MENDES CORREIA, DEPUTADO À ASSEMBLEIA NACIONAL EM 1956, EXALTOU AS QUALIDADES DO NOSSO FOLCLORE
Na sessão de
29 de junho de 1956 da VI Legislatura da Assembleia Nacional, o deputado Mendes
Correia falou sobre o Congresso de Etnografia e Folclore que se realizou em
Braga naquele ano, exaltando as suas virtualidades e qualidades artísticas. A
sessão foi presidida por Albino dos Reis Júnior e secretariada por José Paulo
Rodrigues e Alberto Pacheco Jorge.
António Augusto Esteves Mendes Correia de seu nome completo era
natural do Porto. Doutorado em Medicina, exerceu a profissão de Professor
Catedrático na Universidade do Porto. Foi Procurador à Câmara Corporativa na I
e II Legislaturas e Presidente da Câmara Municipal do Porto entre 1936 e 1942.
Porém, o conhecimento dos costumes do Homem sempre exerceu em si uma especial
atração. Em 1912, introduz o estudo da Antropologia, em 1919 torna-se Professor
ordinário de Geografia e Etnologia da efémera Faculdade de Letras da
Universidade do Porto; em 1921 é nomeado Professor Catedrático da Faculdade de
Ciências da Universidade do Porto da qual viria a ser Diretor; em 1923 é
Diretor do Instituto de Investigação Científica de Antropologia da Universidade
do Porto; Diretor da Escola Superior Colonial em 1946 e Presidente da Sociedade
de Geografia de Lisboa em 1951. Foi por três vezes eleito deputado à Assembleia
Nacional pelo círculo do Porto tendo integrado a Comissão de Educação Nacional,
Cultura Popular e Interesses Espirituais e Morais.
Transcreve-se a sua intervenção, respeitando-se a grafia da
época.
O Sr. Mendes Correia: - Sr. Presidente: na sessão de ontem o
nosso colega Dr. Alberto Cruz referiu-se, a propósito das impressões que teriam
deixado a terra e a gente bracarenses e o Minho em geral nos membros do recente
Congresso de Etnografia e Folclore, realizado em Braga, as tradições regionais
de hospitalidade e à necessidade de se apoiar o desenvolvimento do turismo
naquela província.
Não precisa o nosso colega da minha solidariedade nas aspirações
que formulou, e que naturalmente perfilho sem restrições, mas pedi a palavra
para, ainda com um mandato que me permite traduzir o sentir de todos os
congressistas, sublinhar a hospitalidade e a cortesia que todos encontrámos em
Braga e na boa gente do Minho, aproveitando este ensejo para, mais uma vez,
salientar o significado nacional e político da assembleia realizada e a
importância - nos mesmos aspectos, além do cientifico- de muitas matérias nela
versadas e de muitos dos votos finais ali adoptados.
Vozes: - Muito bem!
O Orador:-Não trago, evidentemente, a esta Câmara um relato
pormenorizado do que foi o Congresso e do que ele representa na vida cultural e
social do Pais.
Mas acentuarei que a sua magnitude decorre do tema dos seus
relatórios e das suas duzentas comunicações. Esse tema é o povo português, a
sua psicologia, as suas tradições, a sua arte, os seus anseios, as suas
tendências e as suas capacidades.
Tema que é hoje versado cientificamente, com métodos e técnicas
adequadas, de maneira sistemática, imparcial e objectiva, e não ao modo antigo,
por colecionadores a esmo, por simples amadores sem preparação, por
devaneadores e fantasistas, com maior ou menor brilho literário, maior ou menor
sentimento e entusiasmo, mas numa ausência total, ou quase, de espirito
científico. Há ainda quem suponha que etnografia e folclore são puras
colectâneas amenas de temas pitorescos da vida popular.
Ora, o último Congresso definiu posições nítidas e úteis quanto
à natureza dos objectos dessas disciplinas e quanto à maneira de os tratar e
utilizar. Pôs em evidência o interesse de certas investigações. Salientou as
ligações entre o âmbito das ditas disciplinas e a história, a filosofia, a
religião, a arte, a sociologia, a política, a economia, etc. Pôs sobretudo em
relevo o valor nacional daqueles estudos.
E a todos foi grato verificar que, a par das contribuições mais
singelas sobre um ou outro facto local ou regional, surgiram naquela assembleia
teses de conjunto ou de carácter genérico e doutrinário, como as de metafísica,
do folclore e da ética dos provérbios populares, tratados pelos reverendos Drs.
Bacelar e Oliveira e Craveiro da Silva, da Faculdade Pontifícia de Filosofia,
de Braga.
Não faltaram outros elementos universitários e académicos,
participantes do Brasil, Espanha e México, os temas mais variados. Mas desejo
aqui congratular-me, sobretudo, com o apoio e interesse manifestados ao
Congresso, não só por corpos administrativos, como as Camarás Municipais de
Braga -a autora da iniciativa e sua grande realizadora-, Viana do Castelo,
Santo Tirso e Porto, e algumas juntas de província, mas também por organizações
como o Secretariado Nacional da Informação e Cultura Popular, a Mocidade
Portuguesa, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, etc.
O Governo da Nação, o Governo de Salazar, dispensou ao Congresso
o apoio mais expressivo, sendo notáveis os discursos proferidos no mesmo pelos
ilustres Ministro das Corporações e Subsecretário de Estado da Educação
Nacional.
Verificou-se, assim, este facto altamente consolador: é que de
sectores os mais variados da vida nacional, de todos os planos hierárquicos,
dos domínios directamente ligados ao assunto como de outros, do Governo ao
próprio povo - como o de Braga e como o que participou nos festivais
folclóricos então realizados-, houve geral concordância no reconhecimento do
vasto e profundo significado da bela iniciativa da Câmara de Braga, e
especialmente do seu extraordinário presidente.
Como ó oportuna e confortante tal verificação, precisamente
quando nesta Assembleia se está discutindo o Plano de Formação Social e
Corporativa, marcando-se o desejo de, abrindo os braços a todos os progressos
reais e fecundos, conservar as melhores e mais sãs tradições nacionais!
O Congresso emitiu numerosos votos, como em matéria de ensino,
investigação, propaganda, museus, protecção, etc., de assuntos etnográficos e
folclóricos. Sublinharei apenas, neste instante, os que dizem respeito às
actividades ultramarinas nesse domínio e à recusa ao fado do título, tão
correntemente usado, de canção nacional por excelência.
O estudo da etnografia e folclore das populações ultramarinas
mereceu ao Congresso uma atenção especial, salientando-se a necessidade dessa
matéria nos centros de estudos sociais e políticos e nos novos institutos de
investigação científica de Luanda e Lourenço Marques, entre as ciências humanas
ou sociais.
Quanto ao fado, proclamou-se o inconveniente nacional e
folclórico da sua difusão excessiva, quer pela sua proveniência, quer pelo
pessimismo e desanimo que traduz, em contradição com as fontes e as
manifestações mais autênticas e construtivas da inspiração popular. O fado
lembra as guitarras plangentes de Alcácer, não um brado de vitória ou de fé.
Não pretendo negar a beleza de alguns fados, das toadas mais
melancólicas, de versos profundamente tristes. Mas não se chame canção nacional
por excelência a uma canção folclòricamente tão discutível e tão distinta, em
tudo, das belas, joviais e empolgantes canções de que é felizmente tão rico. O
autêntico folclore nacional.
Vozes: - Muito bem!
O Orador:-Vi um dia, num festival folclórico, no Porto, centenas
de visitantes estrangeiros, como um só homem, perante uma exibição de ranchos
de Viana, erguerem-se a aplaudir e a gritar: «Viva Portugal»! Em vez do fado
depressivo, como não hão-de ser estimulantes e gratas para nós, Portugueses,
essas manifestações da nossa música popular que tom assim o dom de arrebatar os
próprios estrangeiros?
Sem recusar a possibilidade de introdução e adopção de factos
novos, ou seja do processo chamado de aculturação pelos etnógrafos e
sociólogos, o Congresso pronunciou-se pela definição do facto etnográfico e
folclórico como caracterizado por serem tradicionais e de origem espontânea e
anónima na alma popular.
A aculturação só pode dar-se quando esta alma lhe é favorável,
quando nesta encontra eco, aceitação, concordância psicológica. Nos nossos
territórios ultramarinos é do maior interesse o estudo da aculturação das
populações nativas sob a influência da cultura que tenho chamado luso-cristã.
Por estas singelas considerações creio ter dado uma ideia da
importância nacional e científica do Congresso de Braga. Mas o que sobretudo
desejei sublinhar, usando da palavra, foi a gratíssima impressão que
congressistas nacionais e estrangeiros trouxeram do convívio, da hospitalidade,
da afabilidade, da cortesia, do trato, da doçura, do irradiante poder de
simpatia, da boa gente de Braga e do Minho, daquele admirável povo em que se
conservam e florescem tantas virtudes tradicionais de suavidade de alma, de
bondade, de apego ao lar, de dedicação pelo trabalho, de amor pelo seu berço e
de fidelidade aos altos valores espirituais que garantem a perenidade da Pátria
e da civilização.
Vozes: - Muito bem, muito bem!
O Orador:-Posso depor com firmeza que na multidão que em
avalancha jovial festejava o S. João, na noite de 23, em Braga, não vi senão
atitudes simpáticas e dignas. Quem dava involuntariamente um encontrão pedia
desculpa.
Ausência de palavrões, de qualquer grosseria, de brutalidade.
Bom povo, admirável povo, que a dissolução tendenciosa de outros meios ainda
não inquinou nem perverteu.
Tenho a certeza de que a acção de organizações como as que citei
manterá indemnes a sua alma e as suas tradições sãs contra a vaga cosmopolita
ou exótica de materialismo pretensamente científico e humano que ameaça
subverter o que há de melhor e mais luminoso no património moral da nossa
civilização. Bom povo de Portugal, porque creio em ti e nos valores espirituais
que te animam, creio na eternidade da Pátria.
Tenho dito.
Vozes: - Muito bem, muito bem!
O orador foi muito cumprimentado.


Comentários
Enviar um comentário