AS CÉDULAS FIDUCIÁRIAS NO MINHO DURANTE A CRISE FINANCEIRA DO INÍCIO DO SÉCULO XX
As cédulas
fiduciárias constituem, desde há muito tempo, um dos objectos de interesse de
coleccionadores e estudiosos, nomeadamente por todos quantos se interessam pela
numismática e notafilia, a nossa histórica económica ou simplesmente os
aspectos da vida regional.
Regra geral, o aparecimento de tais cédulas verificou-se em
momentos particularmente difíceis, de grave crise económica ou convulsão
social, mormente durante a primeira guerra mundial, em resultado do
encarecimento dos metais e consequente escassez de moeda corrente de baixo
valor indispensável a pequenas transacções. Esta situação era particularmente
sentida fora dos grandes centros urbanos, situação que levou ao aparecimento do
chamado "dinheiro de emergência"
constituído por cédulas, cuja emissão fora a princípio apenas autorizada à Casa
da Moeda mas que acabou por generalizar-se a inúmeras instituições oficiais e
particulares, como câmaras municipais, misericórdias e até estabelecimentos
comerciais.
Na cunhagem de moedas de reduzido valor facial, como sucede com
as divisionárias geralmente utilizadas na realização de trocos, são empregues
metais menos valiosos como o cobre, o alumínio, o níquel ou ligas constituídas
por aqueles a fim de que mantenham um valor nominal superior ao seu valor
intrínseco ou seja, em relação aos metais empregues na sua feitura. Sucede,
porém, que quando ocorre uma subia do custo daqueles metais, recorre-se à
emissão de cédulas fiduciárias a fim de evitar os elevados custos que a
cunhagem das moedas implica em relação ao seu baixo valor nominal. Foi
precisamente o que sucedeu nos finais do século XIX por ocasião da crise
financeira resultante sobretudo da baixa do câmbio brasileiro, facto que gerou
uma situação de pânico traduzida em falências, suspensão de pagamentos,
corridas aos bancos e o quase desaparecimento de circulação das moedas em ouro
e também em consequência da desvalorização da prata que levou quase à falência
do banco londrino Baring
Brothers que tinha acabado de conceder um empréstimo de oitocentas
mil libras ao Estado português, facto que determinou a depreciação da moeda.
Também, durante a Primeira República, o crescimento da dívida
externa com a Inglaterra resultante da participação na guerra e a inflação daí
resultante associada à especulação com as divisas constituíram factores que
determinaram a depreciação da moeda, mau grado as diversas tentativas feitas no
sentido do seu controlo que levou nomeadamente à criação da Junta Reguladora da
Situação Cambial que acabaria por ter existência efémera.
O historiador Oliveira Marques deu-nos o panorama da crise
financeira verificada com a implantação do regime republicano no nosso país.
Descreveu-nos ele o seguinte: "Em 1911,
o Governo Provisório introduziu o escudo, equivalente a 1000 réis e dividido em
100 centavos. Começaram logo os problemas com a estabilidade da nova moeda. O
valor oficial de origem - 1 libra de ouro = 4$50 - nunca pôde ser mantido.
Na verdade, já nos últimos anos da monarquias se iniciara a desvalorização da
moeda nacional, com o 1$000 réis aproximando-se mais da quinta parte da libra
do que do valor estabelecido. As desvalorizações atingiam 17 % quando começou a
guerra. Daí em diante o escudo foi descendo gradualmente: 6$35 (1915), 11$57
(1919). Escasseavam as moedas, particularmente as de trocos, que se substituíam
por cédulas de papel e cartão, dos mais variados tipos e feitios, emitidas
pelas câmaras municipais, pelas misericórdias e outras instituições, e até por
entidades particulares para seu uso privativo".
Com efeito, a partir de 1914, o governo autorizou a Casa da
Moeda a emitir cédulas que se destinavam a substituir as moedas de cinco, dez e
vinte centavos. Contudo, verificando-se que esta medida não era suficiente para
suprir a escassez de moeda então verificada, acabaram por ser autorizadas as
câmaras municipais a proceder à sua emissão com curso legal dentro da área dos
respectivos concelhos. Esta prática viria contudo a generalizar-se com a
emissão das referidas cédulas por parte de outras entidades. Citando ainda
Oliveira Marques, "durante
1917, a escassez de moeda era já tanta que começaram a aparecer cédulas
improvisadas, emitidas aqui e ali por todo o país, que a tentavam substituir.
Frente ao abuso, o Ministério das Finanças decidiu ir ao encontro das
realidades, determinando que a Casa da Moeda emitisse cédulas de 2 e 10
centavos e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa de 5 centavos.
Simultaneamente, ordenava a retirada de circulação e a recolha de toda a moeda
de prata do tempo da Monarquia, com a qual passou a dispor de reserva.
Apareceram, pouco depois, as primeiras cédulas. A partir de 1918, o privilégio
concedido à Santa Casa da Misericórdia cessou, cabendo também à Casa da
Moeda a emissão de cédulas de 5 centavos. Mais tarde (1922) surgiram ainda
cédulas de 20 centavos".
De aspecto bastante rudimentar, produzidas a princípio em
simples pedaços de papel ou de cartão com as mais variadas dimensões,
manuscritas ou impressas, com ou sem preocupação estética, as cédulas foram
progressivamente melhorando a sua apresentação gráfica, acabando por
revelar-se meios de propaganda turística e regional e, nos casos em que eram
emitidos por estabelecimentos particulares, meios expeditos de publicidade
comercial. Acerca da sua importância e aspecto, retemos a descrição feita pelo
Professor Marcello Caetano: "...as
emissões privadas continuaram, inundando o país de pequenos farrapos de papel,
de formas e dimensões variadas, impressos ou litografados, com ou sem vinhetas,
simples pedaços de cartão com o carimbo ou com a assinatura do comerciante e às
vezes até, discos de lata com figuras e dizeres estampados a cores. Eram de um,
dois, cinco, dez e mesmo vinte centavos, e até 1922 circulavam num meio mais ou
menos restrito, conforme a importância do emissor, no concelho se era uma
câmara, na clientela do estabelecimento se se tratava de um negociante:
verdadeira Notgeld cuja importância total se desconhece e é, já agora,
impossível apurar".
Apenas a partir de 1924 foi possível travar a depreciação do
valor da moeda e, desse modo, ir progressivamente reduzindo a utilização das
cédulas. De acordo com Oliveira Marques, "Em 1924, Álvaro de Castro que
juntara a Presidência das Finanças, conseguiu finalmente deter a marcha do
escudo. (...) A legislação de 1924 reformou também a moeda metálica, aumentando
o teor da liga e reduzindo o valor real das moedas. A pouco e pouco, foi sendo
possível acabar com as cédulas de papel de ínfimo valor".
Também no Minho não se fugiu à regra e por aqui circularam
cédulas de diferentes importâncias emitidas pelas câmaras municipais,
hospitais, comerciantes e outras entidades particulares. É o caso dos
exemplares que junto reproduzimos, de espécimes da Câmara Municipal de Braga,
da Associação Comercial de Ponte de Lima e do Hospital de S. José, em Arcos de
Valdevez.
Carlos
Gomes. Cédulas Fiduciárias de Ponte de Lima (Adaptado). Anunciador das Feiras
Novas.



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