A PESCA EM VILA PRAIA DE ÂNCORA NA OBRA DO ESCRITOR RAUL BRANDÃO
O escritor
Raul Brandão descendia de pescadores, razão pela qual a vida árdua e arriscada
das gentes do mar esteve sempre presente em toda a sua obra. Nasceu na Foz do
Douro em 1867 e veio a falecer em Lisboa em 1930. Porém, tendo seguido a
carreira militar e sido colocado no Regimento de Infantaria 20, em Guimarães,
acabou por fixar-se nesta cidade.
Raul Brandão deixou-nos uma importante obra que constitui um
documento histórico e de valor etnográfico acerca da vida dos pescadores
portugueses, descrevendo-nos nomeadamente a paisagem do litoral nos começos do
século XX. São suas as descrições acerca de Vila Praia de Âncora e das suas
gentes que a seguir se reproduz.
À direita, encostado ao forte de Lippe, que forma o outro lado
da bacia, com o portinho e o varadouro, ficam as casas dos pescadores.
(…) A parte dos pescadores no areal difere completamente nos
tipos, nos costumes e nas casas, naturalmente noutros tempos barracas de
madeira construídas sobre estacas. Há quatrocentos pescadores pouco mais ou
menos, e cento e trinta e dois barcos varados na praia, todos pintados de
vermelho. São maceiras, de fundo chato, tripuladas por dois homens, volanteiras
ou lanchas de pescada por doze homens, e barcos de sardinha, que levam cinco ou
seis peças de sessenta braças cada uma, e quatro homens. As redes têm nomes:
peças as da sardinha, volantes as da pescada. Chama-se galricho a uma espécie
de massa com que se apanha a faneca; rastão ao camaroeiro; patelo à rede que
colhe o caranguejo ou mexoalho; e rasco à da lagosta. As redes da sardinha são
do mestre, e as da pescada dos pescadores. Os quinhões dividem-se conforme o
peixe.
Raul
Brandão, de Caminha à Póvoa




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