PONTE DE LIMA: HISTÓRIAS DE MEDO VIVIDAS NAS ENCRUZILHADAS DO TEMPO
A revista “Notícias Magazine”, Suplemento do
Jornal de Notícias, publicou no seu nº. 405, de 27 de Fevereiro de 2000, uma
extensa reportagem dedicada a “Histórias do Sobrenatural”, fazendo referência a
diversos casos ocorridos um pouco de norte a sul do país. Entre esses casos,
conta-se uma visita à Freguesia da Correlhã, em Ponte de Lima, onde entrevistou
o sr. Artur Lopes, pessoa bastante conhecida no meio local e ligada ao folclore
da região. Decorridos mais de onze anos, a reportagem mantém o seu interesse e
oportunidade no dia que hoje se celebra, razão pela qual a seguir se reproduz a
parte respeitante a Ponte de Lima.
“Gamela dos medos
A reportagem muda-se para Ponte de Lima. O senhor Artur Lopes,
editor-livreiro naquela cidade, conduz-nos a mato Pequeno, freguesia da
Correlhã. “Era dali. Grunhia. Queria que a seguissem. Depois metia na direcção
da Veiga. A cor atirava para o branco… Dizia-se que era o Diabo”. O senhor
Lopes explica in situa aparição da coisa: “Porca gorda, assim como surgia, se
evaporava no ar. Ela e os bocadinhos que a acompanhavam sempre…”
Gamela de medos, a Corrilhã! O senhor Martins, coveiro, faleceu há
uns anos, no lugar de Silveiro. Morreu, mas aqui ninguém lhe esquece o dom
perturbador; ela via a procissão dos defuntos!
Conforme o próprio contava, a visão era repentina e nítida: via o
caixão, o padre, as velas. Distinguia, um a um, todos os acompanhantes. E
ficava a saber quem na freguesia seria o próximo a morrer. O eleito era sempre
a primeira pessoa que seguisse atrás do caixão. O senhor Martins nunca lhe
revelava o nome. Só dizia: “A seguir é de tal sítio…” E acertava!
Outro caso impressionou e manteve em religioso respeito, as gentes
da Correlhã. Em casa de um abastado lavrador, pouco depois de este ter
falecido, aconteceram coisas do outro mundo: choviam pedras no telhado, a
empregada levava bofetadas no estábulo, quando ía ordenhar a vaca , a roupa,
nos coradouros e nos gavetões, aparecia com cortes em forma de cruz.
Não se falava noutra coisa. Segundo o povo, era uma Alma
desencaminhada a chamar a atenção: a Alma do agricultor, quase de certeza. Boa
pessoa em vida, disso ninguém duvidava. Mas, sabe-se lá, podia ter deixado
promessa por cumprir, dizia-se. E toda a gente reclamava a opinião e os
serviços de padre Dalmo. Este é que não se mostrava disponível.
Quando se soube que a sopa espumava na panela barrelas de sabão,
como nas celhas, o padre finalmente decidiu-se. Foi assistir à feitura do
caldo. Manteve-se sempre na cozinha, inspeccionou cada ingrediente. Espiolhou
as batatas, os legumes, testou o sal e a água, cheirou a panela. Tudo normal.
Caldo feito, quis o padre ser o primeiro a provar. Mal pôs a colher
à boca levou bofetada. Caiu por terra. Aturdido, aconselhou a intervenção de um
padre exorcista…
Para melhor apurarmos estas ocorrências, e, eventualmente,
desfazermos equívocos, chegámos à fala com dois descendentes da casa. Um
recusou falar. O outro sorriu, coçou a cabeça… “Não me lembro de nada, era
miúdo. Quem contava isto tudo era a minha mãe. Infelizmente, faleceu a semana
passada”.
O falecido coveiro, senhor
Martins, tinha um dom perturbador


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