A MULHER DE VIANA DO CASTELO – FOTOS DE SÉRGIO MOREIRA & SÍLVIA MOREIRA
A
aldeã do distrito de Viana é, por via de regra, tecedeira. É preciso não se
confundir o que no Minho se chama tecedeira com
o que geralmente se entende por teceloa.
A tecedeira de Viana não se emprega numa fábrica nem tem propriamente uma
oficina. Sabe simplesmente tecer como a menina de Lisboa sabe fazer crochet; e junto da janela
engrinaldada por um pé de videira o seu pequenino tear caseiro, como o da casta
Penépole, tem o aspecto decorativo de um puro atributo familiar, como um
cavalete de pintura ou um órgão de pedais no recanto de um salão. A tecedeira
trabalha mais para si do que para os outros nesse velho tear herdado e
transmitido de geração em geração, e não tece servilmente e automaticamente,
como nas fábricas, sobre um padrão imposto pelo mestre da oficina, mas
livremente, como artista, ao solto capricho da sua fantasia e do seu gosto,
combinando as cores segundo os retalhos da lã de que dispõe, contrastando os
tons e variando os desenhos ao seu arbítrio. Tecer em tais condições é educar a
vista e o gosto para a selecção das formas num exercício infinitamente mais
útil que o de todas as prendas de mãos com que nos colégios se atrofia a
inteligência e se perverte a imaginação das meninas de estimação,
ensinando-lhes ao mesmo tempo como se abastarda o trabalho e como se desonra a
arte.
(…) O marido minhoto, por mais boçal e mais grosseiro que seja,
tem pela mulher assim produtiva um respeito de subalterno para superior, e não
a explora tão rudemente aqui como em outras regiões onde a fêmea do campónio se
embrutece de espírito e proporcionalmente se desforma de corpo acompanhando o
homem na lavra, na sacha e na escava, acarretando o estrume, rachando a lenha,
matando o porco, pegando à soga dos bois ou à rabiça do arado, e fazendo zoar o
mangual nas eiras, sob o sol a pino, à malha ciclópica da espiga zaburra.
- Ramalho Ortigão, in As Farpas


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