PORTUGAL É A PÁTRIA DOS GALEGOS
["Fui
gerado em Lisboa, mas os meus pais, como bons galegos, foram-me desovar lá.
Subi o rio Minho como a lampreia e fui nascer quase em frente a Monção, numa
aldeola que é As Neves. E depois vim para cá, há 65 anos e... nove meses."
José António Castro, sentado à mesa no final de um almoço bem regado, com três
amigos de raízes comuns: Amâncio Dominguez, Alfonso Mateo e Manolo Bello.
Estão
todos na casa dos 60 e a vida corre-lhes bem. O almoço-algazarra, em que contam
as novidades e recordam as cumplicidades, é um privilégio de quem pode andar
mais devagar.
José
Castro é proprietário da Funerária Gil, a mais antiga do país, fundada em 1873.
Fez toda a vida em Lisboa, nos bairros de Alfama e do Castelo e, ao contrário
dos amigos, andou na escola portuguesa onde... "era o espanhol". Não
tinha sotaque e só o Suaréz do nome denunciava a viagem à Galiza que os pais
fizeram a poucos dias do seu nascimento.
"Galego
sempre me senti, lisboeta também. Nunca me senti estrangeiro aqui."
Trabalhou 25 anos, em contabilidade até à morte da avó, que era quem geria a
funerária. Depois tomou conta do negócio. "Tinha a experiência de toda a
vida ali na agência, sabia como aquilo funcionava. É como a série da
televisão." Ri-se.
Os
amigos não perdem a oportunidade para voltar à velha brincadeira. Dizem que a
Gil fez o funeral de todos os galegos de Lisboa, e José Castro não diz que não:
"Os galegos procuravam a agência, claro, era a única que havia. Agora há a
Servilusa." O filho anda pela agência, mas José não tem a certeza de que
este seja o caminho dele. "Se ele não quiser fecha-se a porta, e
pronto."
Do
almoço restam os copos quase vazios, chegam os cafés e os digestivos. Parecem
estar em casa. E pelo menos um deles é como se estivesse. Amâncio Dominguez é o
sócio do Hotel Santa Justa, na Baixa de Lisboa, onde se reúnem todos. Começou
por trabalhar numa carvoaria e na tasca do pai no Cais do Sodré. Veio com 7
anos, em 1960, para Lisboa. "Vivia no Cais do Sodré, a família tinha ali
as tascas todas e as carvoarias. Agora já está tudo alterado, morreram uns,
outros reformaram-se.
Os
filhos já cá nasceram, estudaram e já têm outra atividade." Por isso, a
tradicional ligação dos galegos à restauração está-se a perder. "Já não
vêm os galegos com vontade de trabalhar que vinham antes, antigamente vinham
por necessidade e agarravam-se aos negócios que ninguém queria. Até vendiam
água!", diz Amâncio. "Hoje, por exemplo, temos aqui a diretora [do
hotel] que é galega, é gente que vem mais preparada e agarra outras profissões.
Paula
Ferro acede e junta-se à conversa. Veio de Padrón, a terra dos famosos
pimentos, há quatro anos. Formara-se no Centro Superior de Hotelaria da Galiza
e calhou saber que o hotel de Amâncio precisava de uma diretora. O marido já cá
estava e Paula veio também. Tem 34 anos e o primeiro filho, de 9 meses, nasceu
em Lisboa. "Nós não temos cá família, não temos pais, não temos primos.
Tenho saudades da família, mas nunca me senti fora de casa como podemos
sentir-nos, se calhar, noutras cidades de Espanha, que são mais fechadas. O
português e as pessoas de Lisboa são muito acolhedoras."
Paula
é o que Álvaro Moreira Muiños chama de "galegos de pouca duração". O
presidente da Xuventude da Galicia - Centro Galego de Lisboa considera que
"a Galiza teve três momentos de emigração: entre o século XVII e
princípios do XX, que eram galegos com profissões nómadas que vinham porque lá
não tinham meios de subsistência. Depois houve a emigração do tempo da guerra
[civil] e hoje há a emigração em comissão, por exemplo, os funcionários do El
Corte Inglés, dos bancos ou das empresas. São galegos de pouca duração".
Muiños
lembra "os galegos iniciais que inundaram isto tudo de tascas e
restaurantes". E os amoladores, que vinham de Ourense. Como o pai do
senhor Garcia, que está a amolar uma faca de pastelaria enquanto no rádio toca
o Purple Rain. Não chovia naquela manhã, ou o número 173C da Av. Almirante Reis
seria um corrupio de gente com emergências relacionadas com chapéus de chuva,
que também ali se reparam.
O
pai de António Garcia abriu a Casa Garcia em 1943, quando o negócio do carrinho
de madeira do amolador com que calcorreava a cidade permitiu. Foi o sustento da
família, até agora. "É uma coisa que não dá para enriquecer. Para
trabalhar e viver desafogadamente tudo bem, agora para enriquecer não dá.
Continuei aqui porque comecei a gostar disto e a coisa correu bem. Para quem
não gosta é difícil." O caso do seu filho. Não se adaptou. Quando António,
de 72 anos, parar de dar uso à roda de esmeril, a Casa Garcia fecha.
Tal
como os amigos à mesa de almoço, também os Garcia eram habitués na Xuventude da
Galicia. Atualmente, a associação habita um palacete cor-de-rosa ao lado do
Jardim do Torel. Na juventude destes galegos era na Rua da Madalena que se
faziam as "comezainas" e as atividades. "Comemorávamos
tudo", diz Muiños, as festas portuguesas, as espanholas e as galegas.
Agora
a Xuventude da Galicia tem três a quatro atividades por mês e 560 sócios, dos
quais 370 são efetivos (têm alguma ligação familiar à Galiza) e os restantes
são simpatizantes (sem ligação à Galiza são, na maioria, os alunos das
atividades).
Pagam
uma quota de cinco euros por mês. "Não dá para nada", desabafa o
presidente. Em 1988 receberam o palacete de um outro galego com jeito para o
negócio, Manuel Cordo Boullosa. Começou como aguadeiro e carvoeiro e acabou
dono de uma petrolífera, a Sonap. Doou a casa para a associação promover o
intercâmbio entre a cultura galega e a cultura portuguesa. "Foi assim que
nasceu este palacete e temos de o aguentar com dificuldade. É nosso enquanto a
Xuventude da Galicia cumprir os estatutos", diz Muiños.
Nos
últimos anos, a associação - declarada de utilidade pública em 1980 - perdeu
vida. Os anos 1990, em que tinha 900 sócios, já lá vão. "O decréscimo
deve-se às pessoas que se reformaram e regressaram à Galiza, outros morreram,
os herdeiros que vinham cá e deixaram de vir." A vida agora é diferente,
mudaram as comunicações, se antes demoravam 12 horas a chegar à Galiza, agora
vão lá de fim de semana e já não se procuram tanto uns aos outros.
Apesar
disso, o Muiños não acredita que a instituição esteja em risco, até porque tem
muitas atividades dirigidas à população. Mostra-nos a aula de guitarra, depois
a de gaita-de-foles, mais tarde a de SEVILHANAS.
Na
Baixa, os quatro galegos vão contando histórias que, irremediavelmente, passam
pelo centro galego. "É a grande mútua mundial", onde há sempre apoio
para quando é preciso. É Manolo Bello quem traz o tema da solidariedade para a
conversa.
O
jornalista e produtor acabava de chegar ao fim da sua atribulada história de
vida, resumindo esta condição de não ser estrangeiro na cidade que escolheu
para viver. A face mais visível da sua carreira aconteceu na SIC, como
produtor. Agora está reformado. Demorou dois anos a perceber que é dono do seu
tempo e que não vai continuar a acordar com os números das audiências. Dizia
ele: "O galego na diáspora é solidário, o galego na Galiza é um malandro,
há muita inveja, muita trica, são uns bufos. Na diáspora são amigos."
Alfonso
Mateo não descansa enquanto não conta a sua história. "Um dia estávamos
aqui a almoçar e roubaram-me um saco de bacalhau. Foi num dia de Santo António,
tinha comprado para levar de prenda. Quando me apercebi, este levantou-se, não
disse nada a ninguém, foi comprar e dividiram entre todos." Aponta para
Amâncio, caladinho do outro lado da mesa. E dias depois, diz José, ele
[Alfonso] apareceu-nos com um cabrito para cada um e até trouxe bacalhau. E
assim continua a acontecer. "Esta é a essência do galego fora da
Galiza", diz, orgulhoso, Alfonso.]
Fonte: Portugaliza
112

Comentários
Enviar um comentário