da nossa gastronomia e um infinito universo de
conhecimentos que fazem parte do rico património do nosso folclore.
Com o decorrer do tempo, as perseguições
acentuaram-se, tornando-se mais implacáveis durante a Idade Média e sobretudo
no período da Inquisição. As sacerdotisas do paganismo eram perseguidas sob a
acusação de bruxaria, sempre associada a práticas identificadas com ritos
satânicos e talentos que lhes permitiam voar sentadas em rudimentares
vassouras…
Nos tempos que correm, tais feitos mais não passam de
fantasias literárias e até antigos rituais ligados ao culto dos mortos foram
pela sociedade de consumo transformados em motivos de diversão, tal como no
passado foram associados ao mal. Mas, o certo é que as bruxas jamais deixaram
de existir e o paganismo parece estar de volta!

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