GALIZA E PORTUGAL: UM SÓ POVO E UMA SÓ NAÇÃO!
Rosalía de Castro, figura cimeira das Letras Galegas
Na realidade e para além dos portugueses, a Península Ibérica é habitada por gentes de culturas e idiomas tão distintos como os vascos, os catalães, os asturianos e finalmente, os galegos e portugueses que possuem uma língua e uma identidade cultural comum, apenas separados em consequência das vicissitudes da História. A Espanha, afinal de contas, não representa mais do que uma realidade supranacional, cada vez mais ameaçada pelas aspirações independentistas dos povos que a integram.
Com as suas quatro províncias - Corunha, Lugo, Ourense e
Pontevedra - e ainda alguns concelhos integrados na vizinha Astúrias, a Galiza
constitui com Portugal a mesma unidade geográfica, cultural e linguística, o
que as tornam numa única nação, embora ainda por concretizar a sua unidade
política. Entre ambas existe uma homogeneidade que vai desde a cultura
megalítica e da tradição céltica à vetusta Gallaécia e ao conventus
bracarensis, passando pelo reino suevo, a lírica galaico-portuguesa, o condado
portucalense e as sucessivas alianças com os reis portugueses, as raízes
étnicas e, sobretudo, o idioma que nos é comum - a língua portuguesa. Ramon
Otero Pedrayo, considerado um dos maiores escritores do reintegracionismo
galego, afirmou um dia na sua qualidade de deputado do parlamento espanhol que
"a Galiza, tanto etnográfica como geograficamente e desde o aspeto
linguístico, é um prolongamento de Portugal; ou Portugal um prolongamento da
Galiza, tanto faz". Teixeira de Pascoaes foi ainda mais longe quando disse
que "...a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas do leão de
Castela". Não nos esqueçamos que foi precisamente na altura em que as naus
portuguesas partiam à descoberta do mundo que a Galiza viveu a sua maior
repressão, tendo-lhe inclusivamente sido negada o uso da língua
galaico-portuguesa em toda a sua vida social, incluindo na liturgia,
naturalmente pelo receio de Castela em perder o seu domínio e poder assistir à
sua aproximação a Portugal.
No que respeita à sua caracterização geográfica e parafraseando
o historiador Oliveira Martins, "A Galiza d'Aquém e d'além Minho"
possui a mesma morfologia, o que naturalmente determinou uma espiritualidade e
modos de vida social diferenciados em relação ao resto da Península, bem assim
como uma diferenciação linguística evidente. Desse modo, a faixa atlântica e a
meseta ibérica deram lugar a duas civilizações diferentes, dando a primeira
origem ao galaico-português de onde derivou o português moderno e a segunda ao
leonês de onde proveio o castelhano, atualmente designado por
"espanhol" por ter sido imposta como língua oficial de Espanha, mas
consignado na constituição espanhola como "castelhano". Não foi
naturalmente por acaso que Luís Vaz de Camões, justamente considerado o nosso
maior poeta possuía as suas raízes na Galiza. Também não é sem sentido que
também o poeta Fernando Pessoa que defendeu abertamente a "anexação da
Galiza", afirmou que "A minha
Pátria é a Língua Portuguesa".
De igual modo, também do ponto de vista étnico as raízes são
comuns a todo o território que compreende a Galiza e o nosso país, com as
naturais variantes regionais que criam os seus particularismos, obviamente mais
próximas do Minho, do Douro Litoral e em parte de Trás-os-Montes do que em
relação ao Alentejo e ao Algarve, mas infinitamente mais distanciados
relativamente a Castela e outras regiões de Espanha.
No seu livro "A Galiza, o galego e Portugal", Manuel
Rodrigues Lapa afirma que "Portugal não pára nas margens do Minho:
estende-se naturalmente, nos domínios da língua e da cultura, até às costas do
Cantábrico. O mesmo se pode dizer da Galiza: que não acaba no Minho, mas se
prolonga, suavemente, até às margens do Mondego". Torna-se, pois,
incompreensível que continuemos a tratar o folclore e a etnografia galega como
se de "espanhola" se tratasse, conferindo-lhe estatuto de representação
estrangeira em festivais de folclore que se pretendem de âmbito internacional,
quando na realidade deveria constituir uma participação assídua nos denominados
festivais nacionais. Mais ainda, vai sendo tempo das estruturas representativas
do folclore português e galego se entenderem, contribuindo para um melhor
conhecimento mútuo e uma maior aproximação entre as gentes irmãs da Galiza e de
Portugal. O mesmo princípio aliás, deve ser seguido pelos nossos compatriotas
radicados no estrangeiro, nomeadamente nos países da América do Sul onde as
comunidades portuguesas e galegas possuem uma considerável representatividade
numérica. Uma aproximação e um entendimento que passa inclusivamente pelo
cyberespaço e para a qual a comunidade folclórica na internet pode e deve
prestar um inestimável contributo.
Afirmou o escritor galego Vilar Ponte na revista literária
"A Nossa Terra" que "os galegos que não amarem Portugal tão
pouco amarão a Galiza". Amemos, pois, também nós, portugueses, como um
pedaço do nosso sagrado solo pátrio, essa ridente terra que se exprime na
Língua de Camões – a Galiza!


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