CAMINHA VAI TER ESTAÇÃO SALVA-VIDAS – INSTITUTO DE SOCORROS A NÁUFRAGOS: 133 ANOS A SALVAR VIDAS HUMANAS NO MAR!
O Minho dispõe até ao momento de três estações salva-vidas em
Viana do Castelo, Esposende e Apúlia
Passam 133 anos desde que foi criado o Real Instituto de
Socorros a Náufragos – renomeado de Instituto de Socorros a Naúfragos após a
implantação do regime republicano. Com efeito, esta entidade foi instituída em
21 de Abril de 1892 e contou durante a sua existência com o Alto Patrocínio de
Sua Majestade a Rainha D. Amélia, constituindo-se como uma entidade privada de
beneficência.
Atualmente, o ISN é um organismo integrado na estrutura da
Direção-Geral da Autoridade Marítima, com atribuições de direção técnica para
as áreas do salvamento marítimo, socorros a náufragos e assistência a
banhistas.
O ISN dispõe de 25 estações salva-vidas ao longo de toda a costa
de Portugal. No Minho dispõe de uma Estação Salva-Vidas principal em Viana do
Castelo e duas temporárias, em Esposende e na Apúlia. A estação principal é
situada em zona de elevado tráfego marítimo, tendo capacidade para operar em
Esquemas de Separação de Tráfego e dispõem nomeadamente de residência para os
tripulantes das embarcações salva-vidas, rampa, carris e abrigo. Por seu turno,
as temporárias não dispõem de residência e geralmente não estão dotadas de
rampa, carris nem cais acostável por perto, encontrando-se geralmente situadas
em locais cujo tráfego marítimo se resume a pequenas embarcações de pesca e
recreio.
Remonta aos começos do século XIX a criação do primeiro embrião
do que viria a constituir o Real Instituto de Socorros a Náufragos, actualmente
designado por Instituto de Socorros a Náufragos. Com efeito, data de 1828, a
criação pelo Rei D. Miguel da Real Casa d’Asilo dos Náufragados, em São João da
Foz do Douro, destinada a servir de abrigo para salva-vidas, tendo esta
constituído o primeiro serviço de salvamento marítimo devidamente constituído,
instalado na costa portuguesa. Dispunha esta Instituição de casa-abrigo para o
salva-vidas, enfermaria, casa das máquinas e outras dependências,
encontrando-se sob a inspecção da Junta de Administração da Companhia Geral de
Agricultura dos vinhos de Alto Douro.
O Instituto de Socorros a Náufragos foi porventura um dos
últimos do género a ser criado na Europa, visto a Inglaterra já ter fundado o
seu em 1824 e a generalidade dos países marítimos europeus o ter feito em
meados do século XIX. Apesar disso, tal como afirmou o insigne historiador
Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão na conferência que realizou na
Sociedade de Geografia de Lisboa por ocasião das comemorações do primeiro
centenário do Instituto de Socorros a Náufragos, em 21 de Abril de 1992, “A criação
do Instituto não representou um acto orgânico isolado, razão de necessidade
então mais sentida ou cópia de modelo estrangeiro. Foi, sim, um marco
importante, entre nós, na salvaguarda da vida humana no mar e dos bens dos
náufragos, de que Portugal foi pioneiro, e, ao que conheço, durante vários anos
exemplo único.
E explica a razão: “Com efeito, desde 1211 uma disposição legal
de D. Afonso II proibia que os senhores das regiões costeiras tivessem direito
de posse em relação aos bens arrojados à costa ou ainda encontrados dentro dos
barcos naufragados. Noutros países, quer no Mediterrâneo quer no norte da
Europa, a norma existente era a “jus naufragii” pela qual esses bens pertenciam
aqueles senhores, sendo prática, senão corrente pelo menos frequente, em certas
regiões, acender fogueiras em locais errados e usar outros ardis para levar os
navios a naufragar. O crime chegava ao extremo de assassinar os náufragos que
tinham escapado à fúria das ondas”.
E acrescentava: “Vem a propósito referir a política dos reis
portugueses, logo desde a fundação do país e com destaque para D. Dinis e D.
Fernando, no incentivo e protecção ao transporte marítimo pelo qual Portugal se
ligava aos centros comerciais da Flandres e do Mediterrâneo.
A disposição legal de D. Afonso II é assim perfeitamente
coerente com essa política que aproveitava a posição privilegiada da costa
portuguesa nas linhas de tráfego que ligavam os pontos da Itália e do
mediterrâneo levantino aos pontos do mar do Norte.
Há notícia, também, que D. Pedro mandou que junto às suas
fortalezas marítimas existissem sempre barcas disponíveis e aparelhadas para
prestar socorros a navios em perigo nas suas barras.”
E, finalmente, conclui: Em Portugal, só no último quartel do
século XVIII o Estado começa a tomar medidas sobre essa causa humanitária. É
assim que, em 1776, o esclarecido estadista que era o Marquês de Pombal
determina um certo número de obras e procedimentos, entre os quais a construção
de uma doca-abrigo, com vista à prestação de socorros aos navios que
naufragassem na barra do Tejo. Essas medidas não tiveram infelizmente
seguimento pois logo no ano seguinte, após a morte de D. José I, o Marquês é destituído
de 1º Ministro, afastado da política e exilado da corte.”
Em 1835, foi criada em França a “Sociedade Geral dos Náufrágios,
e de União das Nações pelo que respeita aos Salvamentos, ao Comércio e às
Ciências”, a que Portugal veio a aderir, tendo como Presidente da Real Secção
Portuguesa o Marquês de Sá da Bandeira. E, cinco anos volvidos, em 1840, foi
criada a Estação de Paço de Arcos, considera a mais antiga estação de
salva-vidas do país.
Em 1841, no seguimento de uma exposição apresentada pela
Associação marítima e Colonial de Lisboa à rainha D. Maria II, o Ministério da
Marinha e Ultramar manda orçamentar as despesas para salvamento de náufragos.
Em 1880, no reinado de D. João VI, Portugal recebe a primeira
embarcação especificamente constituída para salva-vidas, oferecida pelo 2º
Duque de Northumberland, destinada a actuar na foz do rio Douro.
Apesar disso, em virtude da instabilidade política vivida
durante o período das guerras liberais e, de um modo geral, ao longo da maior
parte do tempo em que vigorou a monarquia constitucional, a que se acrescentou
a independência do Brasil, não foi possível estabelecer em devido tempo um
eficaz sistema nacional de socorros a náufragos e também de sinalização
marítima, com a instalação de uma rede de faróis ao longo da costa portuguesa,
o que levava a frequentes naufrágios com avultados prejuízos e elevada perda de
vidas humanas.
O sistema de farolagem era então muito deficiente, escasseavam
os portos de abrigo, a pesca fazia-se com recurso a embarcações muito
deficientes e a navegação costeira em geral não ofereciam as mínimas condições
de segurança, o que tudo somado tornava a costa portuguesa uma das que maior
número de naufrágios registava em todo o continente europeu. Este cenário
trágico esteve na origem do epíteto “costa negra” como que até aos finais do
século XIX foi a costa portuguesa conhecida.
Ao fenómeno certamente não foi alheio o incremento da actividade
marítima e a procura no mar dos recursos piscícolas com vista a satisfazer as
necessidades de uma população cada vez mais numerosa para a qual, os bens
agrícolas revelavam-se cada vez mais insuficientes, tornando a navegação
marítima e fluvial mais intensa.
Entretanto, motivações de natureza política levaram ao
encerramento da Real Casa d’Asilo dos Náufragados da Foz do Douro, instituída
por D. Miguel, tendo o seu recheio sido vendido em hasta pública. Porém, as
tragédias sucederam-se sem existisse algum meio com que acorrer, sucedendo
mesmo que um dos naufrágios ocorreu em local próximo daquele onde se encontrava
a referida “Casa dos Naufragados”. Tratou-se do navio “Porto”, dele tendo
resultado a morte por afogamento de noventa pessoas, praticamente quase todos
os passageiros e tripulantes. As críticas à actuação do governo não se fizeram
esperar, constituiu-se a Comissão Humanitária da Foz do Douro e abriram-se
subscrições para a criação de um serviço de socorros a náufragos. Decorrido
algum tempo, foi de novo estabelecida a estação salva-vidas da Foz do Douro.
Escassos dois meses antes da criação do Real Instituto de
Socorros a Náufragos, outra tragédia veio a enlutar as famílias de 105
pescadores da Póvoa de Varzim e da Afurada. O país não podia, pois, continuar a
assistir à ocorrência de mais tragédias sem que nada se fizesse par ao evitar
ou remediar. Pode. pois, considerar-se este nefando acontecimento a causa
próxima da criação do Real Instituto de Socorros a Náufragos.
Estação Salva-Vidas da Apúlia provavelmente antes de 1911.
Socorristas a náufragos e sargaceiros (foto: autor desconhecido)
O Real Instituto de Socorros a Náufragos foi instituído pela
Rainha D. Amélia, através de Carta de Lei de 21 de Abril de 1892, a qual foi
sua Presidente de Honra até à data da implantação da República, em 1910.
Assumia à época o cargo de Ministro da Marinha e do Ultramar o Comandante
Francisco Joaquim Ferreira do Amaral.
Inicialmente constituída como uma entidade privava e benemerente
formada por voluntários, embora sob a égide da Marinha Portuguesa, o Instituto
de Socorros a Náufragos veio em meados do século passado a debater-se com
dificuldades financeiras e de pessoal para tripular as embarcações salva-vidas.
E foi assim que, a partir de 1 de Janeiro de 1958, o ISN transitou para a
tutela do Estado, ficando na directa dependência da Marinha Portuguesa.
Esta entidade foi inicialmente criada com vista a proceder ao
salvamento de náufragos e auxílio às suas famílias, bem assim daqueles que nas
acções de salvamento perdiam a sua vida. Porém, com o decorrer do tempo, a sua
acção foi alargando a sua abrangência como a do salvamento de banhistas nas
praias, actividade de lazer que passou a fazer parte dos novos hábitos
citadinos sobretudo a partir dos finais do século XIX. Neste âmbito,
inscreve-se a organização de colónias de férias para crianças que então eram
organizadas na praia da Trafaria.
Remonta a 1909 o Relatório da Comissão Central do Real Instituto
de Socorros a Náufragos, no qual surge pela primeira vez um registo de apoio a
banhistas segundo o qual, a fim de evitar acidentes, se propunha montar um
sistema de vigilância com recurso a uma embarcação que percorreria a praia
durante o período de banhos. Com efeito, estes sistemas foram pouco depois
montados nas praias da Trafaria e de Albufeira.
No ano seguinte à data daquele Relatório, foram ainda montados
120 postos de praia que dispunham de duas bóias grandes, duas bóias pequenas
com uma retenida de 25 metros, dois cintos de salvação, uma retenida de 100
metros e um quadro explicativo dos primeiros socorros a prestar aos náufragos.
Estes equipamentos, e o característico quadro que os acompanhava, passou a ser
um dos aspectos mais típicos dos portos e praias portuguesas.
Estes postos ficavam à guarda e cuidado do banheiro que prestava
serviço na praia, tornando-se à época uma figura muito característica e
estimada pelos banhistas.
Em 1905 foi publicado o manual de “Primeiros socorros a prestar
aos afogados”.
O sistema de vigilância nas praias foi estruturando-se à medida
que aumentava a afluência aos banhos, alargou-se progressivamente a quase todas
as praias da costa portuguesa e passou a fixar a própria época balnear. A
partir de 1940, passou ainda a ser complementada pela vigilância do cabo de
mar.
A imagem mostra a Rainha Dona Amélia presidindo à sessão para
distribuição de prémios, em 1910, promovida pelo Real Instituto de Socorros a
Náufragos, na Sociedade de Geografia de Lisboa. Foto Joshua Benoliel





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