QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS MINHOTOS RADICADOS NA REGIÃO DE LISBOA?
"A segunda metade do século XIX caracterizou-se
por uma época de grande desenvolvimento económico, traduzido nomeadamente com a
introdução de melhoramentos técnicos nas fábricas e no desenvolvimento dos
meios de transporte e comunicações. Foi o período da Regeneração iniciado com o
ministério de Fontes Pereira de Melo.
Em 1856 era inaugurado o primeiro troço de
caminho-de-ferro entre Lisboa e o Carregado e, oito anos depois, a linha do
Norte atingia Vila Nova de Gaia. Em 1882 era concluída a linha do Minho até
Valença. Dez anos mais tarde, as locomotivas a vapor chegavam às mais diversas
regiões do país como a Beira Alta, o Algarve e o nordeste transmontano.
A prosperidade que então se verificou associada a
recentes conquistas nos domínios da saúde e da higiene pública levaram a um
súbito aumento da população um pouco por todo o país. Contudo, é a partir de
1860 que se acentua de forma assinalável o êxodo dos campos para a cidade. A
importação de cereais provenientes dos Estados Unidos provoca o recuo da
área cultivada nas grandes explorações alentejanas e diminui o trabalho
sazonal nas Beiras. O oídio e a filoxera dizimam a vinha do Alto Douro e provocam
a migração maciça dos trabalhadores da região. A quebra das exportações de gado
bovino a partir de 1883 agravou as condições de sobrevivência no Minho e Douro
Litoral.
O comboio fomentou a mobilidade das populações. Os
movimentos migratórios internos e externos intensificaram-se. Em consequência
do desenvolvimento industrial, assiste-se a um fluir contínuo de gente
proveniente das zonas rurais para os centros urbanos, principalmente a capital,
na busca de emprego e de uma melhoria de condições de vida. Lisboa e o Brasil
constituíram-se como os principais pontos de destino escolhidos por aqueles que
entretanto decidiram abandonar as suas terras de origem. Em Lisboa, a população
duplicou em menos de cinquenta anos, passando de 210 mil habitantes em 1860
para quase 450 mil em 1911.
Do Minho vieram os pedreiros, carpinteiros e
estucadores de Caminha e Viana do Castelo, os padeiros de Arcos de Valdevez e
Ponte da Barca, os marujos, ervanários e tasqueiros de Monção, os taberneiros
de Vila Nova de Cerveira, Valença, Paredes de Coura e Ponte de Lima que vieram
a tornar-se conceituados comerciantes do ramo hoteleiro. Estes últimos foram
antes descarregadores de carvão e lenha em Alcântara e Poço do Bispo,
taberneiros e carvoeiros. Eram eles que faziam as "bolas" de
carvão e cisco para alimentar os fogareiros. Depois, à medida que os seus
vizinhos galegos se foram retirando, tomaram as tabernas e "casas de
pasto" e foram-nas transformando nos modernos restaurantes e
"snack-bares" que existem por toda a cidade. À excepção de alguns
concelhos mais interiores como Terras de Bouro e Cabeceiras de Basto cujos
naturais se empregaram preferencialmente na hotelaria e na construção civil, o
êxodo das populações fez-se menos sentir no Distrito de Braga em virtude da
criação naquela região de numerosas indústrias que possibilitaram a
existência de postos de trabalho.
Para os bairros lisboetas de Alfama e Madragoa, este
então designado por "Mocambo", vieram os de Ovar, Ílhavo,
Murtosa e Pardilhó. Eles dedicaram-se à faina do mar enquanto elas vendiam o
peixe ao mesmo tempo que enchiam a cidade com os seus pregões característicos.
Tornaram-se conhecidas por "varinas" as peixeiras ovarinas que vieram
para Lisboa. Esta gente formou ainda "colónias" em Almada, Trafaria e
Costa da Caparica.
A limpeza urbana era feita pelos naturais do concelho
de Almeida, trazidos para a capital por um seu conterrâneo que foi encarregado
dos respectivos serviços camarários. Em virtude deste facto, foram os
cantoneiros da capital durante muito tempo alcunhados por
"almeidas". Para as vacarias que então existiam em Lisboa e nos
seus arredores vieram os de Arganil, os quais depois se fizeram leiteiros e são
actualmente muitos dos pasteleiros que existem na cidade. Eram eles que vendiam
o leite transportando-o em bilhas de zinco enquanto os seus vizinhos padeiros
do concelho de Tábua deixavam o pão às suas clientes, em sacas de pano que
ficavam penduradas nas maçanetas das portas.
A construção civil ocupou as gentes de Alvaiázere,
Ourém e, sobretudo de Tomar, devendo-se a estes últimos a construção das
chamadas "avenidas novas". Não é alheio a este facto a localização da
Casa do Concelho de Tomar. Durante muito tempo foram os naturais de Tomar
alcunhados por "patos-bravos".
De um modo geral, os transmontanos empregaram-se na
construção civil ou então ingressaram nas forças de segurança. No comércio de
carnes encontramos bastantes naturais da região do Barroso. Invariavelmente,
fizeram os seus estudos em seminários todos os transmontanos que em Lisboa têm
conseguido posições de relevo.
Os algarvios fixaram-se principalmente na margem sul
do rio Tejo, empregando-se na indústria corticeira e conserveira ou então no
tráfego fluvial e nos trabalhos portuários. Os alentejanos por seu turno, um
tanto "pau-para-toda-a-obra", dispersaram-se pelos mais
variados ofícios, distribuindo-se preferencialmente pelas zonas da periferia,
com especial incidência nos concelhos do Distrito de Setúbal.
De uma maneira geral, todas estas comunidades têm
contribuído para o crescimento de Lisboa, fazendo da capital um autêntico
mosaico formado por gentes de diversas proveniências, mas que se encontram
unidas pelos laços que fazem de todos nós um único povo".
- GOMES, Carlos. Regionalismo em Portugal. Casa do
Concelho de Ponte de Lima. Lisboa. 1996

Comentários
Enviar um comentário