GASPAR MOREIRA: UM ARCUENSE EM TERRAS DE OURÉM
Conta a lenda que “No dia 4 de Agosto de 1578,
ficou prisioneiro dos mouros, Gaspar Moreira, Moço de Câmara de El-Rei Dom
Sebastião, Filho de Pedro Alves Bandeira, 4º Neto do Grande Gonçalo Pires
Bandeira, era natural de Arcos de Valdevez, Nossa Senhora da Natividade, que se
venera nesta Igreja, livrou-o da prisão e cativeiro”. Esta descrição consta num painel de azulejos existente na
escadaria que dá acesso à Igreja Paroquial de Rio de Couros, no Concelho de
Ourém, reproduzindo uma antiga gravura que outrora existiu na sacristia da
antiga igreja que,
entretanto, foi demolida,
dela atualmente não restando mais do que a torre sineira.
A LENDA DE RIO DE COUROS
A secção “Lendas de Portugal” que o Jornal “O Século” publicou
em 25 de dezembro de 1970 narra-nos o seguinte:
“Porque, antigamente, abundavam,
abundavam ali os curtumes, a terra passou a denominar-se Rio de Couros. Ao que
se afirma, lá deve ter existido uma cidade ou grande povoação cujo nome se
ignora, sendo também, de anotar que houve, nessa terra, uma capela consagrada a
Nossa Senhora de Rio de Couros, ou Radecouros, como noutros tempos se dizia, e
que, por fim, mudou para o título de Nossa Senhora da Piedade. Em escavações
várias, feitas nas próximidades da igreja, foram encontrados não somente ossos
de homens de grande estatura, crânios ainda com dentes, cipós, ou seja colunas
próprias para a afixação de instruções de interesse público ou decisões do
Senado romano, alicerces, pedaços de telha, tudo denotando grande antiguidade.
A fama do santuário da bonita e
pitoresca localidade chegava longe, muita gente admirando o fervor religioso da
população, de velhos e novos.
Em Rio de Couros passou a viver
um dia, um homem, natural de Arcos de Valdevez, chamado Gaspar Moreira, que foi
moço de câmara do rei D. Sebastião. Estava na corte de Lisboa quando o
“Desejado” se encaminhou para África e travou com os mouros a célebre batalha
de Alcácer Quibir, infausto combate ocorrido em 4 de Agosto de 1578, e no qual,
entre outros portugueses e bons cristãos, intervieram, não só aquele monarca,
como Gaspar Moreira, que ali ficou prisioneiro. A sua presença irritava
constantemente os agarenos, que alimentavam o desejo de lhe dar morte violenta.
Poucos cativos, como é da história, foram resgatados, e outros ali morreram em
consequência de ferimentos que tiveram no duro combate, e, depois, cheios de
fome ou maltratados. Os carcereiros mouros revelavam com as atitudes tomadas
contra eles o seu rancor à Pátria lusitana.
Gaspar Moreira era tratado de
maneira diferente pois estava preso à parte e às ordens de um oficial da
moirama. Beneficiava de certo conforto na masmorra e de boa alimentação.
Numa noite luarenta, quando
meditava sobre a sua vida, viu o tal oficial andar passeando perto dos muros da
prisão. Na mão direita levava uma espada, e, com a esquerda, segurava uma forte
corrente de ferro, a que prendia um grande e domado leão.
O lusitano, continuando junto das
grades, ouviu, estupefacto e atemorizado, ele falar com a fera, dizendo que não
tardaria muito que não lhe proporcionasse um farto banquete, pois o cristão
estava engordando e ía atirar com ele para a sua boca para que o devorasse.
Queria vingar-se dos portugueses, que tendo expulso os mouros das Espanhas, ali
em Marrocos, os tinham, depois, atacado, mas sido vencidos por graça de Alá.
Ante tal facto, atemorizado pela ideia de que o leão o mataria, recordou-se das
suas romagens ao Santuário de Nossa Senhora de Rio de Couros, lembrando-se
também da Batalha de Alcácer Quibir, dos seus companheiros de armas e de D.
Sebastião, que ali tinha perdido a vida. No dia seguinte, viu entrar na prisão
o oficial mouro que levava um pensamento: verificar se, com efeito, ele estava
em condições de satisfazer o seu inclemente intento. Então, o agareno
perguntou-lhe se desejava ficar liberto, ao que logo respondeu,
afirmativamente. Nova atitude do oficial o deixou perturbadíssimo, pelo que fez
uma prece a Nossa Senhora da Natividade para que, milagrosamente, o livrasse do
cativeiro e o conduzisse para Portugal.
De repente, uma luz raiou na
prisão, aparecendo-lhe a Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços,
fazendo-lhe sinal para que a seguisse. Então, as portas do cárcere abriram-se e
ele acompanhou a sua libertadora, que, momentos após, desapareceu. De joelhos,
tendo reconquistado a liberdade, agradeceu-a ao Céu e à Senhora da Natividade.
Logrou, depois, regressar a Portugal, nessa altura já sob dominação castelhana,
logo se dirigindo à ermida de Nossa Senhora de Rio de Couros para se lhe
mostrar grato pelo seu milagre. Mais algum tempo passou e, quando sentiu a
morte aproximar-se, rogou que o seu corpo – e assim se fez – fosse metido num
caixão de pedra e sepultado junto da capela. Isso fortificou, justificadamente,
a fé que já se tinha na miraculosa Senhora”.
A
imagem mostra a igreja de Rio de Couros, em 1961, pouco tempo antes de ser
demolida. Foto restaurada em Foto Vítor, de Caxarias, a partir de original
cedido por Joaquim Gaspar, de Sandoeira, a quem agradeço a sua amabilidade.
A LENDA DE RIO DE COUROS
A secção “Lendas de Portugal”
que o Jornal “O Século” publicou em 25 de dezembro de 1970 narra-nos o seguinte:
“Porque, antigamente, abundavam,
abundavam ali os curtumes, a terra passou a denominar-se Rio de Couros. Ao que
se afirma, lá deve ter existido uma cidade ou grande povoação cujo nome se
ignora, sendo também, de anotar que houve, nessa terra, uma capela consagrada a
Nossa Senhora de Rio de Couros, ou Radecouros, como noutros tempos se dizia, e
que, por fim, mudou para o título de Nossa Senhora da Piedade. Em escavações
várias, feitas nas próximidades da igreja, foram encontrados não somente ossos
de homens de grande estatura, crânios ainda com dentes, cipós, ou seja colunas
próprias para a afixação de instruções de interesse público ou decisões do
Senado romano, alicerces, pedaços de telha, tudo denotando grande antiguidade.
A fama do santuário da bonita e
pitoresca localidade chegava longe, muita gente admirando o fervor religioso da
população, de velhos e novos.
Em Rio de Couros passou a viver
um dia, um homem, natural de Arcos de Valdevez, chamado Gaspar Moreira, que foi
moço de câmara do rei D. Sebastião. Estava na corte de Lisboa quando o
“Desejado” se encaminhou para África e travou com os mouros a célebre batalha
de Alcácer Quibir, infausto combate ocorrido em 4 de Agosto de 1578, e no qual,
entre outros portugueses e bons cristãos, intervieram, não só aquele monarca,
como Gaspar Moreira, que ali ficou prisioneiro. A sua presença irritava
constantemente os agarenos, que alimentavam o desejo de lhe dar morte violenta.
Poucos cativos, como é da história, foram resgatados, e outros ali morreram em
consequência de ferimentos que tiveram no duro combate, e, depois, cheios de
fome ou maltratados. Os carcereiros mouros revelavam com as atitudes tomadas
contra eles o seu rancor à Pátria lusitana.
Gaspar Moreira era tratado de
maneira diferente pois estava preso à parte e às ordens de um oficial da
moirama. Beneficiava de certo conforto na masmorra e de boa alimentação.
Numa noite luarenta, quando
meditava sobre a sua vida, viu o tal oficial andar passeando perto dos muros da
prisão. Na mão direita levava uma espada, e, com a esquerda, segurava uma forte
corrente de ferro, a que prendia um grande e domado leão.
O lusitano, continuando junto das
grades, ouviu, estupefacto e atemorizado, ele falar com a fera, dizendo que não
tardaria muito que não lhe proporcionasse um farto banquete, pois o cristão
estava engordando e ía atirar com ele para a sua boca para que o devorasse.
Queria vingar-se dos portugueses, que tendo expulso os mouros das Espanhas, ali
em Marrocos, os tinham, depois, atacado, mas sido vencidos por graça de Alá.
Ante tal facto, atemorizado pela ideia de que o leão o mataria, recordou-se das
suas romagens ao Santuário de Nossa Senhora de Rio de Couros, lembrando-se
também da Batalha de Alcácer Quibir, dos seus companheiros de armas e de D.
Sebastião, que ali tinha perdido a vida. No dia seguinte, viu entrar na prisão
o oficial mouro que levava um pensamento: verificar se, com efeito, ele estava
em condições de satisfazer o seu inclemente intento. Então, o agareno
perguntou-lhe se desejava ficar liberto, ao que logo respondeu,
afirmativamente. Nova atitude do oficial o deixou perturbadíssimo, pelo que fez
uma prece a Nossa Senhora da Natividade para que, milagrosamente, o livrasse do
cativeiro e o conduzisse para Portugal.
De repente, uma luz raiou na
prisão, aparecendo-lhe a Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços,
fazendo-lhe sinal para que a seguisse. Então, as portas do cárcere abriram-se e
ele acompanhou a sua libertadora, que, momentos após, desapareceu. De joelhos,
tendo reconquistado a liberdade, agradeceu-a ao Céu e à Senhora da Natividade.
Logrou, depois, regressar a Portugal, nessa altura já sob dominação castelhana,
logo se dirigindo à ermida de Nossa Senhora de Rio de Couros para se lhe
mostrar grato pelo seu milagre. Mais algum tempo passou e, quando sentiu a
morte aproximar-se, rogou que o seu corpo – e assim se fez – fosse metido num
caixão de pedra e sepultado junto da capela. Isso fortificou, justificadamente,
a fé que já se tinha na miraculosa Senhora”.
ONDE SE SITUA RIO DE COUROS?
A Freguesia de Rio de Couros situa-se a norte do Concelho de
Ourém, a poucos quilómetros de Fátima e da estação ferroviária de Caxarias.
Todos os anos, por ocasião do dia 15 de agosto, realizam-se
naquela localidade os tradicionais festejos em honra de Nossa Senhora da
Natividade, sendo uma das mais concorridas que ocorrem na região.
A atual igreja, de traça bastante moderna, foi construída em
1964 em substituição da antiga igreja matriz que foi demolida por se encontrar
em adiantado estado de degradação, não se verificando à época sensibilidade
suficiente para preservar o património edificado.
A anterior igreja era de uma só nave, com dois altares laterais,
tendo na sua construção sido empregues fragmentos de cipos e outras pedras
romanas, algumas das quais com inscrições. Do monumento desaparecido apenas
resta a torre sineira, de construção setecentista. Na atual igreja de Rio de
Couros guarda-se uma imagem em pedra, de Nossa Senhora da Natividade, com o
menino ao colo, remontando muito provavelmente á época em que Gaspar Moreira
ali viveu.
QUEM ERA GASPAR MOREIRA?
Gaspar Moreira, o herói da Lenda de Rio de Couros, era 4º neto
de Gonçalo Pires Juzarte (Bandeira). Narra a História que, durante a Batalha de
Toro, Gonçalo Pires Juzarte e outros portugueses, ao avistarem na escuridão da
noite um grupo de cavaleiros castelhanos que, capitaneados por Pedro Velasco e
Pedro Cabeza de Vaca, levavam o pendão de D. Afonso V como troféu de batalha,
acometeram contra eles logrando recuperar a bandeira. Uma vez na sua posse,
Gonçalo Pires levou o estandarte ao príncipe D. João que ainda se encontrava no
campo de batalha com a sua ala.
A
bandeira em questão tratava-se da que os castelhanos haviam arrancado ao nosso
porta-estandarte, o alferes D. Duarte de Almeida que haveria de ficar conhecido
pelo “decepado” em virtude de a ter
segurado com os dentes após lhe terem decepado os braços.
Como é sabido, o Príncipe veio a suceder a seu pai, o rei D.
Afonso V, passando a reinar com o nome de D. João II. Então, como recompensa
pelo feito de bravura, atribuiu a Gonçalo Pires Juzarte a tença de cinco mil
reais e, tal como nos descreve o cronista Damião de Góis na sua “Crónica do Príncipe D. João”, foi
ainda “satisfeito de armas de brasão, misturadas com
fidalguia, que lhe o mesmo rei D. João concedeu, com alcunha e sobrenome de
Bandeira”. Com efeito, o rei D. João II ordenou que Gonçalo Pires
Juzarte e os seus descendentes passassem a usar o apelido de Bandeira e
concedeu-lhe armas novas, datadas de 1483, as quais são as seguintes:
“De vermelho, bandeira quadrada de ouro,
hasteada do mesmo, perfilada de prata e carregada de um leão azul, armado e
linguado de vermelho”. O timbre é constituído pelos móveis do
escudo.
Gonçalo Pires Juzarte era natural de S. Martinho de Mouros que
fica no concelho de Resende e tornou-se escudeiro honrado da casa do rei D.
João II.
A LENDA DE RIO DE COUROS
A fama de Rio de Couros
Já vem de há muitos anos;
Talvez do tempo dos Mouros
Ou do tempo dos Romanos.
Seria vila ou cidade
Antes da era dos Mouros?
Qual o nome de verdade:
Rio de Couros ou Radecouros?
Porque abundava o curtume
De peles nessa região
Daí proveio o costume
Do nome que hoje lhe dão
Numa bonita capela
Acima doutros tesouros
Havia a imagem bela
Da Senhora de Rio de Couros.
E este povo humilde e crente
Pelo seu fervor diário
Atraía muita gente
Ao bonito Santuário!
Entre a gente forasteira
Que a sua vida ali fez
Conta-se Gaspar Moreira
De Arcos de Valdevez.
Viveu nesta região
Até que teve de partir
Com o rei Dom Sebastião
Para Alcácer Quibir.
Na batalha contra os Mouros
Morreu Dom Sebastião
E o homem de Rio de Couros
Foi metido na prisão.
Embora que bem tratado
Dentro da dita prisão
Estava a ser engordado
Para alimento de um leão.
Certa noite à luz da lua
Olhando as grades em frente
Viu um oficial na rua
Com o leão preso à corrente
Falando então para a fera
Disse em voz de “mandarete”:
Só mais uns dias de espera
E terás um bom banquete.
Ao meditar que seria
Vítima de instintos mouros
Rezou à Virgem Maria
Senhora de Rio de Couros.
À Senhora da Natividade
Fez uma prece afinal:
Que lhe desse a liberdade
E o trouxesse a Portugal.
Nisto um milagre se deu:
No meio dum mar de luz
A Virgem lhe apareceu
Trazendo ao colo Jesus.
Então a porta se abriu
E com a sua libertadora
Para a saída seguiu
Desaparecendo a Senhora.
Voltando ao local de origem
Livre do jugo dos mouros
Prostrado agradece à Virgem
Da ermida de Rio de Couros.
O resto da sua vida
Foi de pura santidade
Orando no altar da ermida
À Senhora da Natividade.
E quando velho e cansado
Já prestes ao fim da vida
Pediu para ser sepultado
Junto da bonita ermida.
E assim desta maneira
Se ordenou e se fez:
Ali jaz Gaspar Moreira
De Arcos de Valdevez.
Daí cresceu mais a Fé
Nesse povo e nos vindouros
Vindo muita gente a pé
De romagem a Rio de Couros.
Muita Fé o povo tem
À Senhora da Natividade
Que outrora era também
Nossa Senhora da Piedade.
Há lindas recordações
Que valem grandes tesouros
Achados em escavações
No adro de Rio de Couros.
A graça desta região
É obra da natureza
Em que a nova geração
Não reparou com certeza.
Esta história se comenta
No “Século” de Dia de Natal
De mil novecentos e setenta
Em Lendas de Portugal!...
in
INÁCIO, Manuel. Brincando com coisas sérias. 1995




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