UMA IMAGEM DA NAÇÃO – TRAJE À VIANESA
A Câmara Municipal de
Viana do Castelo editou em 2009 o livro “Um Traje
da Nação. Traje à Vianesa”, da autoria de António Medeiros,
Benjamim Pereira e João Alpuim Botelho. A cerimónia pública de lançamento teve
lugar nas instalações recentemente renovadas do Museu do Traje, a assinalar o
Dia dos Museus e integrado nas comemorações dos 750 anos da atribuição do Foral
a Viana do Castelo por D. Afonso III.
Pela sua extraordinária beleza e graciosidade dos
seus bordados, por tudo que ele representa em termos de criatividade artística
e o trabalho que lhe está subjacente, não apenas na sua confeção como ainda nos
processos de cultivo, o “traje à
vianesa” constitui uma das maiores preciosidades da nossa cultura
tradicional e, seguramente, o traje mais emblemático de todos quantos nos
identificam como povo.
Considerado o mais belo traje tradicional do nosso
país, o “traje à vianesa” transmite a
alegria e a vivacidade das nossas gentes, a habilidade artística da mulher
minhota, o seu apego à família e às lides domésticas. Através do traje podemos
traçar o seu perfil psicológico, estudar os usos e costumes, analisar o
contexto social, económico e histórico em que se originou, compreender os
comportamentos sociais, os processos agrícolas, enfim, reconstituir a vida
social de um povo em todas as suas vertentes.
As moças cuidam da confeção do seu traje como o mesmo
desvelo e talento que o ourives emprega na criação da filigrana ou o poeta no
encadeamento dos seus versos. Vários foram os escritores que lhe prestaram a
maior atenção e dedicaram o seu estudo, como sucedeu com Cláudio Basto cujo
livro, “Traje à Vianesa”, ainda constitui
uma obra de referência no domínio da etnografia. E, quando o envergam, a mulher
minhota revela uma atitude elegante e digna que faz realçar ainda mais a sua
beleza natural, salientando discretamente as suas formas graciosas e deslumbrando
pelo brilho e o esplendor dos seus adornos a sua figura esbelta.
Disputam os folcloristas a origem do “traje à vianesa”, procuram saber
onde o mesmo era utilizado e as formas como se apresentava, vasculham em velhas
arcas carcomidas alguma peça de vestuário esquecida para questionarem a sua
antiguidade, questionam se o mesmo levava mais linho ou estopa, qual o
comprimento original da saia e como deveria aparecer a algibeira sob o avental.
São preocupações naturalmente compreensíveis e até justificáveis do ponto de
vista etnográfico, não obstante por vezes se confundirem com uma espécie de
bairrismo estéril. Porém, apraz-nos registar o enorme interesse que rodeia o
“traje à vianesa”, não nos admirando, pois, a disputa que o mesmo suscita:
Afinal de contas, quando se trata de defendermos aquilo que é realmente nosso e
nos identifica, somos todos minhotos – somos todos vianenses!
Como é evidente, à semelhança do que sucede com todas
as coisas, também o “traje à vianesa” se submete às
influências das épocas e respetivas modas, registando também os efeitos
perversos do uso que lhe é dado, para além da sua primitiva finalidade que
consistia simplesmente num vestuário para ser utilizado em dia de festa. Numa
determinada época, as exigências do turismo encolheram as saias e provocaram
outros estragos que ainda são visíveis no nosso folclore. Enfim, a passagem do
tempo e as mudanças sociais causam inevitavelmente o seu desgaste nos objetos e
nas mentalidades.
Na realidade, tal como disse Cláudio Basto, “na província do Minho não há, para as mulheres,
como para ninguém, um só vestuário regional típico – e nem sequer o há em Viana
do Castelo”. O traje à
lavradeira possui tantas variantes quantas as aldeias e a
criatividade das suas gentes na confeção do seu próprio vestuário e, sobretudo,
neste traje que apenas era usado em dias de festa. Sucede que, a sua origem
remonta a um tempo em que a indústria então emergente ainda não conseguira
impor a padronização das formas, a uniformização dos gostos e a produção da
roupa “pronto-a-vestir”. Nem os modestos
recursos das nossas gentes permitiam adquirir peças de fábrica, pelo que tinham
de semear o linho e tecê-lo nos teares caseiros, agora arrumados ao canto da
casa, em muitas aldeias da nossa região. Aliás, conforme se comprova através dos
assentos paroquiais de batismo, eram elevados o número de tecedeiras então
existentes, profissão que acabaria por praticamente desaparecer.
Mas o “traje à
vianesa” não se deteve na nossa região. Desde há muito tempo que
ultrapassou os seus limites naturais, galgou fronteiras e atravessou mares. Ele
surge nas mais variadas formas de publicidade, desde sempre foi o traje
preferido das crianças no período carnavalesco e em épocas festivas, desfila
nas ruas de Nova Jersey por ocasião das celebrações do Dia de Portugal
realizadas pela comunidade portuguesa e é envergado por goeses e malaios que,
através de ranchos folclóricos, insistem em preservar as suas raízes
portuguesas. Em Lisboa, quando as marchas populares desceram pela primeira vez
a avenida da Liberdade, o “traje à
vianesa” foi o escolhido pela marcha do bairro de Campo de Ourique,
sintomaticamente aquele que viria a vencer o concurso. E, ainda há cerca de uma
dúzia de anos, aquele bairro lisboeta viria a repetir a escolha do traje, numa
evocação da migração minhota que teve aquela cidade como local de destino.
Também, no Museu do Homem, em Paris, é o “traje à
vianesa” que figura em destaque no expositor dedicado a Portugal,
qual ex-líbris a identificar o
nosso país.
Não discuto se o “traje à
vianesa” é de Viana ou Ponte de Lima, de Valença ou de Caminha, das
Argas ou da Ribeira Lima. Ou ainda, se é mais gracioso em Carreço ou na
Meadela, Afife ou Areosa, em Perre ou Santa Marta de Portuzelo. O traje de
lavradeira, vulgo “traje à vianesa”, é património
nacional e ex-líbris de Portugal!


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