O QUE É O TRAJE DE LAVRADEIRA NO MINHO? – FOTO DE JOSÉ CARLOS VIEIRA
É mundialmente
conhecido o traje domingueiro de lavradeira vulgarmente conhecido por “traje à
vianesa”. Por estes dias, vemo-lo a desfilar por todas as romarias da nossa
região, na Senhora d’Agonia e nas Feiras Novas, no São João d’Arga e nos
festejos da Senhora da Bonança. Mas, afinal, de que se trata realmente o traje
de lavradeira?
De uma
forma genérica, o traje à lavradeira era a roupa que a mulher do campo usava
nas suas lides diárias como em dias de festa e de romaria, diferenciando-se
naturalmente a que empregava no trabalho da que guardava para ocasiões
especiais. E distinguia-se ainda segundo a sua idade, estado civil ou estatuto
social. A não ser que se estivesse perante um caso de perturbação do foro
psíquico, ninguém esperaria ver uma respeitável matriarca com um traje garrido,
dos jeitos que usavam as moças da Areosa
Mas,
no Minho, a mulher não exercia exclusivamente um ofício qualquer que ele fosse.
Era ela quem trabalhava no campo e cuidava da família e das lides da casa, que
semeava o linho, espadelava, fiava e tecia. E, sempre que as obrigações
domésticas o permitiam, era ainda ela quem bordava ou rendilhava. Ela era
simultaneamente lavradeira e tecedeira, bordadeira e rendilheira, esposa e mãe.
Por conseguinte, a designação de lavradeira apenas nos proporciona uma ideia
pálida da grandeza da mulher minhota – e uma classificação algo incompleta do
traje que usava!
Mas
o traje antigo da mulher rural do Minho não era uniforme, variando ainda
consoante a região – ou sub-região se assim o entenderem! – de acordo com as
necessidades climatéricas, os rituais e as mentalidades, o caráter e a
habilidade das talentosas artistas que o confecionam. Alegres e vistosos na
Ribeira Lima, desde Viana do Castelo até Ponte de Lima, com mais estopa na
Serra d’Arga, mudam completamente de cor a partir de São Martinho da Gandra
para quem segue o percurso do rio Lima até ao Soajo. E, que dizer do traje de
lavradeira de Ponte da Barca, de Barcelos ou de capotilha na região de Braga?
Todos estes e muitos outros, com as formas mais diversas, mais não são do que
variantes do traje de lavradeira minhota ou, melhor dizendo, diferentes trajes
que a mulher rural outrora usava no Minho.
Naturalmente,
a vivacidade das cores e a beleza artística do traje usado nas zonas rurais à
volta de Viana do Castelo despertaram a curiosidade da burguesia citadina e
veio mais tarde a tornar-se no cartaz turístico de uma região. Mas, perdoem-me
os folcloristas, Viana do Castelo
não é apenas terra de lavradeiras – aqui também existem pescadores e peixeiras
e, tempos houve que também existiam marinhas de sal e cuidava-se da seca do
bacalhau. E, não obstante, não vemos os costumes dos marnotos representados
pelos grupos de folclore!
Sucede
que a primeira função do vestuário é agasalhar a pessoa que o utiliza. Não
obstante e sem descurar essa finalidade, o Homem procura dotá-lo de beleza e
através dele transmitir as suas ideias e sensações. Com efeito, a arte apenas
serve para nos alegrar a vida!
As
transformações impostas pelo tempo, nomeadamente o aparecimento de novas modas
burguesas e ainda a sua utilização por parte de regimes autoritários como o
Estado Novo, fizeram do folclore uma das vertentes da promoção turística
levaram à adulteração do traje, à semelhança do que se verificou com o
artesanato, as danças e de uma maneira geral tudo quanto se relaciona com a
nossa cultura tradicional. Apareceram as saias curtas e as unhas postiças, os
botões de plástico em série sobre coletes recortados e chapéus á toureiro, a
maquilhagem e os acessórios da moda atual. É o “folclore” do tipo
bilhete-postal para vender ao turista. De resto, passou a constituir uma das
atrações das chamadas “casas de fado”, depois do antigo regime retirar das
vielas mal frequentadas este género musical e atribuir aos faias carteira
profissional…
A
partir da década de quarenta do século passado, sob a orientação dos folcloristas afetos ao regime e o
patrocínio das Casas do Povo, da Mocidade Portuguesa, da Fundação Nacional para
a Alegria no Trabalho (FNAT) e do Secretariado Nacional da informação (SNI),
foram constituídos muitos grupos folclóricos que passaram a servir de modelo
para os que entretanto foram aparecendo até ao presente. Sem qualquer
preocupação de natureza cultural nem rigor técnico, copia-se o figurino, quando
não se procede à compra do “fardamento” por atacado numa qualquer loja da
especialidade… é o folclore que
temos!
Fazem-nos
atualmente crer certos folcloristas que
apenas o chamado traje à vianesa deve ser considerado como traje de lavradeira,
na suposição de que não existiam outrora no Minho mais lavradeiras nem as
mulheres faziam outra coisa senão vestir o traje domingueiro, não iam ao tear
nem bordavam… eram apenas lavradeiras de ir à festa!

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