BOLO-REI TEM ORIGENS PAGÃS… UMA DAS GULOSEIMAS MAIS APRECIADAS!
À semelhança do que sucede com a generalidade dos
costumes da atualidade, perde-se no tempo a verdadeira origem do bolo-rei, da
mesma maneira que também este apresenta formas e designações variadas consoante
as culturas. Assim, em Inglaterra mantém-se a tradição de comer e efectuar
corridas com panquecas por ocasião da Terça-feira Gorda. Tratam-se, na
realidade, de festividades de origem pagã que se encontram ligadas a rituais de
fertilidade que outrora se realizavam por ocasião do Entrudo e visavam preparar
a chegada da Primavera e, como ela, o renascimento dos vegetais.
A própria designação de Terça-feira Gorda remete-nos para o antigo
costume de fazer desfilar pela cidade um boi gordo antes de sacrificá-lo,
prática cujas reminiscências ainda se preservam nomeadamente através das
largadas de touros e na corrida da Vaca das Cordas. Da mesma forma que nos
festejos carnavalescos se preserva a figura do respectivo Rei que cabia outrora
àquele que no bolo encontrasse a fava ou o feijão dourado, sendo como tal
tratado durante o ano inteiro.
Por seu turno, os romanos introduziram tal prática por ocasião das
saturnais que eram as festividades que se realizavam em 25 de Dezembro, em
celebração do solstício de Inverno, também eles elegendo um rei da festa
escolhido á sorte pelo método da fava. À semelhança do que se verifica com a
Coroa do Advento, a sua forma circular remete para antigos ritos solares
perfeitamente enquadrados nas festividades solsticiais e nas saturnais romanas.
Com vista à conversão dos povos do Império Romano que preservavam
em geral as suas crenças pagãs, o Cristianismo passou a identificar o
“bolo-rei” com a celebração da Epifania e, consequentemente, aos Reis Magos. E,
assim, aos seus enfeites e condimentos passaram a associar-se as prendas
simbólicas oferecidas ao Messias ou seja, a côdea, as frutas secas e
cristalizadas e o aroma significam respectivamente o ouro, a mirra e o incenso.
Apesar disso e atendendo a que eram três os reis magos, esta iguaria não passou
a ser identificada como “bolo dos reis”, conservando apenas a sua designação
como “bolo-rei” ou seja, contrariando a sua própria conversão.
Durante a Idade Média, este costume enraizou-se na Europa devido à
influência da Igreja a tal ponto que passou a ser celebrado na própria corte
dos reis de França e a ser conhecido como Gâteau
des Rois. Porém, com a revolução francesa, o mesmo veio a ser
proibido em virtude da sua alusão á figura real, o mesmo tendo sucedido entre
nós, imediatamente após a instauração da República, tendo alguns republicanos
passado a designá-lo por “bolo-presidente” e até “bolo Arriaga”, em homenagem
ao então Presidente da República.
Quanto aos seus condimentos e método de confecção, é usual
associar-se à tradição da pastelaria francesa a sul do Loire, o que parece
corroborar com a informação de que foi a Confeitaria Nacional a primeira casa
que em Portugal produziu e vendeu o bolo-rei a partir de uma receita trazida de
França, por volta de 1870. Resta-nos saber, até que ponto, também esta não terá
buscado inspiração no tradicional bolo inglês.
Com a aproximação da Páscoa associada à chegada da Primavera e, com ela, o renascimento da Vida, o tradicional folar não trará favas escondidas no seu interior mas ovos que simbolizarão a fertilidade, de novo a evocar ritos ancestrais a um tempo anterior à nossa conversão ao Cristianismo.

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