PAREDES DE COURA – CELEIRO DO MINHO – TERRA DAS PAPAS – PARAÍSO DA BRÔA
A MULHER COMPANHEIRA DO HOMEM – FESTAS E TRABALHOS
AGRÍCOLAS
O celeiro do alto Minho é Coura, terra das papas, paraízo da borôa. Como por
lá o terreno é mais fundo e húmido, as colheitas fazem-se no S. Martinho, e
sangra-se Christo sem escrúpulo. São as martinhadegas.
Parece que o nome explica os usos. E de facto explica. As mulheres entram com
os homens nas malhadas e com eles manejam, alternadamente, os mangoaes. Nos
terrenos menos fundos e mais secos, pelo leste do Minho, as malhadas fazem-se
mais cedo; e mais cedo ainda, em setembro, pelo S. Miguel (dia santo em todas
as aldeias minhotas), faz-se a esfolhada.
Esfolhear o milho consiste em descamisar-lhe a espiga. Devia ser um trabalho
enfadonho. Pois não é. Por toda a parte é uma pandega de truz. No coberto ou na
eira reúnem-se os vizinhos á gente da casa, e não faltam á festa as cachopas
bonitas com os seus conversados. Sentam-se todos no chão ou onde Deus quer,
n’uma grande roda. Canta-se ao desafio, conversa-se e
quando aparece o milho-rei corre o possuidor a roda a colher abraços da
sociedade. Ás vezes irrompe do escuro uma mascarada pitoresca.
Dança-se e ceia-se. Come-se bacalhau ou sardinhas, a borôa, um caldo de couves
com feijão; bebe-se a pinga do Senhor; e, como ás vezes o amôr e o vinho fazem
das suas, não +e raro acabar tudo á meia noite com muita pancadaria. Nas
malhadas de centeio, mais montanhezas, cada infusa de verde é
acolhida com vivas desengonçados a que chamam apupos.
Mas quanto mais os mangoaes trabalham mais a fome aperta. Por isso, antes do
meio dia, cae na cozinha um grupo de malhadores, cocando a comida ou as
mulheres. Mas estas não são pêcas: brigam com eles – defendendo-se a tição, com
a pá do forno, a braço, como calha – e expulsam-nos para a eira com grande
alarido. Ao arrumar da palha, arma-se um mono representando uma velha, a cujo
enterro se procede imediatamente, indo atraz o viúvo como carpideira.
Não são estas porém as únicas festas agrícolas da
região. Há as lavradas pela Paschoa. E em junho, foucinha no punho,
lá vae tudo para as veigas segar o trigo e o centeio. Depois da apanha do
linho, faz-se também, pelo S. João, a espadellada.
Todas as cachopas, com o seu cortiço ao
lado e de espadella na mão, trabalham como formigas e cantam
como cigarras. Vão-se chegando os rapazes, que se prantam de
roda, encostados aos varapaus. Surge, de repente, o tocador, com o cavaquinho
ou o harmónico; e lá se abandonam os
cortiços e se pousam as espadelas, porque já as moças, a mail-os moços – vira
que vira, - entram na dansa, de mãos erguidas, emquanto os velhos saboream a pinga, limpando a bocca ás costas
da mão. Nas vindimas canta-se também, está visto, mas, depois das maceiras
terem deitado as uvas nas dornas ou nos lagares, o mulherio retira-se
prudentemente, porque o resto, cá no Minho, é só para homens. São os homens, de
calças arregaçadas, e alguns mesmo sem calças, que vão pisando os cachos,
emquanto a ceia se faz e a véla de sebo dura accêsa.
O inverno aproxima-se, com o seu cortejo de chuvas e
ventanias. Ora o frio esperta o estomago. É preciso arranjar presigo que aquente. Como no dia de Santo André quem
não tem porco mata a mulher, convém evitar a viuvez, sacrificando sobre o banco
esguio, á faca do matador, o cevado que no chiqueiro grunhe. A matança é um caso complicado que demanda
conhecimentos domésticos. Até á dependura do porco e ao preparo da salmoura mestrejam os homens, mas os cuidados culinários do
sarrabulho cabem às mulheres. O mulherio da casa e da vizinhança junta-se na
cozinha a petar cebola para os chouriços, a fazer os rojões,
a bater o sangue para o arroz de sarrabulho, a preparar o lombo e a collada, a lavar as tripas, a
encher as farinheiras ou as alheiras, a depennar o gallo (porque sem gallo não
há sarrabulho que preste) e a compor a vinha d’alhos, enquanto as crianças
contemplam a bexiga que, perto do lume, secca dependurada. Isto porque, nas casas
boas das aldeias, o jantar de sarrabulho, bem regadinho de verdasco desde a
canja até o lombo, dura horas que nem Deus conta, e para mais, quasi sempre com
o senhor parocho á cabeceira.
Assim o homem se prende á terra e a agricultura e os
cuidados caseiros entreteem a mulher. Mas sem os bois como se há de lavrar o
campo? Quem dá o leite, senão as vacas? Não é também só de linho que se há de
compor o bragal! A lã dos carneiros e das ovelhas aquece mais, no inverno, que
o vinho das infusas. Os animais auxiliam o lavrador. É raro o que não sustenta
bois, próprios ou tomados a ganho. Mas, além dos bois, há os porcos, as
galinhas, as cabras, as ovelhas, o cão, que vigia toda a noite no quinteiro, o
gato, que se enrosca na quentura do lar. É a mulher, quasi sempre, que trata
dos animais: encurrala as cabras e as ovelhas, faz a cama ao gado, tira o leite
ás vacas, escalda o farello para as gallinhas, prepara a lavadura para os
porcos. Além d’isto, trabalha no campo como qualquer homem, em especial a
casada de poucas posses, ou occupa o tempo em industrias caseiras, como a
tecelagem e a fiação. E quando se trata d’uma festa, não há ninguém como ella
para enfeitar um arcos de flôres, para adornar um altar, para animar um leilão
de prendas com segredinhos disputados,
como não há ninguém como ella para amanhar uma ceia, tecer o linho, urdir,
fiar, cantar, puxar os cordões à bolsa, calcular, rezar e descompor alguém.
Fonte: revista "Ilustração Portugueza" de 11 de abril de
1910

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