PORQUE MIGUEL TORGA NÃO GOSTAVA DO MINHO?
Dizia o insigne escritor Miguel
Torga que “…no Minho tudo é verde, o caldo é verde, o vinho é verde…” – como transmontano que era, dos pés à cabeça, desconhecia o
escritor que o Minho também possuía outras cores como o branco da neve que a
tempos cobre as serranias de Castro Laboreiro!
"Desanimado, meti para
Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva,
menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal.
Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.
A relva dera finalmente lugar à
terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio,
curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o
panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de
ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha
muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do
baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.
Bonita, esbofeteada do frio, a
cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a
casa de inverno para quandochegasse a hora da transumância e toda a família
—pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha
para os cortelhos do vale, abrigados das neves.
– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?
Falava uma língua estranha,
alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de
Barcelos.
– É legitimo este cão?
– É cadela.
Negro, mal encarado, o bicho,
olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava
ainda...
– A Peneda?
A moça apontou a vara. E, como ao
gesto de um prestidigitador, foram- se desvendando a meus olhos mistérios
sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o
Suajo e o Lindoso.Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas
e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora
fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo,
acolhedor e fraterno.
Quando dei conta, estava no topo
da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas
lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A
zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam
a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa
encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem
rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da
freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos
contrabandistas e das urzes. As pernas de granito dum velho fojo abriam-se num
grande V, como as dum gigante no sono da sesta. E saltou-me vivo à lembrança o
instantâneo de Joaquim Vicente Araújo, quando no seu Diário Filosófico da
Viagem ao Gerês fala duma batida aos lobos, que presenciou, e em que toda a
população masculina do lugar colaborara: «Era cousa de ver a má catadura duns e
a presteza de todos, que descalços, outros de socos, armados desciam pelas fragas».
Sem a coragem dos avós, agora os habitantes comunitârios de Vilarinho da Furna
atacavam as alcateias a estricnina e caçavam corças furtivamente. Mas mesmo
assim nao faziam má figura ao lado do rio Homem, que, talvez a querer
justificar um nome que a etimologia lhe nega, parecia um lavrador numa leira de
pedras, tenaz em todo o percurso, e sempre límpido, a espelhar o céu. Na margem
de lá, o Pé do Cabril, solene, esperava a abraço duma ascensão. E coma a
desafiar aquela pétrea majestade, arrogante e lustroso, o toira do lugar roncou
de uma chã. Símbolo tangível da virilidade e da fecundação, nenhum outro deus,
ali, tinha forças para o destronar. Plenitude encarnada do instinto natural de
preservação da seiva capaz de se multiplicar em cada acto de amor, era ele o
pólo de todos os cultos cuItos e desvelos. Rei já no tempo das casarotas
megalíticas que me rodeavam, continuava a sê-lo ainda no presente por exigência
e graça da própria vida.
Atravessada a ponte em corcova,
galgados os muros ciclópicos da Calcedónia, numa erudiçao feita à custa dos
pés, e guiado pelos miliários imperiais, segui a geira romana até chegar à
Portela do Homem, onde as legiões invasoras pareciam aquarteladas. Mas foi a
guarda fiscal, vigilante, que me recebeu.
A uma sombra tutelar, pouco
depois, num minuto de descanso, a Historia recente da Pátria avivou-se.
– Uma das incursoes monarquicas
foi por aqui...
– Tentaram... Tentaram...
– Este Minho! Este Minho!...
– Tem uma costela talassa, tem...
Mas recusei-me a reintegrar, por
simples razões partidárias, aquelas viris penedias no planisfério verdurengo de
onde a própria natureza as libertara. Tranquei as portas da memória e, pela
margem do rio, subi aos Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de
volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos e carvalhos
centenários acompanharam-me quase todo o caminho. Só desistiram quando me
aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raizes, tenta levantar voo.
Agora, sim! Agora podia, em
perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a
portuguesa Galiza percorrida. Pano de fundo, o mar de terras baixas era apenas
um cenário esfumado; à boca do palco reflectiam-se nas várias albufeiras do Cávado
a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador
emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia
também dentro de mim. Embora através da magia agreste dos relevos, talvez por
contraste, impunha-se-me com outra significação a abundância dos canastros, o
optimismo dos semeadores e a própria embriaguez que anestesiava cada acto, no
fundo necessária à saúde dos corpos individuais e colectivos. Integrava o
alegrete perpétuo no meu caleidoscópio telúrico. Bem vistas as coisas, se ele
não existisse faria falta no arranjo final do ramalhete corográfico português.
Em acção de graças por esta
conclusão pacificadora, rezei orações pagãs no Altar de Cabrões, antes de subir
à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria a experimentar como se tremem maleitas em
pleno Agosto.
Estava exausto, mas o corpo
recusava-se a parar. Pitões acenava-me lá longe, de tectos colmados e de
chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria
repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os
ossos nos tomentos de Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer.
Quem me garantia a mim que, mesmo alcandorado nos carrapitos doirados da
Borrajeira, não voltaria a ter pela noite fora um pesadelo verde?"

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