AS MARINHAS DE SAL EM VIANA DO CASTELO

 


Seca do bacalhau em Viana do Castelo, indicador claro da existência de marinhas de sal.

Desde os tempos mais remotos, o sal é explorado nos estuários dos principais rios portugueses. Os romanos utilizavam-nos na produção do garum que era armazenado nos tanques de salga existentes na região de Setúbal e com ele pagavam aos seus soldados, o que explica a origem semântica do termo salário. Existem ainda outras formas de exploração como a extracção do sal-gema nas minas de Loulé ou nas marinhas de Rio Maior, constituindo este um caso notável de aproveitamento turístico desta actividade de que há registo escrito desde o século XII.

Para além daqueles exemplos, a extracção do sal subsiste ainda na Figueira da Foz, Alcochete, Alcácer do Sal e Olhão, não existindo praticamente memória da sua produção a norte do rio Mondego. Porém, a mesma verificava-se em tempos idos na foz do rio Lima, junto a Viana do Castelo, sendo disso testemunha a toponímia local. Uma vez abandonada esta actividade, ficaram os sapais que, apesar das regras de protecção ambiental, parecem desafiar os urbanistas na sua ânsia de levar o betão e o alcatrão até ao limite da sua ambição.

A recuperação das marinhas de sal de Viana do Castelo e a sua transformação em núcleo museológico, com funções didácticas, poderia constituir uma mais-valia cultural e turística para a região uma vez que seria um caso singular no norte do país. Aliás, à semelhança do que se verifica com o moinho de maré existente no rio Lima, conhecido por “Azenha de D. Prior”. A procura turística está cada vez mais virada para a vertente cultural e não se contenta mais com a visita a um monumento bastante conhecido, por mais valioso e apreciado que seja. Também os mais jovens se interessam em conhecer os processos naturais de produção, incluindo o ciclo do sal, conscientes de que este não nasce misteriosamente nas prateleiras dos supermercados.

Por outro lado, a recuperação das marinhas de sal representa o enriquecimento do nosso património cultural uma vez que traz-nos ao conhecimento, uma das formas de vida que outrora também ocupava os vianenses. É que, se noutras épocas existiram marinhas de sal na foz do rio Lima também existiram salineiros que fizeram desse o seu modo de vida. E, por conseguinte, possuíam os seus instrumentos de trabalho, o seu vestuário apropriado, os seus ritmos e modos de ser. E, quem sabe, ainda existirão peças de interesse junto dos descendentes dos antigos marnotos. Aliás, este deve constituir um tema de reflexão relacionado com o folclore vianense.

A presença do sal na economia e na dieta alimentar dos portugueses assumiu particular relevo na época dos descobrimentos quando era utilizado na conservação dos alimentos, medida considerada necessária para a sua preservação durante viagens tão prolongadas. Não admira, pois, a forma como consumimos o bacalhau e também a secagem de outros peixes, como ainda se pode observar na Nazaré, aliás à semelhança das práticas dos povos da península indiana em virtude do enorme afastamento de muitas cidades em relação ao mar. De resto, o seu tempero marca de forma algo indelével o paladar dos portugueses ao longo de sucessivas gerações e distingue a sua culinária em relação às dos demais povos europeus. O sal constitui, pois, um dos factores de desenvolvimento económico e os diferentes aspetos da vida que lhe está relacionada uma das marcas da nossa identidade.

Algures na Polónia, um luxuoso hotel foi construído no interior de uma mina de sal-gema idêntico à que existe em Loulé. Entre nós, as marinhas de sal de Rio Maior organizaram-se como cooperativa de sal e turismo, continuam a exportar muitas toneladas especialmente para a Holanda e recebem diariamente muitas centenas de visitantes. Da mina de Loulé é extraído o sal que é espalhado nas estradas francesas para desobstruí-las da neve. Alcochete criou um polo museológico com ligação aos estabelecimentos de ensino da localidade. A cidade de Viana do Castelo bem poderá recuperar as suas marinhas de sal e transformá-las num grandioso polo de animação cultural e turístico.

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