OS GALEGOS SÃO NOSSOS IRMÃOS!
Publicou o
jornal “Notícias Ilustrado”, na sua edição de 10 de Março de 1929, uma
interessante reportagem acerca da comunidade galega radicada em Portugal, dando
a conhecer importantes personalidades que se salientaram nos mais variados
domínios, desde as artes à indústria, realçando o seu carácter trabalhador e
honesto e lembrando ao mesmo tempo as afinidades que ligam os portugueses às
gentes da Galiza. É precisamente essa reportagem que aqui parcialmente
reproduzimos.
A tradição galaica em Portugal é das mais curiosas, das mais
características. Dessa região admirável que um poeta supremo da Espanha cantou
enternecidamente, Curros Henriquez, no seu livro máximo “Aires de mi tierra”
desse torrão abençoado, que é Portugal na cor quente da sua paisagem, na
suavidade acalentadora do céu clima, dessa terra de monumentos antigos e de
troveiros campezinos, teem vindo pacientemente, hora a hora, ano por ano,
século, por século gerações de gente de trabalho, famílias inteiras à terra
portuguesa, onde um nobilitante trabalho lhe dá quasi fóros de naturais. O
árduo labor das suas profissões grangeiou à população galega que vive entre
nós, uma simpatia fraterna, um convívio demorado, uma cativante estima que
apaixonou as duas raças como se verdadeiros irmãos fossem, como se as
norteiasse um mesmo ideal de trabalho, a mesma religião de atividade e de
esforço.
Prepara-se Portugal para celebrar a semana
galaica, sete dias de consagração dos nossos seculares vizinhos.
“O Notícias Ilustrado” dá com este numero a sua comovida
colaboração nessa homenagem à colonia galaica que em Portugal tem tão numerosa
representação. Irmãos na raça, na actividade, galegos e portugueses irmanam-se
na sua intimidade sã e cordeal. E é tão grande essa tradição de amisade que, já
em tempos do rei D. João I, um fidalgo da Galiza D. Pedro Alvarez de Souto
Maior, que foi Conde de Caminha e Visconde de Tuy, seguiu as hostes de
Portugal, onde casou com uma senhora dos Tavoras de Mogadouro, de que há ainda
hoje larga descendência, na nobreza lusitana.
Hoje, a colónia galaica, é das mais importantes do nosso paiz.
Não só trabalhadores humildes e infatigáveis, trocaram os campos verdes e
paisagens fartas pela labuta nos nossos centros; homens de valor, da industria
e da sciencia teem em Portugal construído os seus lares. É das mais laboriosas
colónias – a da Galiza irmã – esta que tem em Portugal no coração – irmãos; e
na alma amigos sinceros e complementos espirituaes – temos entre nós poetas e
artistas galegos – que nos acarinham a alma com as suas obras que tanto se
casam com o nosso sentimento e com a nossa ternura de meridionais.
Eles são, na nossa terra de sonhadores, de idealistas, como que
um pedaço da Espanha cavalheiresca, cheia de tradição, alfobre de lendas
deliciosas, ninho de afirmações, onde o Sol tem o brilho que tem no nosso
Portugal e onde a paisagem tanto se identifica com a nossa.
(clichés de Batista e Ferreira da Cunha)



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