O JORNALEIRO MINHOTO NA ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA

 


“O Jornaleiro Minhoto” é uma interessante reportagem da autoria de Domingos Ferreira, com fotografias de A. Soucasaux, publicada na edição de 8 de Março de 1920 da revista “Ilustração Portugueza”, a qual recuperamos pelo interesse que a mesma possui sobretudo como um retrato da vida social à época, na nossa região.

Ao cantar do galo, que é bom madrugador, debaixo de chuva impertinente ou neve de palmo, os humildes jornaleiros abalam pressurosos para a labuta quotidiana.

Por tortuosos atalhos e múltiplas veredas lá vão em alvoroço tratar da vida, que a morte é certa, inúmeros ranchos de homens e mulheres.

Há-as de ventre cheio, coitadinhas, sabem Deus para cada hora, que mais vagarosas, aos poucos, acompanham, na cauda, o movimentado cortejo do povoléu rural trabalhador.

Flutua no espaço incomensurável o bulhar nervoso de pesados socos.

Ao alto, n’um gesto de soberania apoteótica, a enxada de gume reluzente, afiada há instantes, inseparável companheira de infortúnio, sempre pronta, a boa amiga, á primeira voz, a lidar.

Afaga-lhes as avantajadas costas, d’uma rigidez d’aço, que é de pasmar, o cossaco saquitel de frágil chita, aos quadradinhos, berrante, de ramagens multicores. É a frugal provisão de boca para todo o santo dia: o duro naco de broa de milho, meia dúzia de maçãs, duas ou três sardinhas salgadas já é n’estes tempos que correm d’erguer as mãos ao céu de contentamento.

Vozes claras, aveludadas, doces como favos de mel perdem-se aqui; além, na amplitude imensa da paisagem campesina.

Dedos calosos de trabalho rude moirejam de sol nado há hora mística da Santíssima Trindade na faina incançavel de lançar à terra creadora a semente milagrosa. Na próxima colheita, – que de esperanças! – se o ano não for escasso e o Senhor quizer transformar-se-ão veigas enormes em messas ondulantes de bagos doirados.

Plethorico S. Miguel para os que têm que perder, os eleitos da ventura, e abençoada alegria para os muitos parias que pululam por esse vasto mundo de Cristo aos baldões da má sorte.

Espera á noitinha aos pobres trabalhadores do campo, quando de regresso á humilde choupana, um magro caldo com um ligeiro fio d’azeite aflorando á superfície da pitoresca malga de barro escuro. Aufere um jornaleiro dos bons, creatura cuidadosa e diligente, uma triste, inacreditável bagatela: quanto muito a irrisória quantia d’uma coroa a seco e qualquer coisa como a insignificância de quinze míseros vinténs a de comer.

“O jornal mal nos dá p’ró caldo”. É a frase dolorosa que circula, a miúdo, como um grito de revolta, na boca amarrotada de fome do sacrificado cavador minhoto.

 





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