CARNAVAL OU ENTRUDO: A PRIMAVERA ESTÁ À PORTA!
O termo Carnaval
provém do latim "carpem
levare" que significa "adeus
carne" ou "retirar
a carne" ou ainda estar associado a curru
navalis que consistia num carro de rodas marítimo que saía
para o mar e significava o retorno à pesca com a chegada da Primavera. Trata-se
com efeito de um período de licenciosidade em que, por oposição à Quaresma se
come carne, constituindo por assim dizer uma época festiva que se destina
simultaneamente a ritualizar a despedida do ano velho e, por conseguinte, o entrudus ou entrada da
Primavera e no período quaresmal que a antecede.
Com a chegada do Inverno e a consequente morte dos
vegetais e da própria natureza, o homem recorre preferencialmente ao consumo da
carne como forma de assegurar meios de sobrevivência. Desde sempre, o porco
representou um elemento essencial na economia familiar nos meios rurais uma vez
que a sua carne pode ser conservada na salgadeira durante muito tempo, o que
permite suprir a escassez de outro género de alimentos como os vegetais que
geralmente desaparecem durante o Inverno. E é durante este período que ocorrem
um pouco por todo o lado as tradicionais matanças do porco num ritual com um
certo carácter festivo. E, continua a ser o porco o animal que entra
preferencialmente na simbologia do Carnaval, não raras as vezes associando-se o
respectivo focinho às máscaras carnavalescas.
Desde os tempos mais remotos, os povos sempre
ritualizam a entrada do ano ou seja, a chegada da Primavera e o renascimento da
natureza, acreditando que dessa forma esta lhes seria favorável. Com efeito,
para o homem primitivo a celebração do ritual correspondia a uma forma de
participação na acção criadora dos deuses, assegurando-se desse modo que o
ciclo da natureza não seria interrompido, o que confere ao rito um carácter de
magia imprescindível à reprodução do gesto primordial ou seja, o da própria criação
do mundo e das coisas. O rito é, por assim dizer a celebração do mito da
criação, assumindo sempre a sacralidade imanente ao acto da criação divina.
Assim se verifica com as práticas relacionadas com o culto dos mortos que
ocorre invariavelmente com a chegada do Inverno e também com as celebrações do
nascimento do sol que se verifica no solstício de Dezembro, altura em que os
dias cessam de diminuir e voltam a crescer, ocasião essa que dava lugar às
saturnais entre os romanos e com a influência do cristianismo veio a originar a
celebração do Natal de Jesus Cristo, embora não existam quaisquer documentos
que indiquem ter sido essa a sua data de nascimento. Ora, é directamente das
saturnais romanas que provêm directamente os festejos de Carnaval os quais eram
consagrados à divindade egípcia Ísis, embora estes a tenham adquirido dos
gregos que as realizavam em honra de Dionísos, um deus do vinho e dos prazeres
da carne. Em Veneza onde as máscaras brancas ainda pontificam, o Carnaval
terminava com o enterro de Baco, curiosamente, a divindade que na mitologia
latina corresponde à de Dionísos na Grécia antiga.
O uso de máscaras que ocorre durante os festejos de
Carnaval tem na sua origem um carácter religioso relacionado ainda com o culto
dos mortos, pretendendo-se com a sua antropomorfização invocar os seus
espíritos e a sua intercessão no ciclo ininterrupto de vida e morte da própria
natureza e dos vegetais, razão pela qual muitos mascarados se vestem de branco,
afivelam máscaras que representam esqueletos ou simplesmente a própria morte.
Acendiam-se fogueiras e queimavam-se bonecos, costume aliás que de igual modo
deve estar na origem da serração da velha, a qual também nos aparece sob a
forma de pulhas e ainda na versão mais cristianizada da queima do Judas. É
neste contexto ainda que se inserem as tradicionais máscaras transmontanas e as
festas dos rapazes que ali têm lugar.
Com o decorrer dos tempos, estas festividades também
adquiriram um carácter de crítica social, visando com ele corrigir os desvios
verificados no ano velho de modo ao renascimento da natureza também se operar
no indivíduo e no seio da própria sociedade, o que explica as pulhas e os
"testamentos" que são lidos na serração da velha e na queima do
judas, bem assim como as máscaras que procuram representar alguém sem ser a
própria morte. Aliás, na tragédia grega a máscara que era usada significava
precisamente a "pessoa" que se representava.
Resultante da combinação entre a cultura europeia
predominantemente portuguesa e as culturas africanas e indígenas, o Carnaval
adquiriu no Brasil alguns aspectos diferenciados a que não são alheias as
condições climáticas e as diferentes influências que se verificam nas diversas
regiões como sucede com o Carnaval da Baía em relação ao de São Paulo e do Rio
de Janeiro. Por conseguinte, a transplantação do Carnaval brasileiro para
Portugal afigura-se a todos os títulos desajustada como ridícula, apenas justificável
por motivos comerciais. Aliás, da mesma forma que sucede em relação ao
haloween, costume que se insere no culto dos mortos e foi levado para o
continente americano pelos colonos europeus e que agora regressa sob a forma de
mercadoria.
Perdida que foi a sacralidade primitiva, os festejos
chegam até nós pela tradição, despojados de espiritualidade, apenas envoltos em
fantasia e divertimento, mas contendo ainda em si os elementos que o
determinaram. Com efeito, o Carnaval ou "festa da carne" antecede a
Quaresma, para os muçulmanos o Ramadão, período de abstinência que se destina à
purificação do corpo e da alma e que visa preparar-nos para o renascimento da
vida e da natureza, o ano que começa com a chegada da Primavera.
E é então que tem lugar a Serração da Velha e o
garotio percorre os caminhos das aldeias com zambumbas e zaquelitraques,
tréculas, sarroncas e tudo quanto produza barulho e que se destina a afugentar
os demónios do Inverno. Práticas estas, aliás, que também ocorrem consoante os
casos no Carnaval e na passagem de ano, na noite de Natal ou durante os Reis.
Para trás ficou a longa noite do Inverno repleta de visões e fantasmas
aterrorizantes com abóboras iluminadas nas encruzilhadas dos caminhos e
reuniões de bruxas sob as pontes e nos cabeços dos montes, os peditórios de
"pão por Deus" e as visitas aos cemitérios, a queima do madeiro e o
cantar das almas.
É então chegada a Primavera e com ela as festas
equinociais. É tempo de renascimento da vida e da própria natureza, celebrado
entre os cristãos como a ressurreição de Cristo e representada através do ovo
da Páscoa, símbolo da fertilidade e do nascimento da vida nova. Entre muitos
povos europeus mantém-se o costume de enterrar ovos nos campos que servem de
divertimento ao rapazio que se entretém à procura enquanto a nossa gastronomia
conserva a tradição do folar. Ao toque das sinetas e ribombar dos foguetes, os
mordomos aperaltados nas suas opas vermelhas levam a cruz florida a beijar de
casa em casa enquanto os caminhos se enchem de alecrim, funcho e rosmaninho - é
o compasso pascal, a forma como a festa é vivida nas aldeias de
Entre-o-Douro-e-Minho e também em Trás-os-Montes.
Em breve virá o Maio e com ele as maias feitas de
giestas floridas, a celebração do Corpus Christi, das festas do Espírito Santo
em Tomar e nos Açores, as fogaceiras em terras da Feira e as festas e romarias
que animam as pequenas comunidades rurais, as peregrinações aos pequenos
santuários e ermidas que salpicam montes e vales e que servem de pretexto para
mais uma festa. As gentes do mar adornam os seus barcos e vão em colorida
procissão dar graças pelo pão que o mar lhes dá e invocar a protecção que lhes
vale na aflição.
A seu tempo chegarão as colheitas e as malhadas, as
vindimas e com elas as adiafas, o S.Miguel e as desfolhadas que nalgumas
regiões também se dizem descamisadas. E, de novo, reiniciar-se-á o ciclo da
vida e da morte que assim permanece desde a criação do mundo, como um carrossel
num movimento incessante.
Na religião primitiva, o Homem unia a morte à vida
como uma constante de perpétuo renascimento. Tal como na natureza ao Inverno
sucede a Primavera e com ela o renascimento da vida e dos vegetais, a vida
renasce da morte da mesma forma que esta resulta da própria vida. Esta forma de
pensamento vamos aliás encontrar na filosofia platónica e em civilizações mais
recentes ainda que sob formas diferenciadas. A tradição trouxe-nos até nós tais
práticas que passaram a fazer parte do nosso folclore.
Pese embora as transformações culturais e as
modificações que entretanto se operaram na mentalidade dos povos, as mudanças
sociais e de modos de vida cada vez mais divorciada da própria natureza,
cumpre-nos manter tais costumes como forma de preservar a nossa identidade e, o
que nos parece essencial, a nossa própria dimensão humana. Graças à tradição
conseguiremos transmitir aos vindouros o conhecimento humano que os nossos
ancestrais nos legaram.
O xé-xé era a figura
mais típica do carnaval no século XIX e que, entretanto, desapareceu.


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