PAREDES DE COURA: A MULHER DO ALTO MINHO – FOTO DE SÉRGIO MOREIRA & SÍLVIA MOREIRA
O
celeiro do Alto Minho é Coura, terra das papas, paraíso da boroa. Como por lá o
terreno é mais fundo e húmido, as colheitas fazem-se no S. Martinho, e
sangra-se Cristo sem escrúpulo. São as martinhadegas.
Parece que o nome explica os usos. E de facto explica. As mulheres entram com
os homens nas malhadas e com eles manejam, alternadamente, os manguais. Nos
terrenos menos fundos e mais secos, pelo leste do Minho, as malhadas fazem-se
mais cedo: e mais cedo ainda, em Setembro, pelo S. Miguel (dia santo em todas
as aldeias minhotas), faz-se a esfolhada.
Esfolhear o milho consiste em descamisar-lhe a espiga. Devia ser um trabalho
enfadonho. Pois não é. Por toda a parte é uma pandega de truz. No coberto ou na
eira reúnem-se os vizinhos à gente da casa, e não faltam à festa as cachopas
bonitas com os seus conversados.
Sentam-se todos no chão ou onde Deus quer, numa grande roda. Canta-se ao
desafio, conversa-se e quando
aparece o milho-rei corre o
seu possuidor a roda a colher abraços da sociedade. Às vezes irrompe do escuro
uma mascarada pitoresca. Dança-se e ceia-se. Come-se bacalhau ou sardinhas, a
boroa, um caldo de couve com feijão; bebe-se a pinga do Senhor; e, como às
vezes o amor e o vinho fazem suas, não é raro acabar tudo à meia noite com
muita pancadaria. Nas malhadas de centeio, mais montanhesas, cada infusa de verde é acolhida com vivas
desengonçados a que chamam apupos. Mas quanto mais os manguais trabalham mais a
fome aperta. Por isso, antes do meio-dia, cai na cozinha um grupo de
malhadores, cocando a comida ou as mulheres. Mas estas não são pecas: brigam com
eles — defendendo-se a tição, com a pá do forno, a braço, como calha — e
expulsam-nos para a eira com grande alarido. Ao arrumar da palha, arma-se um
mono representando uma velha a cujo enterro se procede imediatamente, indo
atrás o viúvo como carpideira.
Não
são estas, porém, as únicas festas agrícolas da região. Há as lavradas pela Páscoa. E em Junho,
foucinha no punho, lá vai tudo para as veigas segar o trigo e o centeio. Depois
da apanha do linho, faz-se também, pelo S João, a espadelada.
Todas as cachopas, com o seu cortiço ao
lado e de espadela na mão,
trabalham como formigas e cantam como cigarras. Vão-se chegando os rapazes, que
se prantam de roda, encostados aos varapaus. Surge, de repente, o tocador, com
o cavaquinho ou o harmónico; e lá
se abandonam os cortiços e se pousam as espadelas, porque já as moças, a mailos
moços — vira que vira, entram na dança, de mãos erguidas, enquanto os velhos
saboreiam a pinga, limpando a boca
às costas da mão. Nas vindimas canta-se também, está visto, mas, depois das
maceiras terem deitado as uvas nas dornas ou nos lagares, o mulherio retira-se
prudentemente, porque o resto, cá no Minho, é só para homens. São os homens, de
calças arregaçadas, e alguns mesmo sem calças, que vão pisando os cachos,
enquanto a ceia se faz e a vela de sebo dura acesa.
O
Inverno aproxima-se, com o seu cortejo de chuvas e ventanias. Ora o frio
esperta o estômago. É preciso arranjar presigo que
aquente. Como no dia de Santo André quem não tem porco mata a mulher, convém
evitar a viuvez, sacrificando, sobre o banco esguio, à faca do matador, o
cevado que no chiqueiro grunhe. A matança é
um caso complicado que demanda conhecimentos domésticos. Até à dependura do
porco e ao preparo da salmoura mestrejam os
homens, mas os cuidados culinários do sarrabulho cabem às mulheres. O mulherio
da casa e da vizinhança junta-se na cozinha a petar cebola para os chouriços, a
fazer os rojões, a bater o sangue
para o arroz de sarrabulho, a preparar o lombo e a colada,
a lavar as tripas, a encher as farinheiras ou as alheiras, a depenar o galo
(porque sem galo não há sarrabulho que preste) e a compor a vinha-de-alhos,
enquanto as crianças contemplam a bexiga que, perto do lume, seca dependurada.
Isto porque, nas casas boas das aldeias, o jantar de sarrabulho, bem regadinho
de verdasco desde a canja até ao lombo, dura horas que nem Deus conta, e para
mais, quase sempre com o senhor pároco à cabeceira.
Assim
o homem se prende à terra e a agricultura e os cuidados caseiros entretêm a
mulher. Mas sem os bois como se há de lavrar o campo? Quem dá o leite, senão as
vacas? Não é também só de linho que se há-de compor o bragal. A lã dos
carneiros e das ovelhas aquece mais. no Inverno, que o vinho das infusas. Os
animais auxiliam o lavrador. É raro o que não sustenta bois, próprios ou
tomados a ganho. Mas, além dos
bois. há os porcos, as galinhas, as cabras, as ovelhas, o cão, que vigia toda a
noite no quinteiro, o gato, que se enrosca na quentura do lar. É a mulher,
quase sempre, que trata dos animais: encurrala as cabras e as ovelhas, faz a
cama ao gado, tira o leite às vacas, escalda o farelo para as galinhas, prepara
a lavadura para os porcos. Além disto. trabalha no campo como qualquer homem,
em especial a casada de poucas posses, ou ocupa o tempo em indústrias caseiras,
como a tecelagem e a fiação. quando se trata duma festa, não há ninguém como
ela para enfeitar um arco de flores, para adornar um altar, para animar um
leilão de prendas com segredinhos disputados,
como não há ninguém como ela para amanhar uma ceia, tecer o linho, urdir, fiar.
cantar, puxar os cordões à bolsa, calcular, rezar e descompor alguém.
Fonte: João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa,
11 de Abril de 1910

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