O RIO LIMA – LETHES NA MITOLOGIA CLÁSSICA – E A VISÃO MÍTICA DO HADES
Quando no ano 163 Antes de Cristo, as legiões romanas comandadas por Decimus Julius Brutus chegaram à margem esquerda do rio Lima, elas temeram atravessá-lo por acreditarem tratar-se do mítico rio do esquecimento e, ao transporem-no, esquecerem-se para sempre da sua pátria e de si mesmos. Tal superstição foi desfeita quando o tribuno romano atravessou o rio e, da outra margem, chamou todos os seus soldados pelo seu próprio nome.
O sítio escolhido pelas legiões romanas para atravessar o rio Lima foi naturalmente aquele que entretanto entenderam por mais adequado para construírem a ponte que liga as duas margens, um troço da qual veio a ser reconstruído ao tempo do rei D. Pedro I em virtude de ter sido derrubado pelas fortes correntes.
Foi também o local onde mais tarde veio a nascer a vila de Ponte
de Lima – no sítio exacto onde a ponte que servia a estrada militar via XIX que
constava do Itinerário de Antonino e que ligava Bracara Augusta (Braga a
Astúrica Augusta (Astorga), passando por Lugo e Tui, se cruza com o rio como
duas importantes vias de comunicação à época! – e em relação ao qual os romanos
baptizaram por Lethes, numa clara alusão ao mítico Lethes, um dos cinco rios
que na mitologia grega banhava o Hades, representando a passagem da vida para a
morte através de uma barca conduzida por Caronte.
A travessia era paga e, a comprová-lo, as moedas encontradas em
muitas sepulturas romanas, colocadas na boca do defunto para garantir o seu
pagamento.
Interpretação do século XIX da travessia do rio Lethes por Caronte, por Alexander Litovchenko.
Segundo
a mitologia grega, o rio Lethes era um dos cinco rios que banhava o Hades. A
passagem da vida para a morte constituía a travessia feita do rio Lethes – o rio do esquecimento –
através de uma barca conduzida por Caronte. Foi aliás, baseado nesta crença que
Gil Vicente escreveu os seus autos, mormente o Auto da Barca do Inferno.
Também
Dante, na Divina Comédia, na segunda parte da obra dedicada ao Purgatório,
descreve o Lethes como um rio de cujas águas os pecadores tinham de beber para
apagarem da memória os seus pecados cometidos e, desse modo, entrarem no
Paraíso.
Porém,
uma das mais conhecidas descrições do Hades e, consequentemente do rio Lethes
constitui a versão apresentada pelo poeta épico Homero na Ilíada e na Odisseia.
Como
é sabido, os romanos assimilaram a cultura dos gregos, atribuindo novas
denominações às suas divindades. Na Grécia antiga, Lethes significava
literalmente “esquecimento”, constituindo um dos cinco rios que banhavam o
Hades. Os demais eram o Aqueronte (rio da dor), Cocito (lamento), Flegetonte
(fogo) e Estige (invulnerabilidade), os quais faziam a fronteira entre os
mundos superiores e inferiores. Lete é também uma das náiades, filha da deusa
Eris, senhora da discórdia, irmã de Algea, Limos, Horcos e Ponos.
A
origem etimológica da palavra Inferno provém do latim infernum ou inferus e que significa literalmente “profundezas”,
“lugares baixos”, aludindo a um local de sepultura. O equivalente ao termo
hebraico sheol, não existindo nela qualquer indicação de local de fogo e
tormento a que os maus estavam condenados. Aliás, tal ideia só veio a ser
concebida por associação com a Geena – o vale de Hinom, fora das muralhas de
Jerusalém – que era usado como lixeira e onde também eram lançados os cadáveres
de pessoas consideradas indignas, sendo utilizado o enxofre para manter o fogo
aceso e queimar o lixo. De resto, o termo Geena ocorre doze vezes nas
Escrituras Sagradas, tendo Jesus usado o vale de Hinom para representar a
destruição eterna.
Em
Lucas (12:5), o evangelista refere-se à Geena com as seguintes palavras: “Mas, eu vos indicarei quem é
para temer: Temei aquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na
Geena. Sim, eu vos digo temei a Este”. E assim surgiu o Inferno
como um local de padecimento!
Para
trás ficou – qual rio do Esquecimento! – a crença no mítico rio Lethes que,
séculos após a chegada das legiões romanas, passou a ser local de
atravessamento de milhares de peregrinos, através da ponte que os romanos ali
ergueram, com destino a Compostela para ali venerarem o apóstolo São Tiago
Maior que, depois de ter andado pelo Minho – Braga, Guimarães e Rates – a
tentar converter os pagãos, veio mais tarde segundo a tradição cristã a ser
sepultado no local onde entretanto foi erguida a monumental catedral na Galiza.
António
Feijó
Também
designado de Belion e pelo historiador e geógrafo grego Estrabão identificado
como o mítico Lethes, o rio Lima continua a ser cantado pelos poetas, tendo em
António Feijó porventura um dos seus maiores bardos:
Nasci á beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo crystal;
D'ahi a angustia que me victima,
D'ahi deriva todo o meu mal.
É que nas terras que tenho visto,
por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.
São águas claras sempre cantando,
Verdes colinas, alvôr d'areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua - cheia...




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