PONTE DE LIMA: DR. ALVES DOS SANTOS FOI O PIONEIRO DO ESTUDO DA PSICOLOGIA EM PORTUGAL
Foto
existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, cedida ao autor
O Dr. Alves
dos Santos, um dos mais ilustres filhos de Ponte de Lima, foi o pioneiro do
estudo e investigação da psicologia no nosso país, continuando a sua obra a ser
estudada pelos mais notáveis académicos decorridos mais de oito décadas desde a
data do seu desaparecimento. A obra que publicou em 1923, “Psicologia Experimental e
Pedologia”, é
considerada aliás um marco “na história da psicologia em Portugal pelo seu pioneirismo e
importância histórica”.
Num dos trabalhos publicados na Revista
Portuguesa de Pedagogia a propósito da criação do laboratório
de psicologia experimental da Universidade de Coimbra, J. F. Gomes inclui
alguns dados biográficos que transcrevemos: “Alves
dos Santos nasceu em Cabração, Ponte de Lima, em 14 de Outubro de 1866 e
faleceu em 17 de Janeiro de 1924, com 58 anos incompletos. Doutorou-se na
Faculdade de Teologia de Braga em 1890. Com a extinção da Faculdade de
Teologia, Alves dos Santos é colocado na Faculdade de Letras de Coimbra, sendo
nomeado professor de pedagogia por Decreto de 9 de Dezembro de 1911. (…) De
Agosto até finais de Novembro de 1912 efectua uma visita às Universidades de
Genebra e Paris, tendo adquirido livros e equipamento laboratorial que lhe
permitiram fundar e organizar no regresso a Coimbra o laboratório de psicologia
experimental, tendo o funcionamento deste sido iniciado em meados de Fevereiro
de 1913”. Este foi, pois, o primeiro laboratório de psicologia
experimental instalado em Portugal.
Em 1992, Professor Dr. Amâncio da Costa Pinto, actualmente
professor catedrático a exercer docência na Faculdade de Psicologia e de
Ciências da Educação da Universidade do Porto, publica na revista Psychologica um artigo
científico sob o título “Estudos
de Memória Humana na década de 1920 na Universidade de Coimbra”, no
qual analisa “o modo como a memória humana foi abordada a
nível teórico e a nível experimental”, fazendo incidir a sua
reflexão no capítulo “Mnemometria”
da obra “Psicologia Experimental e Pedologia”
do Dr. Alves dos Santos e também na tese de doutoramento “ O problema da recognição: Estudo psicológico
teórico-experimental”, do Dr. Sílvio de Lima, publicada em
1928. A parte do artigo dedicada ao estudo da obra do Dr. Alves dos Santos
aborda os seguintes temas: A “Noção de
memória”, a “Classificação
das memórias”, “Mecanismos
e operações de memória” e a “Descrição
dos dois estudos experimentais realizados”.
Afirma o articulista que “…este
capítulo e os restantes do livro, além de terem por objectivo promover as
investigações do Laboratório e os trabalhos dos alunos, constituem um excelente
manual de formação dos futuros investigadores em psicologia experimental. Se o
livro não foi usado como tal durante as décadas seguintes, não foi por falta de
mérito e valor pedagógico nele contido”. E acrescenta: “Alves dos Santos apresenta ainda uma concepção
inovadora de memória humana, ao afirmar que é precisamente a memória que torna
“possível e inteligível a unidade e a identidade do eu”. Só muitas décadas mais
tarde, nomeadamente nos anos 70 e 80, é que o estudo da memória humana veio a
ter o protagonismo por ele antecipado. Acrescente-se a finalizar a elaboração
temerosa, porque esboçada em nota de rodapé, mas valiosa e consequente, de uma
classificação das memórias humanas, tema que voltou a interessar os investigadores
nestes últimos 20 anos”.
A título de curiosidade e sem pretender reproduzir integralmente
o artigo referido, transcrevemos uma breve passagem a respeito da “Classificação das memórias” que é
feita: “Alves dos Santos rejeita a noção de que a
memória é uma mera faculdade para reter ideias. A memória enquanto faculdade é
“um erro”, já que não há uma memória, mas “memórias ou um feixe de memórias”, e
estas em regra são muito desiguais, tanto em qualidade, como em quantidade…”. A
causa desta diversidade resulta “da estrutura do órgão, que as elabora, e das
circunstâncias da sua produção”. Por estrutura do órgão Alves dos Santos
refere-se provavelmente à complexidade e plasticidade do cérebro, enquanto que as
circunstâncias de produção teriam a ver com “a riqueza das respectivas
associações”.
Alves dos Santos propõe dois
sistemas de classificação de memórias. O primeiro sistema de memória é
desenvolvido no corpo do texto e classifica a função mnésica em inorgânica,
orgânica e psíquica. É uma classificação proposta na sequência talvez dos estudos
de Rbot.
A memória inorgânica seria uma
expressão da energia físico-química.
A memória orgânica, de ordem
biológica, seria privativa de seres dotados de sistema nervoso. As modificações
neste tipo de memória seriam susceptíveis de persistência, mesmo após ter
desaparecido o estímulo que as desencadeou e de reprodução activa destas
através da evocação e da identificação.
Alves dos Santos não define nem
esclarece o mecanismo destas operações, principalmente as respeitantes à
reprodução das impressões e modificações conservadas. Acrescenta no entanto uma
explicação fisiológica para o seu bom funcionamento ao referir que a conservação
depende da plasticidade do cérebro proporcionada pela nutrição e que a
reprodução seria dependente do estado do aparelho vascular.
(…) Para justificar esta
diversidade de memórias, Alves dos Santos adverte: “Não é de admirar, pois que
“memórias” cada um tem as suas; e, todas juntas, são tantas, como os cabelos da
cabeça”.
Relativamente ao Laboratório de Psicologia Experimental da
Universidade de Coimbra, fundado em 1912 pelo Dr. Alves dos Santos, os seus
aparelhos e outros instrumentos então utilizados encontram-se actualmente à
guarda do actual Laboratório de Psicologia Experimental existente na Faculdade
de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra,
constituindo um núcleo museológico devidamente catalogado e descrito num volume
dedicado ao laboratório e ao seu fundador. De referir ainda que, apesar do
ensino da psicologia ter-se iniciado naquela Universidade em 1911, apenas no
ano lectivo de 1976/1977 teve início o Curso Superior de Psicologia inserida na
Faculdade de Letras para em 1980 ser finalmente criada a Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação.
Não vamos enumerar aqui a sua vasta obra literária e científica
como também não nos alongaremos na sua descrição biográfica porquanto já o
fizemos em edições anteriores da revista Anunciador
das Feiras Novas, bastando para tal os interessados seguirem as
referências bibliográficas do presente artigo. Lembramos apenas, a quantos
estejam porventura interessados em conhecer a sua obra, que podem consultar na
Biblioteca Municipal de Ponte de Lima o seu livro “Elementos
de Filosofia Sciêntífica”, constituindo este o único título
disponível neste local. Contudo, na Biblioteca Nacional, em Lisboa,
encontram-se depositados além daquele, ainda os seguintes livros do Dr. Alves
dos Santos: “Um plano de reorganização do ensino público:
projecto de lei, para apresentar à Câmara dos Senhores Deputados”, “O problema da origem da família e do património
em face da Bíblia e da sociologia”, “Orações
fúnebres”, “Elogio
fúnebre do Conselheiro de Estado, Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro, proferido
nas exéquias… 13 de Novembro de 1907”, “Estatística
geral da circumscripção escolar de Coimbra, relativa ao anno de 1903-1904”
e “O ensino primário em Portugal: nas suas
relações com a história geral da nação”.
A propósito do Doutor António de Pádua, outro médico ilustre que
nasceu no concelho limiano, escrevia Francisco de Magalhães, no Elucidário Regionalista de Ponte de Lima,
o seguinte: “Honrada e, ainda mais, envaidecida sentia-se,
também, Ponte de Lima. É que sucedeu, e no decurso de uma porção de anos, três
filhos seus – desta vila pequenina, sempre, porém, farta de glórias –
pertencerem, simultaneamente, ao corpo docente da Universidade de Coimbra, a
saber: Doutor Alfredo da Rocha Peixoto, da Faculdade de Matemática; Doutor
Augusto Joaquim Alves dos Santos, da Faculdade de Teologia; e Doutor António de
Pádua, da Faculdade de Medicina.
Qual a cidade de província,
populosa mesmo – e intencionalmente saio dos limites duma vila – que se pudesse
exprimir, naquele instante, sob este aspecto, como Ponte de Lima ?”
Não obstante, como disse o cronista, Ponte de Lima ter-se
sentido “honrada e, ainda mais, envaidecida”,
o Dr. Alves dos Santos permaneceu no desconhecimento da generalidade dos seus
conterrâneos até muito recentemente, tendo cabido à revista “Anunciador das Feiras Novas” o
mérito de o ter dado a conhecer e divulgar a sua obra. Ainda assim, uma
sugestão feita à Câmara Municipal de Ponte de Lima e por esta unanimemente
aceite, com vista à realização de uma homenagem por ocasião da passagem dos
setenta e cinco anos sobre a data do seu falecimento, acabaria por cair no
esquecimento em virtude da mudança de vereação entretanto verificada.
Ficámo-nos pela atribuição do seu nome a uma artéria da vila quando foi
necessário escolher novos topónimos para arruamentos entretanto construídos.
Contudo, a memória do Dr. Augusto Joaquim Alves dos Santos
merecia mais porquanto constituiu uma das figuras mais notáveis do concelho de
Ponte de Lima. A sua brilhante carreira de pedagogo, cientista e escritor bem
justificaria a sua escolha para patrono de um estabelecimento de ensino no
concelho de Ponte de Lima, proposta que pode ser apresentada pela Câmara
Municipal ao abrigo do Decreto-Lei nº. 314/97, de 15 de Novembro. Assim exista
vontade e Ponte de Lima sentir-se-á mais “honrada
e, ainda mais, envaidecida”!
Bibliografia:
-
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia. Lisboa.
Rio de Janeiro.
-
MAGALHÃES, Francisco de. Médicos de Ponte de Lima. Elucidário Regionalista de
Ponte de Lima. Livraria Soares Correia. Ponte de Lima. 1950
-
ABREU, M. V. Os primeiros laboratórios de psicologia em Portugal: Contexto e
sentido da sua criação. Jornal de Psicologia nº. 9. 1990;
-
GOMES, J.F.. As origens do laboratório de psicologia experimental da
Universidade de Coimbra. Revista Portuguesa de Pedagogia. XXIV. 1990;
-
RODRIGUES, Manuel Augusto. Memoria Professorvm Vniversitatis Conimbrigensis
1772-1937. Arquivo da Universidade de Coimbra. Coimbra. 1992;
-
PINTO, Amâncio da Costa. Estudos de memória humana na década de 1920 na
Universidade de Coimbra. Psychologica, 1992.
-
GOMES, Carlos. Dr. Alves dos Santos. Um limiano ilustre e desconhecido.
Anunciador das Feiras Novas. Ano X. Ponte de Lima. 1993;
-
GOMES, Carlos. Dr. Alves dos Santos. Ponte de Lima vai prestar-lhe homenagem.
Anunciador das Feiras Novas. Ano XI. Ponte de Lima. 1994;
-
GOMES, Carlos. Dr. Alves dos Santos. Alguns apontamentos biográficos.
Anunciador das Feiras Novas. Ano XVII. Ponte de Lima. 2000;
Até ao aparecimento do BLOGUE DO MINHO, foi a revista “O Anunciador das Feiras Novas” a
primeira e única publicação periódica em Ponte de Lima a dar a conhecer a
figura do ilustre limiano que foi o Dr. Augusto Joaquim Alves dos Santos. As
imagens que se reproduzem correspondem à edição de 1993 onde foi publicado o
primeiro de vários artigos.







Comentários
Enviar um comentário