CANÁRIAS: UMA PROFUNDA INFLUÊNCIA PORTUGUESA – CRÓNICA DE JESÚS ACOSTA
No seguimento do artigo intitulado A ascendência portuguesa dos
canarinos, como já dissemos, antes de
publicar o artigo: “Ares de Lima” género da música tradicional das Ilhas Canárias
de origem minhoto, queremos especialmente,
descrever um pouco aos leitores e seguidores deste ótimo blogue, a profunda
influência portuguesa na cultura do povo canarino que é o resultado
determinante da participação dos portugueses na conquista e posterior
colonização das Ilhas Canárias.
DIALETO
Como descrevemos no nosso primeiro artigo, a pesar de os
portugueses serem numerosos e maioritários em muitos povos, vilas e cidades das
Ilhas Canárias, após da conquista e posterior colonização, nunca alcaçaram o
poder e junto dos guanches e outros colonizadores, foram castelhanizados. Como
terrível consequência da imposição do castelhano, a língua dos que tinham o
poder, o português e o guanche não se arraigaram nas Ilhas Canárias, nem surgiu
um crioulo de base ibérica como o papiamento das Antilhas Neerlandesas ou de
base portuguesa como o cabo-verdiano de Cabo Verde e outros de outras ilhas do
Atlántico. Foi lamentável, pois hoje o guanche não seria uma língua morta e os
canarinos tivessem sido triglotas. Contudo, a formosa língua de Camões, José
Saramago mais outros grandes escritores lusos, deixou muitas palavras e
expressões no espanhol falado nas Ilhas Canárias. Da mesma forma, influiu em
algumas estruturas gramaticais, tal vez, os canarinos não usam o pronome
pessoal reto da segunda pessoa do plural vós e,
a sua correspondente forma verbal, por influência do português, onde acontece a
mesma situação. No que toca à fonologia é menor o contributo, porque neste ramo
da linguística o dialeto canarino foi mais influenciado pelo andaluz e, a
influência andaluza é quase a mesma que a recebida pelo barranquenho, mas no
dialeto canarino puro, o que se fala nos povos do interior das ilhas maiores e
em muitos povos das ilhas menores pelas pessoas mais idosas, ainda é possível
escutar a elevação da vogal átona o, conforme às regras do processo do
vocalismo átono próprio do português europeu: /o,ɔ/ fonológicos realizam-se
como [u] fonético, e dizer, em uma linguagem menos técnica, os o átonos (não
acentuados), são pronunciados como u, exemplos: andoriña “andorinha” folelé “libélula”, camino “caminho”
= anduriña, fulelé e caminu,
e algumas vezes com a evolução do português para o canarino, os termos
portugueses são escritos conforme à pronúncia: papas turradas
de la fogalera “batatas torradas
da fogueira”. Igualmente sucede nos lusitanismos a perda de silabicidade das
vogais átonas altas [i] e [u] em hiato, quando ocorrem antes de outra vogal
qualquer, são substituídas pelas semivogais correspondentes [j] e [w] e o
dialeto canarino toma em conta este fenómeno fonológico na escrita: mágoa = magua, Eanes = Yanes, Soares= Suárez, é o que seria uma
semivocalização das vogais átonas que geram uma ditongação, um ditongo
crescente: ea = ia ou ya e oa= ua, há linguistas que afirmam
que no português europeu não existem tais ditongos, mas no espanhol sim.
Finalmente, segundo o professor palmense D. Pedro Nolasco Leal Cruz, autor do
livro intitulado: El
español tradicional de La Palma, La modalidad hispánica en la que el castellano
y el portugués se cruzan y se complementan, em 20 de fevereiro de
2017 no site: www.eldiario.es/lapalmaahora/.../espanol-tradicional-profesor-Nolasco_0_603690508... ressalta
que «a única e grande diferença que tem o espanhol
de La Palma com
referência ao de outras ilhas é que em aquele o português tem feito muita mais
mossa que nas demais, até o ponto que pudo ser considerado uma língua crioula
como o foi o papiamento de Curaçao”. “ A Ilha conserva quase o 100% dos
portuguesismos canarinos. É sem lugar a dúvidas o lugar idóneo para estudar
melhor a influência do português a nível insular». Certas são as
palavras do professor, pois nalguns povos da ilha de La Palma, ainda é possível
ouvir o infinitivo pessoal que não existe no espanhol e outras estruturas da
língua portuguesa, grande foi a impressão na ilha bonita, que na linguagem
coloquial, os habitantes da sua capital Santa
Cruz de La Palma, são conhecidos popularmente como portugueses
e, uma das razões é, porque dizem que falam como eles.
PSICOLOGIA
A profunda influência portuguesa é em todos os aspetos da
cultura do povo canarino, mas é a impregnação guanche e lusa a que faz dos
canarinos serem diferentes do resto dos espanhóis. Como em Portugal, a família
é o centro da vida nas Ilhas Canárias, apesar de os velhos costumes estarem a
mudar, em particular nas cidades, é normal verem-se três e quatro gerações sob
um mesmo teto, onde a mãe exerce um papel fundamental pela sua excessiva
maternidade e, quiçá por esta razão, os canarinos têm um carinho especial pelas
crianças, ¡Mi niño! “O meu menino!” ou ¡Mi niña! “A minha menina!” é
uma expressão quotidiana das Ilhas que se emprega carinhosamente com os meninos
e algumas pessoas adultas. Os canarinos são sérios e em muitos casos
melancólicos, mas a relação social está baseada no bom humor. Um humor socarrón, “socarrão” com o
significado na língua espanhola de pessoa que se exprime de maneira dissimulada
e com aparência de ingenuidade e não com o signifacado de velhaco ou intrujão
em português. Um Humor irónico e indireto quase sempre encaminhado aos órgãos
e relações sexuais, outras partes do corpo e certas ações engraçadas. O
canarino utiliza esse humor como válvula
de escape para evitar um conflito. Uma vez estávamos a esperar
na charcutaria de um supermercado e uma das charcuteiras disse um número e,
como ninguém respondeu, passou ao seguinte e antão, um senhor empertigado com
muita arrogância exclamou: -Eu tinha o número anterior, não me viu que estava a
olhar para si!-, a charcuteira imediatamente contestou: -O Senhor tem
razão, exatamente, eu vi que o senhor estava a olhar para mim!-. Apanhou o
fiambre da fiambreira, para o levar à vitrina refrigerada e com um ligeiro e
irónico sorriso disse: -Mas eu não sei se esse estranho e intenso olhar tinha
outras intenções!- Todos os que esperávamos pelo nosso turno, começamos a rir
às gargalhadas, até o teso senhor, foi a fórmula perfeita para findar a
disputa. Alguns estudiosos e investigadores já declararam que é um humor de
origem galaico-português. No entanto, por detrás dos sorrisos e muitas vezes as
risadas ruidosas e prolongadas, há um muito enraizado aspeto da psique canarina
que os próprios canarinos denominan magua, em português mágoa, o
vocábulo do dialeto canarino mais querido que tem os mesmos significados que em
português e, em todo o arquipélago canarino, é a nossa saudade, essa espécie de
melancolia etérea que parece ansiar algo perdido ou inatingível caraterística
dos portugueses, a morriña dos
galegos, a nostalgia ou añoranza dos espanhóis, mas
nas Ilhas Canárias tem outros significados. Ficar com magua, algumas vezes é ficar com
ganas de comer algo, nas Ilhas Canárias os meninos não podem passar fome nem é
correto comer na frente de uma criança sem convidá-la porque é desaprovado. Uma
vez, na central de camionetas de São Cristóvão da Lagoa estava com os meus
filhos ao meio-dia e um senhor tinha um cacho de bananas e estava a comer, acho
que os meus filhos estavam a olhar para ele e o homem veio e deu-lhe uma banana
e disse: -¡Cómanse el platanito mis niños que están
esmayaditos!- “Comam-se as bananas os meus meninos que estão
com fome!”, e logo olha para mim e disse: -¡No los
podía dejar con la magua!.- “Não os podia deixar com a
mágoa!”. Só na ilha de La Palma magua também é utilado com o
significado de nódoa ou marca produzida por contusão e, na ilha de Lanzarote, o verbo maguarse “magoar-se” além do
sigificado que tem em todas as ilhas, é aplicado para dizer que uma rês fica
sem leite em uma teta. Ao longo da história, as Canárias foi a ponte entre a
Península Ibérica e América. Muitos canarinos emigraram desde o século XVI
e contribuíram à colonização da América, o destino foi sobretudo Cuba, Porto Rico, Venezuela, República
Dominicana, Uruguai e
os estados de Luisiana e Texas nos Estados Unidos da América, o povo canarino
como os outros povos galaico-portugueses, é um povo emigrante.
GASTRONOMIA
A gastronomia canarina tem muito da portuguesa, o gofio “farinha obtida de
trigo, milho e outros ceriais torrados” é o alimento principal herança do povo
guanche, mas depois são as batatas e, o segundo símbolo cultural da cozinha
canarina, são as papas
arrugadas “batatas enrugadas” cozidas com casca em água com
muito sal, que possívelmete têm a sua origem no gosto dos portugueses de
cozinhar as batatas com sal no forno, como são as batatas a murro. Quase todos
os canarinos acham que o puchero ou zancudo “cozido canarino” é
descendente do cozido madrilenho, mas é mais semelhante ao cozido de grão à
moda do Alentejo ou à algarvia, a diferença é que no puchero ou zancudo canarino, nos seus
ingredientes há mais vegetais: cove, batata, batata-doce, feijão-verde, chuchu,
bogango ou curguete, cenoura, abóbora, pera e espiga de milho tenro). Sem
dúvida alguma, o rancho canarino é herdeiro do português e o gosto pelo peixe
seco e salgado que nas Canárias é jareado,
não há mil e uma maneiras de fazer o bacalhau, mas temos o sanchocho de cherne, cozido em
água e outros condimentos e acompanhado com papas
arrugadas e molho verde ou vermelho ou o pescado salado en encebollado,
peixe salgado, geralmente: bacalhau, cherne ou corvina, com cebolada canarina
que é a base de quase todos os pratos: cebola, alho, pimento verde, pimeto
vermelho e tomate frito em óleo e temperado com sal, pimenta, orégão, tomilho,
loureiro e colorau, o peixe é fervido com a cebolada e um bocadinho de água e
vinho branco ou antes as postas do bacalhau são passadas por farinha de trigo e
douradas no azeite, neste caso, o azeite é usado para fritar a ceboladaporque
assim dá mais sabor, este prato com as papas
arrugadas é muito saboroso. São as duas formas mais típicas e
é um evidente legado português, como também é o molho de coentros, o gosto e
uso do milho na culinária, os cominhos e outros condimentos. O molho de
coentros pode ser à moda antiga: alhos, coentros, pimenta, óleo e vinagre feito
à mão com os ingredente picados com faca em bocados muito pequenos ou
triturados em almofariz; o atual molho é feito com varinha mágica com mais
outros ingredientes: pimento verde, limão, cominhos, água e abacate que o
deixam cremoso, as papas
arrugadas com este molho são deliciosas. É possível dizer que
os pratos mais representativos da gastonomia canarina são portugueses. A entrada pode
ser o queijo palmense (da ilha de La Palma) ou majorero (da ilha de Fuerteventura) grelhado e
servido com molho de coentros ou molho vermelho, o almogrote
gomero da ilha de La
Gomera com pão no forno a lenha ou as rodelas de tomate
canarino temperadas com alho, óleo vinagre e oregão. O primeiro plato é
o Puchero ou Zancudo, o segundo prato o Sancocho ou Pescado Salado com papas arrugadas e o frangollo de sobremesa,
uma espécie de aletria feita com rolão de milho com leite, ovos, açucar,
manteiga, um pedaço de casca de limão, um pau de canela, amêndoas e passas, de
consistência compacta como nas Beiras que se pode cortar em fatias ou cremosa
como no Minho, na travessa polvilha-se com canela e no prato pode ser servido
juntamente com mel ou guarapo “mel
da palmeira canarina” e acompanhado com uma mistela. Além da sobremesa típica
há outras: o leite assado e queijinho, que se parece ao pudim abade de Priscos,
ovos moles, flan, natillas,
arroz-doce, mais outros muito gostosos e uma doçaria importantíssima: bienmesabe de Gran Canaria, rapaduras equeijo de amêndoas de La Palma, quesadillas de El Hierro, tortas de La Gomera (são como
bolachas) mais outros; também os das Festas de Natal, Carnaval, Semana Santa:
Trutas (são como empadas) com recheio de batata-doce com amêndoas ou doce de
chila, rosquilhas, filhó de abóbora ou banana, torrijas, biscoitos, bolos,
merengue assado e muitos mais. Nesta reifeição tradicional dos três pratos
típicos mais entrada, não pode faltar a pella (bola)
de gofio e o vinho do país ou da
terra. Atualmente, com a regulação do colesterol para seguir uma dieta
saudável, com o Puchero ou Zancudo sem entrada e tal vez
com sobremesa é suficiente, como dizem alguns minhotos: -¡Já chega!-. A atriz
canarina Lili Quintana, no programa de humor da televisão autonómica das Ilhas
Canárias En Clave de Ja com a sua
personagem de Chona, disse que um dia foi almoçar
a um reataurante canarino, comeu queijo, gofio e
um pão inteiro com almogrote gomero de entrada, um prato encolmado como dizemos nas
Canárias “repleto” de puchero e
outro de sancocho com muitas papas arrugadas e molho colorado “vermelho”, tomou vários copos de vinho, um
prato de frangollo com mistela de
banana de sobremesa e, após de se tomar o café, quando ela chegou à sua casa se
comeu um iogurte activia para compensar a embostada “o
empanturramento”.
ARQUITETURA
A arquitectura tradicional canarina é uma variante da
arquitetura tradicional da Macaronésia de base alentejana e algarvia em relação
ao âmbito rural, no arquipélago canarino nas casas terréas rurais é possível
ver as cercaduras das janelas, os frixos das esquinas chamados faixas, barras
ou riscas e os rodapés a cor azul das casas alentejanas e as chaminés do
Alentejo e do Algarve. As casas da ilha de Lanzarote,
escolhida pelo Nobel de Literatura português como última morada, têm umas
chaminés que relembram muito às algarvias.
Nas duas fotografias a seguir mostramos o aporte cultural
alentejano, na primeira foto uma casa tradicional de Pedro Álvarez, freguesia do
concelho de Tegueste no nordeste da
Ilha de Tenerife. É a casa camponesa de
dois andares em estado ruinoso do mais puro estilo arquitetónico tradicional
canarino, variante do estilo colonial macaronésio. Nesta casa ainda é possível
ver um vestígio da faixa azul, janela de guilhotina e a frontaria está rematada
na sua parte superior com um beiral, prolongação do telhado, formado por uma
fileira de telhas. Foto de Tegueste
Guía Turística publicada pela Ilustre
Câmara Municipal da Vila de Tegueste em
fevereiro de 2002. Na segunda fotografia realizada por Naim Acosta, pode-se ver
uma casa tradicional de Valle de
Guerra, freguesia do concelho de São Cristóvão da Lagoa situada
na comarca nordeste da ilha de Tenerife.
Esta casa térrea é do estilo chamado de transição, em finais do século XIX e
princípios do século XX. Tem uma frontaria com janelas de tipo abatíveis e
postigos interiores, parapeito cego que oculta o telhado de telha marselhesa,
rematado por cordão de alvenaria e uma cornija do mesmo material ou de tijolo
maciço de argila avermelhado pintado a azul como as faixas e rodapé, as janelas
e portas não têm cercadura a azul, porque são de madeira.
Nas
vilas e cidades há influência de outras regiões ou províncias de Portugal,
calçada empedrada, janelas, portas e varandas, ornamentos de arte manuelina e
outras caraterísticas que trouxeram os portugueses, um belo exemplo de
decoração manuelina é a frontaria da igreja da Nossa Senhora da Asunção da
cidade de São Sebastião da Gomera, capital da ilha de La Gomera e a torre da
basílica da Nossa Senhora do Pinheiro em Teror,
padroeira da Ilha de Gran
Canaria. Já o disse Torriani, o melhor exemplo de uma cidade
que representa à arquitetura tradicional urbana à portuguesa em todo o seu
esplendor, é a cidade de Santa
Cruz de La Palma, capital da ilha de La Palma, mas também temos o
bairro de Vegueta no casco histórico
da cidade de Las
Palmas de Gran Canaria capital da Ilha de Gran Canaria e da
província (distrito) que administra as ilhas orientais. Em Tenerife temos no norte, a
cidade de San Cristóbal de La Laguna “São
Cristóvão da Lagoa”, berço de São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil e cidade
classificada Património da Humanidade pela UNESCO, o maravilhoso e encantador
entorno do ex-convento e igreja do Santíssimo Cristo de Tacoronte, em sobrecanarias.com/2010/04/05/tacoronte-mar-y-montana-en-tenerife/,
há uma foto muito bonita realizada em um dia cinzento, a Villa de la Orotava, joia
arquitetónica de Tenerife que
este ano solicitará à UNESCO a declaração de Património Mundial, casco
histórico do Puerto
de La Cruz, Los
Realejos, San Juan
de La Rambla, o entorno da praça de São Marcos junto do drago
milenário da cidade de Icod de
Los Vinos, Garachico e Los Silos, no sul temos Arafo, Vilaflor, mais outros
cascos históricos de grande beleza e pequenos casarios como Masca em Boavista do Norte
ou Ifonche no concelho de Adeje no sul de Tenerife.
A fotografia a seguir realizada por Naim Acosta, mostra La Casona situada no entorno
da igreja de Santa Catarina de Alexandria, padroeira da cidade de Tacoronte. É uma das casas mais
antigas que se conservam nesta cidade. Foi construida por Dom Juan Pérez,
clérigo da Igerja de Santa Catarina, no século XVIII, com o objeto de fundar a capellania da paróquia “sede
do capelão”, morada e escritório do padre ou pároco. Na sua frontaria
salienta-se a formosa varanda canarina envernizada igual que as portas e
janelas de guilhotina e, entre a casa de dois andares dos senhores e a casa
térrea da criadagem, está a porta com ameias típica da arquitetura tradicional
canarina. Junto da casa térrea com portas e janelas pintadas a castanho-escuro
sem alternância, há também uma casa de dois andares com a frontaria pintada a
amarelo-canarino, as portas e ventanas de guilhotina a verde-inglês e branco e
os grandes blocos de pedra das esquinas à vista, finalmente, a rua é pedonal
com calçada empedrada.
Em seguida uma fotografia realizada por Naim Acosta ilustra
a casa térrea que está noutro lado de La Casona, nesta casa pode-se ver o estilo mais representativo da
arquitetura tradicional das Ilhas Canárias, portada com ameias e cruz, ventanas
de guilhotina, paredes pintadas a branco e portas e janelas a verde-inglês com
alternância. O telhado quatro águas com telha mourisca ou árabe rematado com
beirais, formado por dupla fileira de telhas e todo o madeiramento de tea, uma madeira resinosa e muito duradoura que se
extrai dos pinheiros canarinos anosos.
A fotografia que se segue também realizada por Naim Acosta,
expor à vista mais perto, as casas mais próximas do ex-convento e igreja do
Santíssimo Cristo de Tacoronte que como já indicamos acima, no site sobrecanarias.com/2010/04/05/tacoronte-mar-y-montana-en-tenerife/, é possível ver quase todo o conjunto arquitetónico. Nestas
duas casas vemos outra modalidade, a casa pintada a branco com janelas e portas
a castanho-escuro e a casa pintada a vermelho-canarino. A cor mais típica nas
paredes e a branca e depois nesta ordem: amarela, vermelha, azul e verde, as
duas últimas não são muito vistas e, no que concerne à madeira de portas e
janelas, se a madeira não é envernizada, é pintada a verde-inglês e a
castanho-escuro, no caso das janelas quase sempre há alternâcia, as duas cores
principais com a cor branca. Finalmente, pode-se admirar outro tipo de calçada
empedrada e janelas na casa pintada a vermelho, que tem os blocos de pedra das
esquinas á vista.
AGRICULTURA
Agricultiura, pecuária, pesca, artesanato têm muito de Portugal.
O principal promotor da primeira expansão vitícola canarina foi o colonato de
origem português, que chegou à nova terra procedente do Norte de Portugal e da
Madeira e as primeiras castas que cultivaram foram a malvasia e o terrentês. A
viticultura é portuguesa, muitos portugueses que têm visitado as Canárias dizem
que os vinhos são muito parecidos aos portugueses, enólogos portugueses dão por
certo que a elaboração artesanal dos vinhos em Tenerife é
postuguesa, podemos ver a herança deixada pelos portugueses nos lagares
tradicionais canarinos que são como os madirenses, nos antigos palheiros ou
casas de telhados de palha de Tenerife e La Palma que são como
palheiras dos Açores e em vários instrumentos agrícolas. Onde mais se
pode apreciar o efeito português relativamente ao artesanato, é nas cestas e
trançados, nos bordados e rendas e na tecelagem.
MEDICINA POPULAR
Na medicina popular existe a figura do Santiguador “benzedor” e a do Curandero “Curandeiro” e as
benzeduras e remédios (infuções, tizanas, beberagens, unguentos, cataplasmas e
mais) são de base galaico-portuguesa, mas o curandeirismo recebeu o complemento
que introduziram os indianos,
como eram chamados os emigrantes canarinos que foram para a ilha de Cuba em
finais do século XIX e princípios do século XX, muitos deles voltaram ricos,
hoje os curandeiros mesturam com técnicas do curandeirismo caribenho. A
medicina popular está estreitamente vinculada à bruxaria canarina, pois
benzedores e curandeiros têm que curar el daño “malefício”
feito pelos bruxos, os feitiços, beberagens e outras questões da bruxaria no
começo tinham base galaico-portuguesa e depois ficaram mesturados com técnicas
africanas e americanas: santeria, vodu, candomblé e outras.
Exemplo de reza
Oração da noite
Ó Anjo da minha guarda, doce
companhia,
não me desampares, nem de noite
nem de dia.
Jesusinho da minha vida, tu es
menino como eu,
por eso eu te quero tanto e
dou-te o meu coração.
Quatro esquininhas tem a minha
cama,
quatro anjinhos que me
acompanham,
com Deus me deito e com Deu me
levanto,
com a Virgem Maria e o Espírito
Santo.
Amem
Exemplo de Benzedura
Ensalmo para cortar o mau-olhado, quebranto, susto, empacho e ar
Eu te benzo em nome do Pai, do
filho e do Espírito Santo
(o benzedor faz o sinal da cruz quando começa mencionar a
Santíssima Trindade)
e no nome que te puseram na
pia (nome da pessoa).
Eu te corto mau-olhado, opilação,
alimento mal comido, água mal bebida, susto, quebranto.
Eu levo-o para o mais alto dos
montes de Arménia e tiro-o para o mais profundo do mar,
onde não permaneça, nem perdure
nem dano possa fazer a esta criatura.
Se entrou pela tua cabeça, Santa
Teresa.
Se entrou pela tua frente, São
Vicente.
Se entrou pelos teus olhos, Santa
Lúcia.
Se entrou pela tua nariz, São
Luís.
Se entrou pela tua boca, Santa
Rosa.
Se entrou pela tua barba,
Santa Bárbara.
Se entrou pela tua garganta,
Santa Clara.
Se entrou pelo teu peito, são
Eulógio.
Se entrou pela tua barriga, Santa
Maria.
Se entrou pelas tuas conjunturas,
São Ventura.
E se entrou pelos teus braços e
pelos teus pés Santo André.
(No fim, reza-se a Oração do Credo e a Salve Rainha)
Esta versão de ensalmo é villera da Villa de La Orotava em Tenerife
Muitos benzedores quando chegam a uma avançada idade deixam de
curar porque quando rezam o doente transmite o dano: gritam, choram, arrotam,
bocejam e até têm contorções de dor.
INDUMENTÁRIA TRADICIONAL
No que se refere ao trajar, o melhor exemplo de comparação é o traje típico da
mulher da Villa de La Orotava com o
traje da mulher da Madeira e o traje típico do homem da ilha de El Hierro com o campino
ribatejano. Também há semelhanças nos trajes tradicionais da ilha de La Palma com os trajes dos
Açores.
JOGOS E DESPORTOS
Nos jogos e desportos tradicionais temos o Calabazo
“Cabaço”, que em Portugal é um regador de cabo longo e o recipiente
utilizado para tirar, de poços e tanques, água para rega. Esta técnica da
agricultura tradicional que se tornou em desporto na década de 80 do século XX
para evitar a sua desaparição, somente é praticada no Vale de Aridane na ilha de São
Miguel da Palma. A diferença com Portugal é que o cabaço na ilha de La Palma se utiliza para
tirar agua dos canais que estão nos bananais, que não são acéquias nem
regueiros. A referência mais antiga de rega com o cabaço que se conhece está em
una carta registada no ano 1868 e, a construção do canal de águas onde se
utiliza, da mão de colonos portugueses, començou no ano 1555.
FESTAS E TRADIÇÕES POPULARES
Há parecença nas romarias canarinas com os cortejos etnográficos do Minho e
benção de gado, as juntas de bois levam no pescoço umas bonitas coleiras com
pequenas campainhas que no Minho são mais ostentosas, mas nos Açores são
quase iguais. Há festas populares com tradição muito antiga que possivelmente
tem a sua procedência em terras portuguesas, há tejineros “habitantes
de Tejina” estudiosos e investigadores
que acham que a Festa dos Corações de Tejina,
declarada BIC (Bem de Interesse Cultural) em 2003 pelo governo
das Canárias, deriva da Festa dos Tabuleiros de Tomar, pois Ansejo Gomes, o
fundador de Tejina, era natural da antiga
sede da Ordem dos Templários. Tejina é
um pequeno povo (freguesia) do nordeste de Tenerife que
pertence ao concelho de São Cristóvão da Lagoa, separado da cidade de Tacoronte pelo povo de Valle de Guerra e poucos
quilómetros separam este povo da Vila de Tegueste e
o povo turístico de Bajamar.
Temos de lhes dizer que o fundador de Tejina era
concunhado de Sebastião Machado, fundador da cidade de Tacoronte, porque Asenjo Gomes
era o esposo de Guiomar Gonçalves e Sebastião Machado de Isabel Gonçalves, duas
irmãs filhas de Gonçalo Gonçalves Teixeira natural de Braga. Este bracarense
sogro dos dois fundadores antes mencionados, participou na conquista das Ilhas
Canárias, pelo que foi beneficiado com terras no repartimento através das datas. O Antonio Miguel Rodríguez,
farmacéutico da Câmara Municipal de São Cristóvão da Lagoa iniciará em breve em
representação da Associação de Vizinhos As Três Ruas de Tejina o contacto com a
Câmara Municipal de Tomar para estudar e investigar as possíveis relações dos
Corações com os Tabuleiros e fazer uma geminação do povo de Tejina com Tomar. Bravo!
Antonio, terás toda a nossa ajuda. O Antonio publica artigos no blogue: pastillerodesalud.blogspot.com,
onde há alguns muito interessantes como: Portugueses en Tejina, en el origen de nuestra cultura del vino publicado
em 6 de dezembro de 2015, piedra y madera em 25 de setembro de
2015 e El origen divino de las plantas, Ceralias em
20 de julho de 2016, neste artigo há fotos antigas muito bonitas e uma foro de
uma eira canarina lajeada.
De seguida uma foto com o Corazón
de Tejina: Calle Abajo, “Coração de Tejina: Rua Abaixo” fotografia
que está na p. 50 da 2ª edição revista e amplada do livro intitulado: Fiestas de San Bartolomé de Tejina da
autoria de María José Ruiz e Guadalberto Hernández, publicado pela Câmara
Municipal de São Cristóvão da Lagoa em 2002.
MÚSICA TRADICIONAL OU FOLCLÓRICA
Finalmente, falamos um pouco da música tradional ou folclórica.
Não quero mais sinfonias
paro o hino das Canárias,
tenho com umas folias
e um povo atrás que as canta.
Quadra número 56 que está na p. 24 do livro intitulado: Año canario 365 coplas y algunos versos más
acerca de El Condumio da autoria de Luis Carrasco publicado
pelo CCPC em 1991 e, é toda uma certeza. A Folia, é por excelência a canção
tradicional mais representativa do folclore musical canarino, propalada por
toda o nossa terra e além fronteiras pela diáspora canarina no mundo.
Conforme à opinião dalguns musicólogos, este canto da etapa setecentista
profundo, pois com ele o canarino exprime todos os seus sentimentos, pode
proceder de Portugal e, temos de lhe dizer, que igual que muitos fados, quando
o cantor começa o canto, os instrumentos tocados com plectro (bandolins,
bandurras e alaúdes) fazem o que na linguajem da música tradicional canarina
chama-se contracanto, um contrapunto à
melodia interpretada pelo cantor. A Malagueña é
a canção mais triste do nosso floclore musical com estrofes que falam da morte
de uma mãe, de um filho e outras perdas e desgraças:
Eu vi a uma mãe morta
sobre uma tumba de mármore,
com a sangue corrompida
e o coração feito troços,
pelo filho que queria.
Não há coisa como uma mãe
encuanto no mundo existe,
porque uma mãe consola
a um filho quando está triste.
São as herdeiras diretas do fandango andaluz, mas a sua música tem muita simulitude com a charamba açoriana, há fragmentos musicais das duas canções que são iguais. Também pode descender do cavaquinho português igual que o ukulele havaiano, o Timple, que para os canarinos é o instrumento nacional, da nação canarina. Com exatidão, são os Aires de Lima “Ares de Lima” o género musical totalmente português, investigados pelo musicólogo Lothar Siemens provêm do Minho, das freguesias perto do Rio Lima e é um canto com lindas melodias típico das descamisadas canarinas, esfolhadas no Minho. Deste assunto, escreveremos um artigo mais aprofundado e ilustrado com letras e partituras, porque é uma dívida que temos com Carlos Gomes, mas queríamos escrever primeiro o artigo anterior e este, porque assim os leitores e seguidores deste excelente blogue, compreenderão melhor a razão pela que na música tradicional das Ilhas Canárias, há um género musical importado do Minho.
Os leitores e seguidores deste magnífico blogue podem fazer
pesquisas na Internet para ter mais informação, ver fotos e poder comparar ou
fazer um passeio virtual pelos lugares dos que falámos. Para aprofundar mais e
conhecer alguns dos portugueses conquistadores e cofundadores do nosso povo,
aconselhamos a leitura do artigo intiulado: ABUELOS
PORTUGUESES. UNA ASCENDENCIA FAMILIAR EN CANARIAS, SIGLOS XV y XVI I e II no site geneacanaria.blogspot.com/2015/02/abuelos-portugueses-una-ascendencia.html.
O nosso próximo artigo será um exemplo desta profunda influência portuguesa no povo canarino e, como melhor se pode exemplificar, é com o dialeto canarino. Uma breve estória escrita em dialeto canarino com a tradução em português mais um análise, demonstrará com clareza, que quando falamos de profunda influência, não é com excesso.
Este artigo é dedicado com muito orgulho e grande respeito à memória dos pais cofundadores do nosso povo, os portugueses que deixaram a sua maravilhosa terra natal para vir às nossas ilhas e legaram-nos uma formosa herança que constitui o nosso precioso património histórico, artístico e cultural, e eu, especialmente, desde o mais profundo do meu coração, dedico este artigo a minha mãe, que desde o berço me transmitiu a cultura tradicional da minha terra. Para ti a minha querida mãe.
Jesús Acosta
ACGEIA
São Cristóvao da Lagoa
Tenerife
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