DEPUTADO BARCELENSE À ASSEMBLEIA NACIONAL CONSIDEROU EM 1970 QUE PODERIA TER SIDO EVITADA A PERDA DA ALDEIA DE VILARINHO DA FURNA
Joaquim José Nunes de Oliveira, deputado à Assembleia Nacional
As
consequências da construção no rio Cávado da barragem de Vilarinho da Furna,
mormente para a aldeia de Vilarinho da Furna e as suas gentes, não mereceram
especial atenção da parte dos deputados da Assembleia Nacional. De uma maneira
geral, mostraram-se particularmente mais interessados nas vantagens que o
“Plano Internacional de Fomento para 1965-1967” que previa a sua construção
trazia para o país.
Apesar disso, o problema foi levantado pelo
deputado Nunes de Oliveira, na sessão da Assembleia Nacional, realizada em 29
de Abril de 1970, referente à X Legislatura, a propósito da discussão na
generalidade da proposta de lei sobre a protecção da Natureza e dos seus
recursos. O referido parlamentar era natural de Barcelos, doutorado em Farmácia
e professor universitário. Presidia à Comissão Concelhia de Barcelos e era
Vogal da Comissão Distrital de Braga da União Nacional. Foi por diversas vezes
deputado à Assembleia Nacional e foi ainda Procurador à Câmara Corporativa por
designação do Conselho Corporativo.
Em relação à sessão da Assembleia Nacional da
qual se transcreve uma passagem da intervenção do Dr. Nunes de Oliveira, a
mesma era presidia à referida sessão Carlos Amaral Netto, e secretariada por
Silva Pereira e Mota Amaral.
“Sr. Presidente: A proposta de lei em discussão corresponde,
como, aliás, se afirma no bem elaborado parecer da Câmara Corporativa, a uma
necessidade nacional, não podendo deixar de suscitar, por tal motivo e pelas
razões a seguir aduzidas, o meu natural interesse como Deputado eleito pelo
círculo de Braga.
Em intervenção efectuada na última sessão legislativa da IX
Legislatura, sobre alguns aspectos turísticos da minha região, referi o caso
específico do Parque Nacional do Geres, o qual antevia, como primeiro parque
nacional português - com possibilidades de grande êxito, até porque a quase
totalidade dos terrenos -abrangidos pêlos distritos de Viana do Castelo, Braga
e Vila Real, nas serras da Peneda, Amarela e Geres -, numa área aproximada de
50 000 ha, já se encontram submetidos ao regime florestal.
E portanto, com vivo regozijo que vejo aproximar-se o momento de
concretização de um sonho de há longos anos, cujo início se pode situá-la na
publicação do Regulamento dos Serviços Florestais da Serra do Geres, no Diário
do Governo, n.° 295, de 26 de Dezembro de 1888. Os anos decorreram e em 1939 é
aprovado o projecto de arborização do perímetro do Geres, altura em que
claramente se reconhece a necessidade do parque nacional. E com o pensamento na
realização de uma obra que permitisse aproveitar a incomparável dádiva com que
a Natureza dotou aquela região do Nordeste português, encetou a Direcção-Geral
dos Serviços Florestais e Aquícolas, através dos seus distintos técnicos e bem
apoiada pelas autarquias locais, estudos que nos garantem, ao apreciarmos esta
proposta de lei, a certeza de que podemos contar, de seguida, com o primeiro
parque nacional, o qual representará um forte pólo de atracção turística de
alta importância.
Pena foi que tantos anos decorressem sobre esta ideia tão
magnífica, pois talvez não assistíssemos à destruição dê alguns motivos
cinegéticos e botânicos que Importava preservar. Mas, mais do que isso - e
nesse pesar acompanho o ilustre relator do parecer da Câmara Corporativa -,
ter-se-ia possivelmente encontrado uma solução para evitar a perda, por
exemplo, de Vilarinho das Furnas, a preciosa "aldeia comunitária" que
breve ficará sepultada pelas águas de uma barragem e que sempre constituiu motivo
de aliciante visita.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - E por muito que se pretenda fazer crer, também sou
dos que pensam ser quase impossível a sua reconstituição.
Deixando, entretanto, as lamentações para nos situarmos no campo
das realidades, verifica-se que, por sugestão do Conselho Europeu, foi o ano de
1970 designado como o ano da protecção á Natureza e, por coincidência, ao
votarmos esta proposta de lei não só caminhamos no sentido de deixarmos de ser
o único país na Europa que ainda não possui um parque nacional - não estou,
como é evidente, a falar das nossas queridas províncias ultramarinas - como
prestaremos o nosso apoio e aplauso aos dedicados técnicos, que tanto
entusiasmo puseram na resolução de um problema de verdadeiro interesse
científico, educativo e turístico.
A conservação da Natureza nos seus variados e múltiplos aspectos
é de incontestável necessidade, não como idealismo platónico dos cientistas que
a investigação se devotam nos campos da arqueologia, botânica e zoologia, mas
como meio de enriquecimento da nossa flora e da nossa fauna e como valor
contemplativo de tudo o que vai rareando na fúria destruidora em que parece ir
mergulhando o mundo de hoje.
O Parque Nacional do Geres não terá apenas reflexos para o
desenvolvimento do turismo da região em que se enquadra, porque os terá no
próprio turismo nacional. Ele, como qualquer outro que surja, abrangerá vários
tipos de reservas, desde aquelas que concorrem para a salvaguarda da fauna e da
flora mais características das nossas montanhas, onde o turista só terá acesso
a pé ou a cavalo, até as reservas envolventes, dos quais algumas se destinam
aos repovoamentos indispensáveis, enquanto outras permitirão a prática da coça
e da pesca devidamente regulamentada, como se impõe.
Entretanto, e a par de tudo isso. "a salvaguarda dos
espaços territoriais ainda susceptíveis de fornecer ar puro, água cristalina,
vida selvagem na sua integridade, espaços abertos no traumatizado homem dos
nossos tempos", é uma necessidade premente nesta vida de constantes
preocupações e em que o problema da poluição, tanto atmosférica como das águas,
começa a causar as maiores inquietações. Compreende-se, por consequência, que
tudo o que possa influir a pureza do ar que respiramos e proporcione um certo bem-estar
e tranquilidade venha a ter repercussões dos mais salutares na saúde pública.
Ainda há poucos dias alguns jornais noticiaram movimentos
levados a efeito nos Estados Unidos, no designado "Dia da Natureza",
em que se verificaram vivas manifestações contra a poluição.
Detém-se o parecer da Câmara Corporativa sobre a situação do
montanhês e diz-se que "a única conclusão razoável será a que corresponde
à certeza de que as comunidades tradicionais de montanha estão perdidas" e
que "a pastorícia de outras épocas já não atrai pastores, a agricultura
das encostas e dos socalcos já não prende cultivadores. A população envelhece
e, desprovida de juventude, perde fertilidade demográfica". E conclui por
afirmar que "a comunidade de montanha, se não for socorrida, morre".
Ora, o que depreendo, pelo que tenho ouvido a pessoas
responsáveis – e a própria proposta não contraria –, é que tudo se processará
de modo a salvaguardar, por um lado, as actividades pastoris tradicionais, que
continuarão a exercer-se, embora regulamentadas, como já agora acontece, e, por
outro lado, a permitir que a população serrana, quer a enquadrada na área do
parque nacional, quer a situada nus vizinhanças, possam ter abertas
perspectivas materiais, traduzidas no aluguer de garranos e carros para excursões,
na venda de objectos de artesanato, no serviço de guias, e te. Dessa forma
ser-lhes-á facultada uma promoção que dificilmente, ou até nunca, atingiriam.
Ao caçador, ao pescador, ao simples turista - como aqui disse em
intervenção que fiz - , não faltarão habitações serranas nada possam pernoitar
e saborear uma ementa tipicamente nortenha, ao mesmo tempo que assistiremos a
uma melhor utilização do equipamento hoteleiro do Geres, que nestes últimos
dois anos sofreu uma agradável e profunda transformação, a servir de suporte
importantíssimo a tão grandiosa obra.
A necessidade de um planeamento nacional impunha--se, bem como a
legislação apropriada, a qual terá de assentar em número suficiente de pessoal
que assegure eficaz fiscalização para seu indispensável cumprimento.
E com grande satisfação que dou o meu voto na generalidade a
presente proposta de lei, deixando ainda expressa a esperança, que é quase uma
certeza, de que o parque nacional a que especialmente me referi, – grande
anseio do Noroeste português, seja uma breve realidade, como fonte de
extraordinária riqueza local e nacional.”


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