DEPUTADO MANUEL DOMINGUES BASTO LEVOU EM 1953 À ASSEMBLEIA NACIONAL OS PROBLEMAS RELACIONADOS COM O RIO LIMA
Em 1953, o deputado Manuel Domingues Basto
levou à Assembleia Nacional os problemas relativos ao rio Lima, nomeadamente os
relacionados com o seu assoreamento e a regularização dos caudais. A referida
intervenção registou-se na sessão que ocorreu a 23 de Março daquele ano, no
âmbito da V Legislatura, sob a presidência de Albino dos Reis Júnior.
Manuel Domingues Basto era natural de Monção
e foi fundador da Acção Católica de Braga. Sacerdote católico, foi eleito
deputado para a V e VI Legislatura da Assembleia Nacional, não tendo chegado a
exercer o mandato nesta última em virtude de ter entretanto falecido. Foi
vereador da Câmara Municipal de Monção e Presidente da Comissão Municipal de
Assistência de Fafe. Em virtude dos seus ideais monárquicos e na sequência do
fracasso da Monarquia do Norte, exilou-se em Espanha.
Pelo seu interesse sobretudo do ponto de
vista histórico, transcreve-se um extracto da sua extensa intervenção na
Assembleia Nacional, na parte respeitante às questões relacionadas com o rio
Lima.
“Sr.
Presidente: quando o turista, português ou estrangeiro, se dirige ao Alto
Minho, para aceder ao convite do autor do Minho Pitoresco e poder confrontar as
belezas das margens do rio Minho com as do rio Lima - que se disputam à porfia
vantagens e primazias, pleito difícil que o referido autor se não decide a
resolver, comparando-o ao eterno e insolúvel problema dos olhos azuis e dos
olhos negros -, e, entrando em Viana do Castelo, sobe a esse incomparável
miradouro que é o monte de Santa Luzia, sentirá todo o assombro da maravilha da
paisagem, viva, garrida e variegada.
Se, porém, além de admirar a paisagem, o interessa a vida da
gente que habita esse rincão português de incomparável beleza, notará bem
depressa que o rio - que em linguagem poética beija os pés da cidade, sua dama,
e abraça os campos -, assoreado no seu leito, invade os terrenos marginais e
rouba às gentes de Viana e de Ponte de Lima o pão, ou seja as culturas de
algumas centenas de hectares de terreno.
É a nota triste e desoladora no meio de tanta garridice e
policromia de tons da paisagem e do traje das raparigas.
Muitas vezes tenho contemplado entristecido este pormenor da
paisagem e da vida da gente das margens do rio Lima e perguntado a mim próprio
se não há quem veja aquilo e se para o caso se não encontrará remédio.
Tendo exposto a alguém o meu sentir em conversa de minhoto que
mais ama a sua pátria através da região em que nasceu, vim a saber que já há
estudos feitos sobre o aproveitamento total do rio Lima, de que resultará, com
outras vantagens, não só o desaparecimento do espectáculo desolador que
entristece o turista, mas ainda o melhoramento da barra de Viana do Castelo, a
rega e o enxugo do muitas terras marginais e o aproveitamento hidroeléctrico do
rio.
De facto, vêm de longe os estudos sobre o assunto, que é hoje de
mais importância e de mais urgência na solução, dado que na sua parte inferior
se agravam cada vez mais o estado do leito do rio e o lamentável desperdício
das terras marginais invadidas pelas águas.
É o rio Lima, na opinião dos técnicos, um dos poucos rios
portugueses cujo aproveitamento total se impõe, e esse aproveitamento
reveste-se na actualidade da maior necessidade e urgência, por se tratar de uma
região de grande densidade de população, em que as indústrias são escassas ou
quase não existem, sendo por isso mais necessário intensificar a produção
agrícola e aproveitar todos os recursos da terra.
Pelos elementos que me vieram à mão, verifica-se que as duas
mais importantes obras para o aproveitamento completo do rio Lima estão já
realizadas, e são o porto de Viana do Castelo, na sua foz, e o aproveitamento
hidroeléctrico do Lindoso, na fronteira.
Reconhecem os técnicos a que a bacia hidrográfica do rio Lima
tem excepcionais condições de aproveitamento e que nela se registam as maiores
precipitações anuais médias e, paralelamente, os maiores coeficientes de
escoamento de todo o País».
Vê-se dos bem elaborados anuários dos serviços hidráulicos que
há possibilidade de um plano geral de aproveitamento a fio de água no rio, a
jusante de Lindoso, e de albufeiras de elevada regularização específica nas
ribeiras da Peneda e de Castro Laboreiro.
Os resultados desse plano seriam a produção de grande quantidade
de energia, a defesa contra cheias, o enxugo do vale inferior do rio a jusante
de Ponte de Lima, a rega e valorização com ela de 5 000 ha de terras férteis, o
melhoramento da navegação - de grande vantagem económica para a região - e a
recuperação integral de algumas centenas de hectares de terrenos de cultura
inutilizados.
E se as duas obras maiores deste plano já estão realizadas, há
também já muitos estudos feitos para se chegar ao aproveitamento total do rio.
Nos anos de 1939, 1940 e 1941 realizaram-se, por meio de
brigadas de estudos dos serviços hidráulicos, levantamentos topográficos e
hidrográficos e medições de caudais no rio Lima e seus afluentes.
Maiores foram os estudos e trabalhos dos anos de 1942 e 1943.
Em 1942 fizeram-se os reconhecimentos gerais necessários para a
elaboração do plano geral de aproveitamento, o reconhecimento detalhado do rio
Lima sob o ponto de vista hidráulico e agronómico e em relação às necessidades
de enxugo e rega e ainda o reconhecimento das bacias dos seus afluentes-rio Vez
e ribeiro de Castro Laboreiro.
Em 1943 iniciou-se o estudo do plano geral da regularização e
aproveitamento das águas de toda a bacia hidrográfica.
O ano de 1944 foi o do início do estudo do aproveitamento
hidroeléctrico, estudando-se já os vales do rio Lima e dos ribeiros da Peneda e
de Castro Laboreiro.
Dos estudos e trabalhos no ano de 1945 diz o Anuário dos
Serviços Hidráulicos:
Prosseguiu a recolha de elementos topográficos, hidrológicos e
agronómicos para a elaboração do plano geral de sistematização da bacia deste
rio. Ficou concluída a parte referente à correcção torrencial e ao
aproveitamento da energia das águas do rio e dos seus afluentes Castro
Laboreiro, Peneda e Vez.
O esquema do aproveitamento hidroeléctrico prevê uma possível
produção de 450x106 kWh no ano muito seco de 1944-1945, com influência benéfica
na utilização de água para a rega e na manutenção de caudais para a navegação e
contribuindo ainda para a diminuição dos transportes sólidos.
Nos anos de 1946,1947,1948 e seguintes continuou se com a
elaboração do plano geral de regularização e aproveitamento das águas, tendo-se
ainda feito o reconhecimento agro-económico dos terrenos a beneficiar e o
reconhecimento geológico dos possíveis locais de barragens.
O Sr. Elísio Pimenta: - Não esqueça V. Ex.ª que o problema do
rio Lima, nos aspectos que acaba de encarar, não é o único na região do Minho.
Existe um problema paralelo no rio Minho, a poente de Valença,
em S. Pedro da Torre.
O Orador:- Tem V. Ex.ª razão. Tanto na veiga de Ganfei como em
S. Pedro da Torre, freguesias do concelho de Valença, há problemas idênticos.
Sr. Presidente: parece que os trabalhos sobre o aproveitamento
integral do rio Lima pararam ou, pelo menos, não há indicação do que se fez
depois de 1950. Diz-se que foi a necessidade de deslocar os técnicos para
estudos urgentes no rio Douro o que motivou esta paralisação de trabalhos e
estudos.
Permita-me, ao terminar as minhas considerações no debate das
contas públicas, lembrar ao Governo a necessidade de se prosseguir nesses
trabalhos interrompidos, visto que depende deles o aproveitamento de grandes
fontes de receita, bem necessárias à gente do Alto Minho e às prementes
necessidades de melhor nível económico, para sustento da sua densa população.
Junte-se à beleza da paisagem e dos trajos regionais a beleza
desta possível e urgente realização. As despesas a que obriga são fartamente
compensadas pelas receitas que dela hão-de provir para a economia nacional e
para melhoria de vida da gente alegre de Viana e da Ribeira Lima.
Que por esta obra tão necessária possam o estrangeiro ou o
português que visitam a cidade de Viana ou ali vão pelas festas da Agonia, ao
ouvir os cantares das raparigas e ao apreciar as danças regionais, dizer com
toda a verdade: «Sente-se que esta gente é mais feliz e canta com mais
vivacidade e alegria porque vive no Portugal renovado de Salazar».
Tenho dito.”

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