O FOLCLORE DO MINHO NA PINTURA DO MESTRE JOSÉ MALHOA
A pintura “As Vindimas” constitui uma obra do
pintor José Malhoa que se insere num conjunto de duas telas encomendadas nos
finais do século XIX por um abastado emigrante oriundo da região de Aveiro, o
Comendador Seabra, destinadas a ornamentar o cimo de uma escadaria do seu
faustoso palacete, situado no Bairro Flamengo, na área sul do Rio de Janeiro.
Este prédio viria a ser demolido nos anos oitenta do século XX para dar lugar a
modernas construções, mais ao gosto das novas metrópoles. A outra tela que integra
o conjunto titula-se “A Caminho da Romaria”, possuindo ambas a particularidade
de retratarem os modos de vida característicos dos finais de oitocentos na
região de Entre-o-Douro-e-Minho.
Possuindo
cerca de seis metros de altura, ambas as telas se apresentam recortadas em
diagonal na parte inferior uma vez que se destinaram a ser expostas no cimo de
uma escadaria a ladear a entrada de um salão nobre. Quando o palacete foi
demolido, o seu recheio foi a leilão e, apesar de ter contado com a presença de
um representante do Estado português, aquelas telas viriam a ser adquiridas
juntamente com correspondência trocada pelo pintor José Malhoa, por um
conceituado antiquário de Lisboa, o Sr. Jaime Afra, que as transportou para
Portugal e durante vários anos manteve-as expostas no seu estabelecimento
situado nas proximidades da Praça do Príncipe Real.
Com o seu falecimento, ficámos a desconhecer o paradeiro destas
duas obras-primas do mestre José Malhoa. Aliás, apesar da sua importância, as
mesmas não se encontram no Museu José Malhoa, em Caldas da Rainha, nem em
Figueiró dos Vinhos onde o artista viveu, nem as mesmas são referidas nas
publicações acerca da obra do pintor. Recentemente, viemos a saber através da
srª D. Isabel Afra, viúva do antiquário Jaime Afra, que os referidos quadros
foram vendidos para a coleção do antigo Banco BCP, actual Millenium,
acreditando-se que ainda lá se encontrem.
O quadro “As Vindimas” constitui uma pintura a óleo sobre tela,
produzida nos finais do século XIX e que, à semelhança de outras obras de arte
que produziu, procurou retratar motivos populares, repletos de vida e cor,
envolta numa atmosfera luminosa e plena de sensualidade. Esta obra retrata-nos
a alegria esfusiante e singela do povo simples que se desloca em ambiente
festivo para a festa no cumprimento de uma promessa, na devoção de algum santo
milagreiro, levando consigo as suas alfaias, envergando os seus trajes
característicos, exibindo o colorido garrido e a robustez das gentes simples do
povo.
Influenciado por Silva Porto, o pintor José Malhoa é considerado
o pioneiro do naturalismo em Portugal, tendo integrado o chamado “Grupo do
Leão” e vindo a aproximar-se do impressionismo. Tal como na pintura de Silva
Porto, também o paisagismo na obra de José Malhoa incide particularmente nos
costumes mais pitorescos, valorizando desse modo a natureza como única
realidade existente e, em consequência, rejeitando qualquer ideia de
sobrenatural. No quadro “As Vindimas”, o pintor descreve o que viu, sem qualquer
preconceito de ordem moral ou estética nem idealizações como o faziam os
românticos, retratando apenas a natureza e as pessoas tal como elas se lhe
apresentam. Aqui, a natureza adquire um carácter absoluto e permanente, por
oposição ao idealismo, retratando cenas da vida rural, combinando uma
luminosidade intensa e dramática com a técnica impressionista de representação
da luz solar. Com efeito, a obra pictórica de José Malhoa insere-se nas
correntes estéticas predominantes nos finais do século XIX, mormente o
naturalismo, o realismo e o impressionismo.
Os finais do século XIX foram marcados por um verdadeiro
fervilhar de novas ideias e correntes estéticas a refletir as grandes mudanças
sociais da época, a industrialização das sociedades modernas, a maior rapidez
dos meios de transporte e melhoria das formas de comunicação a facilitar
nomeadamente a circulação da cultura e do pensamento e, finalmente, a prenunciar
grandes convulsões sociais. De toda a Europa, e principalmente de Paris,
chegavam de comboio novas ideias políticas e filosóficas, a moda e novas
correntes estéticas, à semelhança das mercadorias que eram importadas para
consumo de uma burguesia que sobretudo no meio lisboeta se revelava cada vez
mais exigente. Não obstante, são os motivos populares e genuínos que mais
cativam José Malhoa na sua obra, incluindo os retratos produzidos em ambiente
urbano.
Naturalmente, a pintura “As Vindimas” de José Malhoa, bem assim
como grande parte da sua obra, sofreu as influências da pintura de Silva Porto
mas, ao invés deste, utiliza recorrentemente uma paleta de cores vivas,
audaciosas, plenas de sensualidade e beleza, através das quais inunda a luz
solar. Aqui retrata a alegria do povo nos seus afazeres da lavoura, mostrando
raparigas robustas e enérgicas, de peitos fartos e rostos saudáveis. Toda esta
abundância de luz e cor mais não parece do que uma forma de celebrar a natureza
e com ela o próprio sol, numa manifestação de fé quase panteísta com a qual o
próprio naturalismo se chega a confundir na crença de que a razão humana pode
atingir o entendimento do divino.


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