DEPUTADO VIANENSE ROCHA PÁRIS DEFENDEU EM 1947 MERCADO LIVRE DO MILHO FACE À ABUNDÂNCIA DA SUA PRODUÇÃO NA NOSSA REGIÃO
Na sessão de 12 de fevereiro de
1947 da União Nacional, o deputado Rocha Páris fez uma exaustiva apreciação do
problema de abastecimento de milho no norte do país, particularmente na região
do Minho. A sessão foi presidida pelo Dr. Albino dos Reis Júnior.
O Dr. Rocha Páris
era natural de Viana do Castelo e formou-se em Direito pela Universidade de
Coimbra. Foi também jornalista e era lavrador. Em 1911 e 1919, participou nas
incursões de Paiva Couceiro com vista ao restabelecimento da Monarquia. Exilado
desde 1911, apenas regressou a Portugal após o 28 de maio de 1926. Foi
Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Governador Civil substituto
do Distrito e Presidente da Comissão Distrital de Viana do Castelo da União
Nacional.
Na segunda Sessão
Legislativa que decorreu entre 1946 e 1947, interveio por duas vezes
preconizando que, por a produção do milho na região de Entre-o-Douro-e-Minho
ter então sido abundante, a mesma deveria ser libertada de certas restrições na
sua aquisição. A esse respeito, transcrevemos do Diário das Sessões a parte
respeitante à sua intervenção, respeitando a grafia original.
“O Sr. Rocha Páris:
- Sr. Presidente: ao pronunciar nas sessões de 11 de Dezembro de 1946 e de 14
de Janeiro findo algumas palavras sobre o problema do milho, que tanto continua
preocupando, sobretudo a população do Norte do País, tive apenas em vista chamar
a atenção do Governo para um assunto cuja gravidade não me parece lícito, nem
moral, nem político, ocultar.
Não contava voltar
a referir-me ao assunto.
Sou, porém,
obrigado a fazê-lo em virtude das exposições ultimamente enviadas a esta
Assembleia por alguns grémios da lavoura.
Procurei então
ouvir a opinião de organismos de vários concelhos sobre o restabelecimento do
mercado livre do milho no corrente ano agrícola, tendo-me respondido
afirmativamente ou enviado posteriormente a sua concordância com a sugestão
apresentada os seguintes organismos:
Província do Minho:
Distrito de Braga:
Conselho geral do
Grémio da Lavoura de Amares.
Câmaras Municipais
de Barcelos, Braga, Celorico de Basto, Esposende, Terras do Bouro, Vieira do
Minho e Vila Nova de Famalicão.
Juntas de Freguesia
de Ponte, Costa e as da cidade de Guimarães, todas do concelho de Guimarães.
Distrito de Viana
do Castelo:
Câmaras Municipais
de Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Ponte da Barca e
Valença.
Grémio da Lavoura
de Melgaço.
Juntas de Freguesia
de Chaviães (Melgaço), Loivo (Vila Nova de Cerveira) e as do concelho de Viana
do Castelo, Alvarães, Amonde, Anha, Areosa, Capareiros, Cardielos, Carreço,
Carvoeiro, 'Castelo do Neiva, Darque, Deão, Deocriste, Soutelo, Lanheses, Mazarefes,
Meadela, Meixedo, Moreira de Geraz, Mujães, Nogueira, Outeiro, Perre, Portela
Susã, Montaria, Neiva, Santa Leocádia de Geraz, Santa Maria de Geraz,
Portuzelo, Sub-portela, Torre, Vila Franca, Vila Fria, Vila Mou, Vila de Punhe
e Vilar.
Província do Douro
Litoral:
Câmaras Municipais
de Baião, Castelo de Paiva, Felgueiras, Lousada, Maia, Matosinhos, Paços de
Ferreira, Penafiel, Resende e Vila do Conde.
Província de
Trás-os-Montes:
Câmaras Municipais
de Alfândega da Fé, Lamego, Miranda do Douro, Mirandela, Moncorvo, Montalegre,
Régua, Santa Marta de Penaguião e Valpaços.
Província da Beira
Litoral:
Câmaras Municipais
de Águeda, Aveiro, Mealhada, Mira, Murtosa, Oliveira de Azeméis, Oliveira do
Bairro, Penela, Soure, Vagos e Vale de Cambra.
Província da Beira
Alta:
Câmaras Municipais
de Castro Daire, Mortágua, Nelas, Oliveira do Hospital, Penedono, Sátão,
Sernancelhe, Tarouca e Vila Nova de Paiva.
Província da Beira
Baixa:
Câmaras Municipais
de Arganil, Idanha-a-Nova, Sertã e Vila de Rei.
Os Municípios de
Castelo Branco, Condeixa e Mogadouro declararam que o assunto não interessava
aos respectivos concelhos e os de Fafe, Mesão Frio e Penacova discordaram da
sugestão por mim apresentada.
O Diário das
Sessões de 22 de Janeiro passado diz que os Grémios da Lavoura do distrito de
Viana do Castelo tinham enviado à Presidência da Assembleia Nacional uma
exposição manifestando a sua formal discordância com as considerações que fiz
sobre a venda do milho e regresso ao regime do mercado livre.
De facto, o Grémio
da Lavoura de Viana do Castelo e Caminha promoveu, com a assistência do
engenheiro agrónomo Sr. Pires de Lima, delegado do Ministério da Economia junto
dos grémios da lavoura do Norte, uma reunião em que se fizeram representar
todos os grémios do distrito.
As deliberações,
porém, não foram tomadas por unanimidade, visto dias depois a sua realização -
e [...] antes o Grémio de Melgaço se manifestara a favor do meu ponto de vista
- se ter efectuado na vila de Melgaço uma grande reunião de lavradores, que deram
o seu completo apoio às considerações que tive a honra de fazer nesta
Assembleia, que já tomou conhecimento do que ali se passou por telegrama que
oportunamente lhe foi enviado pelo presidente do Grémio da Lavoura daquele
concelho e que novamente passo a de:
Grémio Lavoura
Melgaço interpretando sentir unânime totalidade seus sócios reunidos cerca
[...] dia 25 corrente esta vila mantém apoio dado V. Ex.ª telegrama dia 13
Dezembro e representação enviada pela comissão escolhida essa reunião sobre
movimentação milho de que faço parte representação Grémio Lavoura. - Presidente
Grémio Lavoura.
Na representação a
que se refere este telegrama diz-se:
Abordado o assunto
do milho, foi também resolvido por unanimidade que se pedisse a V. Ex.ª o
seguinte:
Que novamente peça
à Assembleia Nacional que a venda e movimento, pelo menos no corrente ano, em
que foi abundantíssima, passasse a ser livre, tanto mais que desapareceu o
perigo do seu escoamento para a Espanha, o que é bem provado pelas recentes
apreensões, efectuadas pela guarda fiscal, de milho que vinha de Espanha para
Portugal, sendo a produção de milho em Espanha também muito grande no corrente
ano.
Se a movimentação e
venda do milho passasse a ser livre, este apareceria nos mercados e feiras em
abundância e seria melhor distribuído, fixando-se, é claro, um preço cujo
limite justo fosse acessível ao comprador, e não prejudicial ao vendedor; além
disso, como V. Ex.ª muito bem sabe, é com a venda do milho que as casas
agrícolas modestas vão adquirir outros produtos que lhes fazem falta e
encontram nos referidos mercados ou feiras, muitas vezes por simples troca de
mercadorias.
Também das trinta e
sete freguesias rurais do concelho de Viana do Castelo, onde reside o maior
número de sócios do Grémio de Lavoura de Viana do Castelo e Caminha, trinta, e
cinco são unânimes em pedir, de acordo com as suas autoridades, os seus produtores
e consumidores, em termos bem expressivos, o mercado livre do milho.
Apenas duas
freguesias - a de Afife e a de Serreleis - não responderam à minha pergunta,
naturalmente porque o assunto não interessa aos seus habitantes.
Desta última
freguesia e de um dos seus mais importantes lavradores e proprietários recebi,
porém, o seguinte telegrama:
Como lavrador
aplaudo calorosamente vossa intervenção problema milho protestando contra
grémios lavoura que não representam vontade geral lavradores.
Os concelhos do
distrito de Viana, por intermédio das suas Câmaras a seguir indicadas,
disseram-me:
Caminha: "Meu
nome e povo concelho felicito vossa atitude problema milho advogando justa
causa lavoura nortenha expondo verdadeira doutrina seguir. Presidente".
Monção: "Julgo
abundância milho último ano agrícola neste concelho permite restabelecimento
mercado livre cereal. Presidente".
Paredes de Coura:
"E fora de dúvida assunto merece boa ponderação e estudo devido. Vários
factores há a tomar em conta, alguns bastante imprevisíveis no momento
presente. Factores há, porém, já evidentes - boa produção e o desejo geral do
concelho, nos seus produtores e consumidores, de livremente poderem
transaccionar os seus produtos".
Ponte de Lima: "Ressalvando os interesses do concelho, isto é, mantendo o
necessário fornecimento de milho à população que dele carece até à próxima
colheita, sem intermitências e sem os resultados desastrosos que se verificaram
neste ano que está prestes a terminar, sou de opinião que, transitoriamente, a
venda do milho por parte dos produtores se faça em regime livre".
Valença: "Sou
também de opinião de que deve ser restabelecido o mercado livre do milho no
corrente ano agrícola, sob o fundamento alegado: excepcional colheita do cereal
em questão".
As Câmaras de Arcos
de Valdevez e de Vila Nova de Cerveira, reconhecendo embora que a colheita do
milho foi excepcional, não concordam com o comércio livre deste cereal.
Tal é o aspecto da
questão no distrito de Viana do Castelo: a grande maioria dos produtores e
consumidores preferem o comércio livre do milho, pensando o contrário as
direcções dos grémios da lavoura, com excepção do Grémio de Melgaço.
Foram também, lidas
na sessão de 6 do corrente duas representações, uma do Grémio da Lavoura de
Braga e outra do Grémio do Douro Litoral, e na de 12 do corrente uma do Grémio
dia Lavoura de Coimbra, esta particularmente interessante. Nota-se também o mesmo
que observei em Viana do Castelo.
Em Braga sobressai
mesmo o facto curioso de o conselho geral de um grémio da lavoura - o de Amares
- ter dado o seu apoio a uma sugestão apresentada em 27 de Novembro findo
(antes, portanto, de eu ter trazido o assunto à Assembleia Nacional), em que um
dos Srs. Procuradores diz:
A última colheita
foi extraordinàriamente [...] do que sucedeu em 1944, a recolha do cereal foi
muito tardia, tendo-se consumido até ao presente muito pouco deste pão.
As grandes
disponibilidades de milho nacional temos ainda a acrescentar a existência em
armazém do proveniente das colónias e da Argentina, com perspectivas de novos
desembarques, o que faz prever uma superabundância que de maneira alguma se
harmoniza com as restrições em vigor...
O nosso concelho
pode exportar umas boas centenas de toneladas de milho sem deixar de fornecer a
cada consumidor a quantidade procurada.
Portanto, o milho
existente no nosso concelho ou tem de ser consumido no nosso concelho pelas
pessoas e pelos animais domésticos, em regime de liberdade, ou tem de ser em
grande parte inutilizado pelos parasitas dos celeiros se for mantido o
racionamento em vigor...
As Câmaras de
Barcelos, Braga, Celorico de Basto, Esposende, Terras do Bouro, Vieira do
Minho, Vila Nova de Famalicão e diversas juntas de freguesia de Guimarães,
conforme já tive ocasião de dizer, concordam em absoluto com o que tenho
exposto, o mesmo acontecendo com as Câmaras de Baião, Felgueiras, Lousada,
Maia, Matosinhos, Paços de Ferreira, Penafiel, Vila do Conde, Castelo de Paiva
e Resende, que fazem parte da província da Beira Litoral e julgam também
conveniente o mercado livre do milho.
Parece-me, Sr.
Presidente, ter infelizmente de concluir-se que se está claramente desenhando
uma divergência séria de opiniões entre lavradores e consumidores, por um lado,
e as direcções de alguns grémios da lavoura, por outro.
O Sr. Cincinato da
Costa: - V. Ex.ª pode dizer-mo quem é que provocou a reunião dos grémios?
O Orador: - Foi o
presidente da direcção do Grémio da Lavoura de Viana do Castelo e Caminha.
O Sr. Cincinato da
Costa: - Muito obrigado. É que podia ter sido provocada por entidades
estranhas.
O Orador: - O
sistema que actualmente pretende disciplinar e reger a distribuição do milho
folhou em absoluto.
Não se compreende,
nem pode admitir-se, que ele permita que se passem semanas sem que se faça
distribuição da farinha que o' racionamento atribui a cada pessoa, que assim se
vê impossibilitada de poder cozer o seu pão.
Não só compreende
que ainda se obrigue a vir à cidade requisitar a necessária guia de trânsito
para poder levar na sua aldeia o milho para o moinho, pois caso contrário o
milho corre o risco de ser apreendido.
O Sr. Melo Machado:
- Aqui para o Sul, para levar o milho ao moinho as guias são distribuídas nu
acto em que se faz o manifesto, de maneira que não há necessidade de haver dois
critérios.
O Orador: - Assim
muitos têm de percorrer bom número de quilómetros para conseguirem a preciosa
guia.
Mas para a obter
quantas horas perdidas, por vezes, nas "bichas" da Intendência, como
lhe chama o bom povo!...
Não se compreende
que o actual sistema permita que, sendo proibida a venda de milho a
particulares, haja ainda freguesias rurais onde não existam celeiros ou mesmos
postos de venda de milho.
De uma das mais
ricas freguesias rurais da ribeira Lima escreve-me um importante lavrador:
É proibida a venda
de milho a particulares, não é verdade?
Pois até hoje não
há na minha freguesia nem nas quatro mais próximas qualquer celeiro ou posto de
venda de milho!
Donde se tem
comido?
A resposta é fácil.
Não se compreende
que a cinco meses do início da presente campanha cerealífera a Federação
Nacional dos Produtores de Trigo não tenha podido ainda levantar, em muitos
sítios, o milho manifestado para venda.
Concordo
absolutamente com o que diz o Grémio da Lavoura de Coimbra:
De facto, pelas
disposições legais é absolutamente proibido aos produtores vender milho aos
consumidores, mas a Federação Nacional dos Produtores de Trigo, à ordem de quem
o milho está retido e única entidade que o pode vender, não abastece os
mercados consumidores.
De modo que, não se
podendo vender milho, mas tendo de se comer, é evidente que se tem de ir buscar
onde ele estiver, com todas as suas graves consequências.
Se não fora o
"mercado negro", muita gente teria morrido de fome.
Para mim e para
muitos o grande erro está em confundir as duas palavras "produzir" e
"manifestar".
De facto, Sr.
Presidente, o defeito consiste em dizer-se: produziram-se tantos milhões de
quilogramas em vez de manifestaram-se tantos milhões de quilogramas.
E é assim que, por
vezes, os números nos (podem induzir em graves erros...
Desejo, finalmente,
acentuar que de facto se trata de um assunto que reveste aspecto político de
grande importância, visto não dever ser indiferente a quem governa tomar
conhecimento do que se passa naqueles sectores em que mais intensamente vibra,
por vezes, a própria alma nacional.
O erro, o perigo
político, está, não em demonstrar a verdade, não em apontar sinceramente
defeitos e erros que se vão notando, mas precisamente em procura? ocultá-los,
deturpando-os ou escondendo-os à consideração dos que têm sobre os seus ombros
o pesado encargo de governar.
Tenho dito.
Vozes: - Muito bem,
muito bem!”


Comentários
Enviar um comentário