VAI COMEÇAR A ÉPOCA DA LAMPREIA NO ALTO MINHO - UMA DAS IGUARIAS MAIS APRECIADAS DA NOSSA REGIÃO
"Ó lampreia divina, ó
divino arroz,
Comidos noite velha, em casa do
Julião!
Sem ter ceias assim o que há-de
ser de nós? Sofre meu paladar! Chora meu coração!”
Afonso Lopes Vieira
Lampreia é uma das mais requintadas iguarias da cozinha
tradicional minhota
Desenho da autoria de Júlio
Gil, célebre ilustrador, cartonista, pintor, escritor, caricaturista e
arquitecto nascido em Lisboa em 1924 e falecido em 2004.
A
lampreia é um ciclóstomo com aspecto de enguia, sem maxilas, apresentando a
boca em forma de ventosa circular com o diâmetro do corpo que actua como bomba
de sucção. Não é peixe - é ciclóstomo - não é pescada mas capturada!
A
lampreia marinha reproduz-se nos rios onde vão desovar, gerando cada fêmea
milhares de pequenos ovos que são depositados no fundo dos rios. A lampreia
encontra-se sobretudo em águas temperadas, sendo no nosso país os rios Minho,
Lima e Cávado os habitats onde estas espécies mais se desenvolvem e são
capturados os exemplares mais apreciados da nossa gastronomia tradicional. De
resto, é comercializada a preços bastante elevados e servida como uma iguaria
requintada à mesa dos melhores restaurantes.
Trata-se
de uma especialidade sazonal, servida desde os finais de Janeiro até meados de
Abril, o que também contribui para o seu encarecimento, sendo geralmente
confeccionada como Arroz de Lampreia ao jeito de cabidela e ainda à Bordalesa
ou seja, guisada com acompanhamento de arroz, podendo ainda ser assada no
espeto ou cozinhada em molho de escabeche, portanto temperada em vinagre como
era uso dos romanos e cujo costume se tornou muito popular sobretudo no
Algarve.
Reza
a História que, ao tempo do Condado Portucalense, D. Teresa, mãe de D. Afonso
Henriques, concedeu em 1125 ao Arcebispado de Tui o privilégio de tomar como
suas as lampreias que apresassem no rio Minho, a montante da Torre da Lapela, a
fim de abastecer os mosteiros e conventos por ocasião dos jejuns quaresmais.
Mais recentemente, foi nas estantes da Biblioteca de Nápoles encontrado uma
obra-prima da culinária portuguesa, remontando ao século XVI, com o título “Livro de Cozinha da Infanta D.
Maria”. Com efeito, são inúmeras as referências históricas a tão
afamada especialidade da nossa cozinha tradicional.
Dentro
de pouco tempo, a lampreia subirá os rios Minho, Lima e Cávado para desovar,
depositando sob as rochas ou em pequenos ninhos escavados no leito milhares de
minúsculos ovos que garantirão a sobrevivência da espécie. E morrem. Após a
desova, as larvas permanecem no rio até que, por meio de metamorfose se tornam
adultas. Nessa altura, migram para o mar onde permanecem até atingirem a sua
maturação sexual.
A
lampreia é um ciclóstomo muito procurado por conceituados gastrónomos e outros
apreciadores da nossa culinária. Ela faz os requintes das melhores mesas das
mais afamadas unidades hoteleiras, atraindo numeroso público a localidades do
nosso país que mantêm a tradição da sua confecção esmerada e o requinte de bem
servir. No Minho, a lampreia dos rios Cávado, Lima e Minho constituem o
ex-líbris da gastronomia local a promover o desenvolvimento económico daquela
região. Não admira, pois, o relevo que lhe é conferido pelas entidades que
superintendem a promoção turística e os próprios estabelecimentos de
restauração.
A
preservação da lampreia nos nossos rios depende também da importância que lhe
atribuímos, nomeadamente como parte integrante da nossa alimentação. Ao
contrário do que à primeira vista se possa imaginar, não é a pesca mas a
poluição das águas e outros atentados ao ambiente que fazem perigar a sua
sobrevivência.
Em
virtude do período sazonal da desova, o seu consumo verifica-se geralmente
entre Fevereiro e os finais de Abril. A partir daí, a lampreia apenas surge
figurada na doçaria da Páscoa sob a forma de “lampreia de ovos”, e evocar as delícias de um prato
que apenas pode voltar a ser apreciado no ano seguinte. Não admira, pois, que
chegue inicialmente a atingir preços exorbitantes que, no entanto, não
constituem razão que baste para desmotivar os melhores apreciadores de tão
delicioso pitéu.
Refastelando-se
na sua casa senhorial de Paredes de Coura, Aquilino Ribeiro, na sua obra “A Casa Grande de Romarigães”
afirmava: “Não há como o arroz de lampreia, se lhe adicionarem uma colher de
manteiga de pato”. Por seu turno, o poeta e gastrónomo António
Manuel Couto Viana, no seu livro “Por horas de comidas e bebidas – crónicas gastronómicas”,
dedica um capítulo inteiro à “lampreia divina”, como Afonso Lopes Vieira a
designou. Escreveu Couto Viana o seguinte:
“Já a correnteza das águas que
jorram da vizinha Espanha se enfeitam com o aparato das estacas e redes, para
prenderem, nas suas malhas, noite adiante, o fugidio ciclóstomo, a tentar
disfarçar-se aos rés dos seixos do leito; o chupa-pedras tão apreciada por mim,
quando de cabidela, afogado no arroz malandrinho, embebido no seu sangue
espesso e escuro.
Também a fisga certeira, atirada,
firme, dos altos, se os olhos penetrantes do pescador distinguem bem o vulto
ondeante, faz içar a lampreia até às mãos ávidas, e lança-a, depois, para a
vastidão de um saco que se quer a abarrotar.
(…)
Soberbo petisco! Com que gula a
mastigavam os frades medievos torturados pelos jejuns quaresmais!
Com que gula a mastigo eu, em
mesa que ma apresente opípara no arroz do tacho, em grossos toros aromáticos,
ou à bordalesa, ou de escabeche, que nestas três artes se mantém ela tentadora
e sápida”.
Com
o talento dos mais consagrados artistas, cozinheiro após pelar a lampreia
coloca-a num alguidar deitando sobre ela água a ferver. De seguida, abre-a da
cabeça até ao fundo dos buracos e, junto à cauda, desfere-lhe um golpe para lhe
retirar a tripa inteira. O sangue é guardado no mesmo recipiente onde a
lampreia fica a marinar mergulhada em vinho tinto a que se juntam um ramo de
salsa, uma folha de louro, um dente de alho, pimenta, colorau, sal e margarina.
No dia seguinte, é feito um refogado onde é colocada a lampreia que fica a
cozer durante cerca de quinze minutos, cuidando para que não se desfaça. Após o
guisado, retira-se a lampreia. Ao caldo junta-se água no triplo do arroz que
vai ao tacho e deixa-se ferver durante mais quinze minutos. Finalmente,
serve-se numa travessa funda, cobrindo o arroz com a lampreia, golpeada em
troços.
Apetece
exclamar, como o fez o poeta Afonso Lopes Vieira: - Ó lampreia divina!
LAMPREIA À BORDALESA
- Para 6 a 8 pessoas
1
lampreia; 2 cebolas; 2 cenouras; 2 colheres de sopa de banha; 2 colheres de
sopa de azeite; 2 dentes de alho; 1 ramo de salsa; 1 folha de louro; 2 dl de
vinho tinto; sal; pimenta.
Para o arroz: 600 g de arroz, 1 cebola, 3 colheres de sopa de azeite; salsa; 1
folha de louro; sal; pimenta.
Corta-se
a lampreia em pedaços regulares que se colocam numa caçarola com a banha, o
azeite, as cenouras e as cebolas cortadas às rodelas grossas, os dentes de
alho, a salsa e o louro. Tempera-se com sal e pimenta e leva-se a estufar sobre
lume forte.
Quando
a lampreia estiver cozida, rega-se com o vinho tinto que, entretanto, serviu
para conservar líquido o sangue que escorreu da lampreia enquanto se arranjou e
cortou. Deixa-se ferver aproximadamente durante mais 5 minutos.
Preparação do arroz: começa-se por fazer um estrugido
com a cebola, o azeite, a salsa e o louro. Depois, rega-se com água (três vezes
o volume do arroz), tempera-se com sal e pimenta e, assim que o caldo levantar
fervura, adiciona-se o arroz e um pouco do molho da lampreia estufada.
Serve-se
a lampreia com o arroz ou sobre fatias de pão frito, sendo neste caso o arroz
servido à parte.







Comentários
Enviar um comentário