COMO VIVIA O MINHOTO NOS COMEÇOS DO SÉCULO PASSADO?
Sob o
título “Como vive e de que vive o agricultor do Minho”, a revista “Ilustração
Portugueza”, na sua edição nº 9 da II Série de 1906, publicou uma extensa
reportagem da autoria de F. Neves Pereira, fazendo um retrato social do Minho
nos começos do século XX, descrevendo o modo de vida das suas gentes no
ambiente rural e, sobretudo, das dificuldades que enfrentava para sobreviver
sem perder a alegria da vida. Pelo seu interesse sociológico e também
etnográfico, reproduzimos aqui algumas passagens do trabalho publicado naquela
revista.
“No único aposento da casa, coberta de colmo esburacado ou telha
vã, de rudes paredes de pedra sobreposra, por cujas fendas entra o frio e o
vento, nasce, sem assistência de parteira, no mesmo catre bárbaro do noivado, a
creança minhota. Uma hora antes de dar á luz, a mãe pôz ao fogo do lar a trempe
de ferro com agua para o banho. O marido está nos campos a sachar, a lavrar ou
a podar as vinhas. Vae uma visinha chamal-o para ver o filho, que nasceu. No
dia seguinte é o baptisado. Quatro dias depois, a mãe apparece na eira com o
filho ao colo. Passada uma semana, leva-o com sigo para o campo ou para o
monte. Durante dois annos, – ás vezes mais, – lhe dá o seio. Já o pequeno come
boroa e ainda mama. Exposta ás intempéries, ao calor e ao frio, ao sol e á chuva,
como um animalsinho bravio nascido no monte, sob uma lapa, a creança ou
succumbe ou fortalece. As mais das vezes cria-se, resistente e forte, n’esse
severo regímen de selecção natural. Apartada do leite, é então invariavelmente
abandonada á educação do proprio instincto. Aos cinco annos ensinam-lhe a
resar. Aos sete annos confiam-lhe a guarda dos bois. A creança passa já os dias
no monte, solitária, pastoreando o gado. O monte é a sua primeira escola e
quasi sempre a única. Aos dez annos, começa a preparar-se para a communhão,
indo á doutrina. Aos doze annos communga. E a vida de trabalho ininterrupto
principia. Rapaz ou rapariga, que já é de communhão, é uma creatura emancipada.
Se os pães são pobres, vão servir. Se são filhos de um lavrador remediado, fazem
em casa o tirocínio árduo da lavoura. O creado de servir começa por ganhar a
soldada de dois mil réis por anno e os usos. Mais tarde, dos dezoito aos vinte
annos, chegam a ganhar, os mais diligentes, ao serviço de lavradores mais
abastados, três moedas. Mas esta soldada é um fenómeno. Os usos variam com a
edade dos serventes: uma a três camisas de estopa, um ou dois pares de calças
de cotim ou saias de riscado, um collete e uns tamancos. Aos rapazes, as amas,
por contracto, remendam-lhes e lavam-lhes a roupa.
As relações entre estes servos pobres e estes amos tão pobres
como elles são familiares sem isenção de respeito. O minhoto tem, como o
romano, seu antigo senhor, a noção innata da hierarchia.
Por volta dos vinte e dois annos, o moço de lavoura, tendo
concluído a sua aprendizagem, e livre de soldado, casa-se. É tão raro ficar um
lavrador ou lavradeira sem casar como haver moço que não lucte tenazmente, para
se furtar ao tributo do sangue. O casamento é no Minho a base essencial á
independência. Moço ou moça que não case fica condenado a servir toda a vida ou
a trabalhar a jornaes. Toda a economia social d’esta vasta província portugueza
assenta sobre a constituição da família. Quando se fizer o estudo social
minucioso, que de há muito devera estar concluído, da população do reino,
ver-se-há que a densidade do Minho, a intensidade das suas culturas e a sua
imensa capacidade tributária derivam do seu regímen familiar. D’ahi e porque a
caserna contamina o minhoto com o desprezo pela labuta da terra e lhe predispõe
o organismo para exigências maiores de alimentação, de vestuário e de conforto,
o recusarem systematicamente os pães a mão das filhas a todo o pretendente que
um dia vestiu farda. Ter sido soldado, ter comido o rancho, ter dormido n’uma
tarimba, é ser um repudiado. O soldado conheceu no quartel uma vida melhor.
Esse passado afasta-o da communhão dos rústicos. Implacavelmente, o campo
expulsa-o para a cidade, de onde elle veiu. Por isso o lavrador se despoja de
quanto tem para livrar o filho de soldado e casal-o. O casamento é a aspiração
unânime, o fim para que tendem todos os esforços, o premio conquistado com as
canceiras as mais indescriptiveis, quando, afinal, esse casamento representa
apenas a pobreza a dois, o trabalho a dois. O idyllio, meio sensual e meio
lyrico, iniciado nas romarias, nas desfolhadas e no adro da egreja, termina com
a boda para se converter n’uma obstinada refrega pelo pão.
Ordinariamente, a noiva leva para o casal um cordão e umas
arrecadas de oiro e o noivo as alfaias indispensáveis para o grangeio das
terras. Os parentes e os amigos offerecem aos esposados, este duas gallinhas,
aquelle uma raza de milho ou de centeio, outros dois afuzaes de linho, um
colher de ferro para a panella, meia dúzia de tigelas ou de pratos de barro,
meio alqueire de feijão, a pá para o forno, um molho de lenha… Se um delles é
filho de lavrador abastado, este abona-lhes o gado: uma junta de bois medianeirinhos
para principiar e uns touros novos para a engorda. Algumas vezes, raras, levam
ainda em dote uma ceva morta e meia pipa de vinho. O primeiro dia de casados é
para os noivos pobres o primeiro dia de trabalho árduo. Vão amanhar os dois
umas terras pequenas, que tomam de renda barata; assoldam um creadito novo, de
pequeno ganho, que os ajude no mourejar dos campos e a ama nos arranjos da
casa. Desde o nascer do dia até noite fechada trabalham ambos no campo ou na
eira. À noite, até altas horas, a mulher fia, junto da lareira apagada, a teia
com que há de fazer as primeiras camisas e os primeiros lençóes. O homem
descança da labuta do dia, ajudando a mulher a dobar o fiado.
Feitas as podas, as mergulhias, os enxertos e as sementeiras, e
antes das colheitas, quando a lavoura abranda, o homem vae ás feiras, vende os
bois, compra outros mais baratos e ganha alguns tostões em carretos de pedra. A
mulher, no entanto, córa a teia, lança ninhadas de frangos e galinhas e engorda
os cevados… para vender. Mas esses pobres teem uma riqueza: são independentes.
Emquanto pagarem com o que a terra lhes dá a renda por que a tomaram, essa
terra que eles lavram e cavam e semeiam pertence-lhes. É d’essa terra, adubada
com o seu suor, que lhes vem, com o sustento, o orgulho de um domínio que se
lhes afigura sem partilha. São d’elles as aguas, os campos, as arvores, os
montes, a eira e a casa. Não existe para elles, como para o operário, um patrão
dominador e imperativo. Só elles mandam na sua fabrica, de que são,
simultaneamente, rendeiros e operários.
O alimento d’este casal de noivos pobres reduz-se a pouco mais
do que a caldo e pão. O homem que trabalha da aurora até á noite, a mulher que
o acompanha na sua lida incessante, comem menos do que as creanças da cidade. E
attentae na mulher. Se a gravidez a não deformou já, é uma mocetona corada e
jovial, de larga bacia fecunda, de aflantes seios, de roliços braços de
trabalhadora e de amorosa. O homem é musculoso e rijo. Ambos cantam enquanto
sacham. Nenhuma tristeza perturba esse casal pacifico e laborioso. Gosam
amplamente as duas saúdes humanas: a moral e a physica, de cuja união resultam
as felicidades perfeitas. O trabalho é o seu regímen moral. Vae ver-se em que
consiste o seu regímen alimentar, base da saúde do corpo.
O caldo d’estes trabalhadores infatigáveis reduz-se a algumas
couves gallegas, apanhadas na horta, a alguns feijões – poucos, porque são
caros, – e um magro fio de azeite como adubo. O pão é de milho e centeio,
cozido em grandes fornadas de dois ou três alqueires… para durar, tornar-se
rijo e render mais! O cozer pão a miúdo é prejudicial á economia. Come-se mais
emquanto é fresco e quantas mais vezes se accende o forno mais lenha se
consome! Raras, muito raras vezes, á merenda, comem os lavradores, como presigo,
a sardinha. De longe a longe, quando o sardinheiro as vende a mais de 5 ao
vintém, a mulher aventura-se a gastar dez réis n’esse luxo supérfluo!
Annos há, porém, em que o pão escasseia, a arca se esgota, e o
preço do alqueire de milho sobe, como há quatro annos, acima de oito tostões.
Então, o lavrador passa a comer pão de centeio e semeia batatas para substituir
o thesouro alimentício da boroa de milho. Á salgadeira – os que a teem – vão
apenas pelas festas do anno: o Entrudo, a Paschoa e o Natal, ou em dias de
trabalho extraordinário, quando não podem de todo, sozinhos, grangear as
terras, e rogam o auxílio dos visinhos, que vêem ajudar, sem jornal, só pela
mantença.
Uma família de lavradores minhôtos que, não satisfeita com as
dadivas generosas da terra: pão, batatas, hortaliça, feijão, fructa e lenha,
gasta em alimentação, vestuário e demais necessidades da vida para cima de dez
tostões por mez, ou é rica ou está erdida!
Parecendo á primeira vista impossível que tão insignificante
quantia possa chegar ao custeio de uma casa, verifica-se, em face de um ligeiro
orçamento, que ella é sufficiente e não é mesmo attingida as mais das vezes.
O exíguo orçamento de um casal de lavradores no Baixo-Minho póde
resumir-se, para as primeiras necessidades, a quatro verbas únicas e
modestíssimas:
Azeite…………...240 réis
Sardinhas…..……100 réis
Sal…………….….20 réis
Sabão…………….60 réis
Ou um total de 420 réis
Ficam de fora as despezas de vestuário. Uma andaina de roupa
para homem, que póde custar aproximadamente 8$000 réis, dura entre 5 e 10
annos. Quasi sempre descalço, o lavrador não chega a romper por anno um par de
tamancos. O chapéu, que custa de seis a dez tostões, serve apenas nos dias de
feira ou de romaria. No serviço, o lavrador usa a carapuça de lã no Inverno e o
chapéu de palha, de vintém, no verão.
Aparte o ouro que compram com as economias do casal e que, como
o gado, é considerado fortuna commum, as mulheres gastam ainda menos do que os
homens! Duas saias de chita clara, dois aventaes com barras de veludilho, um
collete de riscado cor de rosa com guarnições de fitilho preto, um lenço farto
para o seio e mais dois para a cabeça, são objectos que as mais pobres adquirem
apenas duas vezes na vida: quando noivas e quando, mais tarde, casam o primeiro
filho! As mais abastadas compram de dez em dez annos uma saia de baeta crepe,
de anno a anno um lenço de seda, de dois em dois annos umas chinelas de verniz.
São as pródigas.
Roupa branca, lenções, toalhas e ainda as calças de uso dos
homens sahem do linho, da estopa ou dos tomentos – da teia fiada em casa. Em
noites de luar, as mulheres fazem o seu serão á porta, economisando a luz.
A própria doença parece respeitar esse culto sagrado da economia
dos lavradores do Minho. Mata-os a velhice. Quando entram na agonia, a família
manda chamar o padre para os confessar e ungir. Depois do padre vem então o
medico, que raro receita e as mais das vezes chega a tempo de verificar o
óbito.
E assim morrem economicamente, como economicamente nasceram e
viveram…”





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