PONTE DA BARCA: LINDOSO PREPARA-SE PARA ENTERRAR O PAI VELHO
Aproxima-se o Carnaval e com ele a tradição dos tradicionais festejos carnavalescos do Enterro do Pai Velho no Lindoso, em Ponte da Barca. Logo pela manhã, o cortejo percorre os caminhos da aldeia, no lugar do Castelo.
À frente, um carro de bois devidamente engalanado com uma base
de ramagens de cedro, bucho, cameleira e mimosa leva o busto de madeira do Pai
Velho. Segue-se o “Carro das Ervas” com os bois enfeitados com ramos de flores
nos chifres, conduzido pela lavradeira e seguido pelas tradicionais rusgas ao
som da concertina, do bombo, dos ferrinhos e das castanholas. E, porque de
entrudo se trata, não faltam no cortejo os foliões mascarados a preceito.
O “Pai Velho” é um boneco cujo busto é de madeira de castanho e
o corpo de palha. Por volta da meia-noite, tem lugar o “Enterro do Pai Velho”
propriamente dito. É então lido o testamento que cumpre a sua função de sátira
social, terminando com uma grande fogueira onde o “Pai Velho” é queimado ou,
com mais rigor, o seu corpo de palha uma vez que o busto em madeira permanecerá
escondido à guarda dos homens mais antigos da aldeia, até ao ano seguinte.
Esta tradição é atualmente mantida pela Associação “Os Amigos do
Lindoso” e conta com o apoio da Câmara Municipal de Ponte da Barca.
À semelhança da “Serração da Velha”, da “Queima do Judas” e
outras representações tradicionais, o “Enterro do Pai Velho” insere-se num
ciclo de festividades de origem pagã que pretendiam assinalar o fim do inverno
e o renascimento da Natureza e dos vegetais com a chegada da Primavera,
participando através do rito na ação criadora dos deuses.
A culminar os festejos, é lido o testamento e o Pai Velho queimado numa
grande fogueira, um costume que nos remete para outras tradições semelhantes
como a Serração da Velha, a Queima do Judas, a Vaca de Fogo ou as Pulhas. A
este propósito, descreve-nos o Dr. Francisco Sampaio:
Quem é este Pai Velho? Uma espécie de despedida do Inverno e o acolhimento
à Primavera que está a chegar? Recordação das festas dos "loucos
medievais", colocando um ponto final ao tempo de excessos que precedem a
Quarta - Feira de cinzas? O rito da fecundidade estimulado por uma nova seiva
que vai surgir após as longas noites do solstício do Inverno?
O cerimonial mantém-se quase com os mesmos ingredientes medievos que
encontramos na "Vaca das Cordas", ou na "Procissão do Corpo de
Deus", em Monção com a tradição do Boi Bento, do Carro das Ervas, do
Dragão e do S. Jorge, ou na Senhora D'Agonia com os seus Gigantones e
Cabeçudos. Cumpre-se a tradição em Terras do Lindoso, sempre na época do
Entrudo, nos lugares de Castelo e de Parada. Em dias de Domingo Gordo e Terça -
feira de Carnaval.
Em frente aos espigueiros e à eira comunitária, tendo como cenário o
Castelo Medievo, o busto de madeira do Pai Velho transportado num carro de
bois, seguido de outro carro de bois, Carro das Ervas, engalanados, com a
chiadeira habitual, tilintando de campainhas e com as cangas ornamentadas de
monelhas, ramos de flores em cada chifre; à frente a lavradeira, camponesa
rústica qual loura Ceres ( Deusa da Fecundidade), bem ourada com os cordões das
avós; atrás as rusgas de concertinas, bombos, ferrinhos e castanholas e a que
não faltam as máscaras dos mais foliões, os "varredouros" -
normalmente de chapéus de palha e face tapadas com panos esburacados, munidos
de vassouras de varrer o forno... eis os cortejos de Domingo Gordo no lugar do
Castelo, depois da missa e, da parte de tarde, no lugar de Parada, com idêntico
cerimonial.
Tudo se esconde até terça - feira de carnaval onde idênticos cortejos se
realizam ainda com festa mais rija, para terminar depois dos bailaricos, com a
entrada de um novo cortejo, com uma dúzia de vultos de branco vestidos, cada um
com uma vela acesa e uma cruz á vanguarda, iniciando-se todo um coro de gemidos
e berraria, gritando: "Adeus Pai Velho - eras um bom Pai".
Segue-se o enterro do Pai Velho, cerca da Meia-noite, altura em que se
atinge o clímax do ritual coletivo concretizado na queima do boneco de palha e
a leitura do seu testamento. Pai Velho que não dispensa o "seu"
ritual gastronómico em dia de Domingo Gordo.
E são os rapazes e raparigas que cantam os Reis que tem a obrigação da ceia
composta pelo tradicional cozido onde não faltam a orelheira, salpicão de
fumeiro, tracanaz de presunto (e o que lhe davam mais), os chispes (unhas de
porco) e o focinho do reco.
Se lhe acrescentarmos umas boas costelas Barrosãs e um pé descalço, mais
umas chouriças de cabaço, ai temos o cozido do Lindoso em honra do Pai Velho:
duas travessas fumegantes a rescender a sabores de salgadeira, da vezeira e do
quinteiro: a das carnes; outra com batatas, cenoura e couve-galega; o alguidar
tortulho com arroz branco e rodelas de chouriça, paio e salpicão, tudo
acompanhado de um verde tinto a deixar nas malgas vidradas uma velatura de
musselina rósea.
E as grâ - mestras da cozinha do Lindoso a dizerem-me prazenteiras e
sorridentes: bom proveito, que lh'apreste. Cá fora, no terreiro do Castelo as
concertinas e as vozes diziam:
"O Carnaval de Lindoso
É o melhor do concelho
Todos gostamos de ver
O enterro do Pai Velho"
Ass: Gracinda de Amorim
"Lindoso terra bonita
Onde se colhe bom pão
Festejam o Carnaval
Que não acabe a tradição!
Pai Velho não Morras!"
Fotos: https://www.facebook.com/EnterrodoPaiVelho








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