ORIGEM E TRADIÇÃO DAS REGUEIFAS E CANTARES AO DESAFIO NA GALIZA E EM PORTUGAL
Remontam muito provavelmente à Idade Média os tradicionais cantares ao desafio tão caraterísticos do Minho, filiando-se porventura nos cantares trovadorescos e principalmente nas cantigas de escárnio e maldizer da época, a um tempo em que o falar do povo não se distinguia ainda nas duas margens do rio Minho – Galiza e Portugal – e a Língua portuguesa florescia graças a um extraordinário movimento cultural a que certamente não era alheio as peregrinações a Santiago de Compostela e a tradição da poesia trovadoresca provençal que os peregrinos transportavam consigo pelo caminho que atravessava os Pirenéus. Estava então Portugal a dar os primeiros passos na sua formação como nação independente, fazendo tentativas várias para que também a Galiza o acompanhasse nesse projeto.
Aos cantares ao desafio, também
conhecidos entre nós como desgarradas, chamam os galegos de regueifas, fato a
que não é alheio o velho costume de, em ocasião de romaria, se consumir um pão
doce em forma de rosca, com farinha de boa qualidade, também utilizado em
ocasiões de boda. As migrações internas e sobretudo as vias de comunicação
levaram esta especialidade gastronómica a outras regiões do país, adquirindo
novas formas e denominações como fogaça e bolo-de-arco, sendo nalguns sítios se
popularizado como “pão espanhol” numa clara alusão às suas origens
minhotas e galegas.
À semelhança dos cantares ao desafio, a
regueifa galega constitui uma cantiga improvisada na qual duas ou mais pessoas
seguem um cantar ao despique sobre um tema determinado ou simplesmente tratando
de saber qual deles logra obter o maior aplauso do público. A relação com o pão
que na realidade dá o nome a esta forma de expressão musical reside na
competição havida entre regueifeiros durante uma boda, cujo vencedor era
distinguido pela noiva que lhe entregava a regueifa e dava a honra de
reparti-la entre rapazes e raparigas solteiras presentes na festa. Com o
decorrer do tempo, o costume vulgarizou-se e a designação de regueifa passou a
denominar o cantar ao desafio mesmo fora da ocasião de uma boda, com ou sem o
pão.
Tal como a regueifa feita de açúcar,
ovos, manteiga e canela é apreciada noutras regiões do país e passou a marcar
presença em ocasiões festivas, também o costume dos cantares ao desafio se
propagaram por outras paragens, naturalmente adaptados às idiossincrasias de
cada povo, como sucede com os repentistas no Brasil e na Colômbia e os desafios
entre payadores na Argentina e no
Uruguai. Em Portugal, a forma de cantar ao desafio adaptou-se ao fado sob a
forma de desgarrada e encontramo-lo nos cantos das décimas do Alentejo e nos poetas repentistas algarvios.
Em consequência do abandono do mundo
rural e das suas tradições em face do crescimento urbano e da perda do uso da
língua galega, o género musical da regueifa tem vindo a cair em desuso na
Galiza á semelhança de outras manifestações da cultura tradicional galega.
Porém, os cantares ao desafio têm vindo a adquirir crescente notoriedade no
nosso país graças sobretudo a exímios cantadores e tocadores de concertina,
constituindo uma das principais atrações de muitas festas e romarias que
competem entre si a sua preferência e dela fazendo uma das tradições mais
apreciadas das nossas gentes.


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