LOIÇA DE VIANA DO CASTELO É OBRA-PRIMA DA FAIANÇA PORTUGUESA
Remonta ao século IX Antes da Era Cristã a
origem da faiança, no Egipto e Mesopotâmia, onde os oleiros árabes foram
aprender as técnicas que haveriam de trazer consigo para a Península Ibérica.
Por seu turno, a porcelana já era conhecida na China desde o segundo milénio
Antes de Cristo, alcançando o seu apogeu durante a dinastia Ming, tendo-se a
partir de então expandindo para a Coreia e o Japão e, sobretudo a partir dos
Descobrimentos Portugueses e estabelecimento das rotas comerciais, para
Portugal e outros países europeus.
A partir do século
XVI, Viana do Castelo deve em grande medida a sua prosperidade aos navegadores
vianenses e toda a atividade que estava associada às navegações, encontrando-se
na origem de uma classe abastada que fez surgir magníficos palacetes com elementos
decorativos ao estilo manuelino, tendo no século seguinte as riquezas
provenientes do Brasil dado origem aos solares, construídos no espaço rural. À
grandiosidade da sua traça arquitetónica alia-se a opulência do seu recheio a
que não faltam magníficas peças de faiança e porcelana, muitas das quais
provenientes da Ásia.
Entretanto, Viana do Castelo veio a constituir-se um
dos mais importantes centros cerâmicos do nosso país e as louças aqui
produzidas alcançaram grande notoriedade em resultado da sua qualidade e valor
artístico. Os textos que a seguir se publicam, um dos quais da autoria do
historiador ponte-limense António Matos Reis, explicam-nos de forma exemplar a
origem e caraterísticas da loiça de Viana do Castelo.
A CERÂMICA DE VIANA
Em 1770, foi mandado publicar pelo Marquez de Pombal
um alvará de protecção a todas as fábricas de louça do país existentes e às que
viessem a estabelecer-se. As principais vantagens eram a proibição da entrada
no país de toda a louça estrangeira, excepto a que vinha da Índia e China em
navios Portugueses, e a isenção de direitos de saída do país a toda a louça
nacional.
A Fábrica de Viana, como tantas outras, é
"filha" deste alvará. Produziu faiança durante oito décadas -
1774/1855 - e situa-se no Lugar do Cais Novo, da freguesia de Darque.
A produção técnica e artística da Fábrica de Viana
pode ser dividida em três períodos:
1º Período em que a decoração era predominantemente
feita em azul; 2° período, também chamado de período áureo devido à boa
qualidade da pasta cerâmica, bom esmalte, desenho e cores apuradas: azul, ocre,
amarelo canário, laranja e violeta e 3° período conhecido como o período da
decadência. O declínio deveu-se ao descuido da qualidade dos produtos usados na
produção da cerâmica, de forma a torná-la mais barata e assim poder concorrer
com os preços competitivos da cerâmica inglesa. A conjuntura política da época,
que coincide com a entrada das tropas inglesas em Portugal e a consequente
entrada da cerâmica inglesa no nosso mercado, vai permitir, após vários
esforços em contrário, ao encerramento da fábrica em 1855.
Passados noventa e dois anos, em 1947, é fundada a
Empresa de Cerâmica Regional Vianense, Lda., mais conhecida por Fábrica da
Meadela. Tinha esta como principal objectivo ressuscitar a louça tradicional de
Viana. Tarefa nada fácil, uma vez que não foi possível obter uma pasta tão
perfeita como a antiga, nem as cores originais. É sob a orientação do
engenheiro João Dias Coelho, vindo da Fábrica Vista Alegre, que se começam a
utilizar novas técnicas de produção e começa a produzir-se louça em grés fino
com pintura sob o vidrado
Foi nesta altura que o artista António Pedro realizou
obras notáveis em grés, contribuindo para o sucesso artístico da empresa. Mais
tarde, sob a direcção do Eng.º Lencart e Silva, e com os artistas Armando
Veríssimo e Augusto Alves, conseguiu aliar-se a qualidade e beleza da louça
decorativa com o sucesso comercial da mesma. Também o escultor Laureano Ribatua
preservou a prevalência dos critérios artísticos, verificando-se, nos dias de
hoje, uma aposta em novos desenhos. Deste modo, a tradição das peças de
decoração original alia-se, harmoniosamente, com a contemporaneidade de novas
propostas
Texto da Exposição realizada em 2011, em Viana do
Castelo
Fotos: http://olharvianadocastelo.blogspot.pt/
Contribuição das colecções do Museu Municipal
de Viana do Castelo para o seu conhecimento
Viana localiza-se no extremo norte de Portugal, muito
próxima da Galiza, no noroeste da Espanha, e engloba a área mais ocidental das
margens do Lima, junto de cuja foz a cidade está implantada.
A múltipla configuração da paisagem, repartida entre
o vale e as montanhas, animada pelo rio Lima e outros cursos de água, recortada
e vivificada pelo Oceano, suavizada por um clima agradável, variado mas sem
extremos, e matizada pelas cores vivas mas discretas e harmoniosas da natureza
e do céu, unidos por uma atmosfera límpida e transparente, e a natureza fértil
do solo conjugam-se para fazer da região uma das mais belas e aprazíveis de
Portugal e do mundo.
A fundação da actual Viana deve-se ao foral outorgado
por D. Afonso III, a 18 de Junho de 1258.
No século XVI Viana atravessou uma época de
prosperidade resultante da actividade dos mareantes, que sulcavam os oceanos
entre os cinco continentes. Como fruto e testemunho desse florescimento,
construiu-se uma série de palacetes de estilo manuelino, dentro e fora das
muralhas. Em meados do século XVII, a prosperidade vianesa, depois do
interregno que sofreu sob a dominação estrangeira, conhece um novo surto, com o
comércio do açúcar brasileiro, a que se vem ajuntar a riqueza proveniente das
minas de ouro do Brasil. Aliada a esse surto de riqueza, a escola de
arquitectura, iniciada com Miguel de Lescol e continuada com Manuel Pinto de
Vilalobos, nos fins do século XVII e primeira metade do século XVIII,
contribuirá para encher a cidade de belos edifícios, para a renovação de
outros, designadamente conventos e igrejas, mas além dos palacetes urbanos
surgirão as numerosas casas nobres do espaço rural - os solares. Nesses solares
se recolheram no fim do século passado e nas primeiras décadas deste século as principais
espécimes que constituem o recheio do Museu Municipal de Viana, e
designadamente as suas extraordinárias colecções de cerâmica.
Nas residências nobres foi bastante limitado o êxito
obtido pelas faianças de fabrico português, e de inspiração italiana, nos
finais de quinhentos e inícios do século XVI, ao contrário do que sucedeu em
relação ao azulejo, e a razão estará na importação das louças orientais. O
comércio das porcelanas, que, no entanto, nunca constituía volume significativo
no conjunto das importações portuguesas, intensificou-se a partir de meados do
século XVI. A voga das porcelanas orientais, sobretudo nas casas mais ricas,
explicará a decadência da indústria de cerâmica portuguesa na segunda metade de
quinhentos. A crise que afectou os interesses portugueses no oriente, nos
começos do século XVI, irá, porém, estimular uma nova fase de incremento da
faiança portuguesa. Tratava-se de substituir as porcelanas chinesas por um
produto que se lhe assemelhasse e cumprisse as mesmas funções, nas moradias
portuguesas e no mercado externo. Inicia-se então um dos períodos áureos da
faiança portuguesa. Assistir-se-á, porém, a um novo período de decadência que
se prolonga durante os três primeiros quarteis do século XVIII. A que é devida
essa decadência, para mais numa época em que não escassearão os meios
económicos e em que até se manifesta, em mais que um momento e de diversos modos,
a predilecção pelas artes do oriente e designadamente pelas
"chinoiseries"? No fundo, às mesmas razões que fizeram frustar a
política económica do Conde da Ericeira, e de um modo especial, à afluência dos
metais preciosos, com que, entre outras coisas, se irão fabricar as baixelas,
que dispensarão as faianças artísticas, de que eram principais clientes as
casas mais abastadas. Os bons decoradores da cerâmica ocupar-se-ão na pintura
de grandes paineis de azulejo, então em moda, para as igrejas, conventos e
palácios. Será necessário que passe a onda de prosperidade e de luxo, e se
abata sobre o país uma crise económica, para que se adopte uma política
industrializadora, de que irão beneficiar as faianças, quer pela atenção que
lhes dedica o estado, quer pelo favor que reconquistam nas moradias
particulares. A política industrializadora, que corresponde à segunda fase do
despotismo esclarecido do Marquês de Pombal, pretendeu responder à crise que
afectou Portugal entre 1768 e 1771. Nessa política se enquadra o alvará
publicado em 1770, que estabelecia medidas de protecção para as fábricas de
louça já instaladas ou que viessem a instalar-se no país. Das disposições
proteccionistas consignadas no alvará constavam a proibição de entrada no país
de toda a louça estrangeira, com excepção da que viesse da Índia ou da China em
navios portugueses, e a isenção do pagamento de direitos de saída do país,
concedida a toda a louça de fabrico nacional. Beneficiaram desta protecção duas
indústrias lançadas pouco tempo antes, em Lisboa, com privilégios especiais, a
Real Fábrica do Rato, anexa à fábrica das sedas, fundada por Tomás Brunetto, em
1767, e a instalada por iniciativa de Paulo Pauletti, na Travessa dos Ladrões,
em 1769, assim como, no Porto, a Fábrica de Massarelos, fundada à volta de
1766, e a Real Fábrica do Cavaquinho, de 1768, e outras de fundação posterior,
entre as quais se contam em primeiro lugar a de Viana (Darque), de 1774, a de
Miragaia, no Porto, de 1775, e, posteriormente, de mais algumas, tal é o caso
de Santo António do Vale da Piedade, no Porto, em 1790, e, em Lisboa, da Real
Fábrica da Bica do Sapato, em 1796, sinal de que este ramo industrial
prosperava. Em Coimbra, onde já existia uma forte tradição ceramista,
desenvolvida nos tempos de Manuel Costa Brioso, a renovação chegou através de
Vandelli, com a fábrica do Rocio de Santa Clara, em 1784. Desenvolver-se-ão
ainda as faianças noutros centros menores como Estremoz e Juncal, no distrito
de Leiria.
Nesta renovação das faianças tiveram influência os
contactos com o estrangeiro, especialmente com a Itália e a França,
concretizados ora no apoio dado quer por especialistas, chamados a tomar parte
na renovação dos estudos universitários, posta em marcha pelo marquês de
Pombal, como no caso de Vandelli, quer por técnicos ou artistas expressamente
contratados para trabalhar nas faianças portuguesas, como Tomaz Brunetto, ora
na deslocação de ceramistas portugueses para fazer estágios nas fábricas de
além-fronteiras. Mas os artesãos portugueses souberam assimilar os elementos
trazidos do exterior, e fundi-los com os motivos tradicionais e com os que eram
fruto da própria capacidade de inventar, do que resultaram belas e originais
obras de arte. Em meados do século XIX, as faianças portuguesas entram no seu
derradeiro processo de decadência, devida à concorrência das produções
externas, designadamente das inglesas, no mercado nacional, e ao crescente
desenvolvimento das técnicas da porcelana, cada vez mais preferidas nas casas
de maior requinte.
O Museu Municipal de Viana possui uma excecional coleção
de faianças, com várias séries que justamente se podem considerar únicas em
Portugal e no mundo. Assim, orgulha-se de ter a mais numerosa e variada
colecção da chamada louça azul portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Detém a
mais representativa coleção de peças do período áureo da faiança portuguesa
(últimas décadas do século XVIII e primeira metade do século XIX), provenientes
das mais importantes oficinas de Lisboa, Coimbra e Porto. Como não podia deixar
de ser, guarda com orgulho a mais notável série das faianças produzidas
localmente, as «louças de Viana», acerca das quais escrevia, na primeira metade
deste século, um dos mais conceituados estudiosos da faiança portuguesa,
Joaquim de Vasconcelos: «não se fez em parte alguma do paíz faiança que a
excedesse».
António Matos Reis











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