“LIMIANO”: O QUEIJO QUE NASCEU EM PONTE DE LIMA

 


O queijo “Limiano” nasceu em 1959, em Ponte de Lima, por iniciativa do industrial Américo Tavares da Silva, um dos primeiros gerentes da firma Lacto-Lusa Ld.ª. Esta empresa possuía a fábrica em Vale de Cambra e dispunha de filial em Arcos de Valdevez, cabendo-lhe a produção do queijo “Pastor”, à época produzido no tipo flamengo, com aspeto idêntico ao do queijo “Limiano”. A Lacto-Lima foi criada em 1957, tendo a Lacto-Lusa como sócia maioritária. A ideia da criação do queijo “Limiano” resultou da procura crescente deste género de lacticínio associada à abundante produção de leite na nossa região.

Em regra, o queijo flamengo apresenta a forma arredondada e a pasta, de cor amarelada, semidura, contendo um teor de matéria gorda de 45 a 60%, é obtida após a coagulação de leite de vaca, depois da sua pasteurização. A sua maturação obtém-se após 3 semanas, a uma temperatura de 12 a 15º C e com uma humidade relativa variando entre 65 e 75%.

À semelhança do que sucede com a generalidade dos queijos do tipo flamengo, aliás como o seu próprio nome indica, também o queijo “Limiano” em nada tem a ver com a produção tradicional caraterística da região que, devido à implantação no mercado de modelos importados, jamais saiu do circuito doméstico.

Com efeito, o queijo flamengo tem a sua origem na cidade holandesa de Edam, outrora um condado pertencente à Flandres, situado a cerca de vinte quilómetros a nordeste de Amesterdão. Conhecido desde o século XIV, o queijo de Edam é produzido com leite de vaca, tendo-se tornado um dos queijos mundialmente mais afamados. A sua caraterística capa de cor avermelhada resulta de uma mistura com urucu, uma planta que os holandeses comercializavam com os índios do Brasil por altura das invasões holandesas no século XVI, da qual resulta um condimento entre nós conhecido por colorau.

 


Quando a Corte de D. João VI se transferiu para o Brasil na sequência das invasões francesas, os nobres ali instalados passaram a importar da Holanda os queijos de Edam, fazendo-o através dos comerciantes estabelecidos em Portugal. Este queijo deu origem ao “queijo-do-reino” ou “queijo tipo reino”, fabricado na região da Mantiqueira, em Minas Gerais, sendo o primeiro queijo curado industrial produzido no Brasil.

Na segunda metade do século XIX, o Conselheiro Miguel Dantas criou em mantelães, no concelho de Paredes de Coura, a Fábrica de Lacticínios de Coura na qual, de acordo com as palavras do conceituado médico veterinário Dr. Vieira de Sá, “foram feitas as primeiras tentativas para fabricar (ou imitar) o queijo holandês, que se importava em grandes quantidades da Holanda, chamando-lhe “queijo flamengo”. Esta empresa veio a pertencer ao Dr. Bernardino Machado que foi Presidente da República e era genro do Conselheiro Miguel Dantas.

Em 1987, a Lacto-Lusa transformou-se em sociedade anónima, passando a integrar a Lacto-Lima e, em 1994, como resultado da compra e fusão de 7 empresas de lacticínios, surge o Grupo Lacto Ibérica S.A. que, em 1999, encerrou a unidade fabril que mantinha em Ponte de Lima, passando o queijo “Limiano” a ser produzido em Vale de Cambra, dando origem a forte contestação que se estendeu inclusivamente aos tribunais devido à sua denominação. Em 2004, o Grupo Lacto Ibérica S.A foi adquirido pelo grupo francês Bel que passou a designar-se Bel Portugal.

Entretanto, apesar da sua denominação de origem ou seja, do gentílico com que se identifica, o queijo “Limiano” não voltou à terra onde nasceu – Ponte de Lima – mas continua a ser lembrado com nostalgia e apetite pelos seus conterrâneos!

 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

PONTE DE LIMA: PADRE MANUEL MIRANDA – PÁROCO DE CABRAÇÃO – FOI O ÚLTIMO PADRE EXORCISTA DESTA LOCALIDADE!

PONTE DE LIMA: ACORDO VIABILIZA JUNTA E ASSEMBLEIA EM ARCOZELO – CRÓNICA DE TITO DE MORAIS

PONTE DE LIMA: JOVEM TALENTO JOÃO MATOS, PREPARA JANTAR PERLUXOSO – CRÓNICA DE TITO DE MORAIS