PONTE DE LIMA: CABRAÇÃO É TERRA DE VELHOS PERGAMINHOS
Datas
de produção: 1542 a 1899
A história de Santa Maria de Cabração está associada à do
Mosteiro de "Victorino", criado, segundo o Padre António Carvalho da
Costa, por D. Afonso Henriques. Este Mosteiro terá sido extinto pelo rei D.
Sancho I.
No Memorial feito pelo vigário Rui Fagundes sobre a avaliação
dos benefícios eclesiásticos da comarca de Valença, organizado entre os anos de
1545 e 1549, sendo arcebispo D. Manuel de Sousa, Santa Maria de Cabração foi
avaliada em 30 mil réis.
O Censual de D. Frei Baltasar Limpo, redigido entre 1555 e 1581,
refere que Santa Maria de Cabração esteve anexa perpetuamente ao Mosteiro de
Vitorino das Donas. Diz-se ainda no aludido documento que a capela de Santa
Maria era da apresentação de padroeiros.
Segundo Américo Costa, a antiga freguesia de Nossa Senhora da
Assunção de Cabração foi vigairaria da apresentação do Mosteiro de São Salvador
de Braga, no termo da vila de Ponte de Lima e antiga comarca de Viana.
No século XIX esta igreja paroquial esteve anexa provisoriamente
à de São Julião de Moreira do Lima.
Pertence à Diocese de Viana do Castelo desde 3 de Novembro de
1977.
HISTÓRIA CUSTODIAL E ARQUIVÍSTICA
Esteve na posse da igreja paroquial até à criação do Registo
Civil, em 1911, publicada no Diário do Governo nº 41 de 20/02/1911. Nesta data
as paróquias foram obrigadas, por lei, a entregar os livros de registo de
baptismos, casamentos e óbitos às repartições do Registo Civil. O Decreto-Lei
nº 3286, de 11 de Agosto de 1917, que cria o Arquivo Distrital de Braga,
estipula na alínea i) do artº 1º que nele devem ser incorporados os cartórios
paroquiais do distrito, nos termos do decreto 1.630 de 9 de Junho de 1915. No
entanto, por despacho ministerial, e enquanto não foi instalado o Arquivo
Distrital em Viana do Castelo, já então criado em 1965, aqueles arquivos foram
sendo recolhidos pelo seu congénere bracarense. Finalmente, em 11 de Setembro
de 1985, os livros e documentos dos arquivos paroquiais do distrito entraram,
por transferência de Braga, no Arquivo Distrital de Viana do Castelo.
FONTE IMEDIATA DE AQUISIÇÃO OU TRANSFERÊNCIA
Livros entrados no Arquivo por transferência de Braga, onde se
encontravam provisoriamente, em 11/9/1985 e por incorporações da Conservatória
do Registo Civil de Ponte da Lima de 11/6/1985, 17/3/1992 e 3/12/1998 e da
Conservatória do Registo Civil de Viana do Castelo de 19/5/1988 e 2/2/2000.
Fonte:
Arquivo Distrital de Viana do Castelo
Rezam
os cálculos dos historiadores, o torneio de Valdevez deverá ter ocorrido nos
começos de 1140, após o qual volteou D. Afonso Henriques “pelas
montanhas próximas, caçando ursos e javalis” e, com os seus
ricos-homens e infanções, terá chegado ao “sítio
que hoje se chama Cabração”. Desde então, não há memória de algum
Chefe de Estado – rei ou presidente da República – ter visitado a Freguesia de
Cabração, nem que ao menos fosse para caçar ursos e javalis…
“Após o recontro no Rêgo do Azar, quiz D. Afonso Henriques
voltear pelas montanhas próximas, caçando ursos e javalis. Convidou alguns
poucos ricos-homens e infanções. Quando estavam no sítio que hoje se chama
Cabração, apareceu muito açodado o Capelão das freiras de Vitorino das Donas,
que à frente de moços com cestos pesados andava desde manhã à busca do real
monteador, com um banquete mandado do Mosteiro. Em boa hora vinha a refeição.
Estendeu-se na relva uma toalha de linho e sentados em troncos de carvalho
cortados à pressa, começou o jantar. Alegre ia correndo. D. Nuno Soares por
alcunha o Velho e o postrimeiro para diferença de seu avô, a quem também haviam
chamado o Velho e cujas proezas ainda se recontavam em toda a terra da
Cervaria, começou a trinchar um leitão assado.
- Parece-me que tens mais jeito para matar infiéis, - disse-lhe
o Rei brincando. – Ai Real Senhor, antes eu ficasse morto com os últimos que
matei, que desde essa refrega não passo um dia que me não lembre do momento em
que o bom cavaleiro Gonçalo da Maia exalou o derradeiro suspiro encostado ao
meu peito.
- Quisera eu ouvir da tua boca essa heroica morte do Lidador,
interrompeu o Monarca triste, mas curioso. E o Senhor da Torre do Loivo
obedeceu, com voz pausada e lágrimas nos olhos.
Ia escurecendo o dia e era tão esquisita a coincidência de estar
ali um punhado de homens, senão solenizando um aniversário, festejando uma
vitória, que talvez um pressentimento apertasse o coração dos guerreiros.
Atentos, escutavam silenciosos a narração. De golpe ergueu-se o
Espadeiro e olhou fito para as bandas da Galiza.
- Que examinas D. Egas? – Perguntou o Príncipe. – Vejo além
muito ao longe um turbilhão de pó, que se aproxima. São talvez inimigos que
procuram encontrar-nos dcescuidados.
De facto vagalhões de poeira negra encobriam multidão fosse do
que fosse. O ruído do tropel era cada vez mais distinto.
- Sejamos prestes – gritou o Rei, cingindo o seu enorme espadão.
Todos fizeram o mesmo. – Cavalgar, cavalgar, já não era outra a voz que se
ouvia, enquanto cada um se dirigia para o lugar onde prendera o seu cavalo. O
capelão olhou, escutou e sentou-se começando a comer aqui e além os deliciosos
postres e bebendo aos goles pachorrentos um licor estomacal, resmungando… -
Deixa-los ir que voltam breve. Eu era capaz de apostar todo o mel deste monte,
em como sei que inimigos são aqueles. E mais dizem que é mel igual ao do
Himeto. A historia do Lidador é que lhes esquentou a cabeça.
Pouco depois voltavam os monteadores rindo à gargalhada. –
Cabras são: - disse o rei ao apear-se, e, dirigindo-se ao padre: - bem fizestes
vós que não bulistes. E D. Afonso tomando um púcaro e enchendo-o de vinho num
cangirão, acrescentou.
- Bebi todos, que estais muito quentes e podeis ter um
resfriado, e dizei-me depois se não valeu a pena o engano para nos refrescarmos
agora com este delicioso néctar.
Capelão, quero comemorar o caso de confundir rebanhos de cabras
com mesnada de leonezes e beneficiar o convento para vos honrar a vós que
fostes, não sei se mais perspicaz, se mais valente do que nós debicando mui
sossegadamente em todos os doces.
Vou coutar aqui uma terra, para que as boas monjas possam de vez
em quando apanhar bom ar da montanha e rir-se de nós.
Riscou-se o couto e nessa noite os cavaleiros dormiram na ermida
da Senhora do Azevedo. O dito do Rei “Cabras são” corrompeu-se em Cabração.”
Conde
de Bertiandos, Cabras São, in “Almanaque de Ponte de Lima, 1923



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