O FOLCLORE E A MÚSICA BARROCA
Domenico Scarlatti inspirou-se no folclore português
Desde sempre,
os grandes compositores foram beber à fonte da criatividade do povo a sua
inspiração para a construção de grandes obras da música erudita de todos os
tempos. Apesar da sua finalidade espiritual e religiosa, também a música
barroca não constituiu uma exceção à regra.
Como é sabido, o período da dominação filipina em Portugal que
decorreu entre 1580 e 1640, caracterizou-se pela inexistência de uma corte em
Lisboa que teve como reflexo imediato o empobrecimento da vida cultural do
Reino. Com o desaparecimento da dinastia de Avis, a capela real suspendeu as
suas atividades e acabaria por ser posteriormente suplantada pela capela ducal
de Vila Viçosa que passou inclusivamente a exibir maior esplendor.
A música profana quase desapareceu e a corte filipina, então a
residir em Madrid, não patrocinava a edição de música portuguesa nem, de um
modo geral, qualquer dinâmica que conferisse à capital portuguesa maior
importância cultural. Porém, isso não a impedia de apoiar algumas iniciativas
que visavam naturalmente aliciar as elites portuguesas, tal como sucedeu com a
impressão em 1620 da obra “Flores
de Música”, da autoria de Manuel Rodrigues Coelho, ou ainda
permitir a divulgação em Espanha de muitas obras musicais criadas pela chamada “Escola de Évora”.
Acresce aos efeitos da dominação filipina as limitações impostas
pelo Concílio de Trento, a Contra-Reforma e a introdução da Inquisição. Com
efeito, as condições políticas, sociais e religiosas então existentes não
permitiam a Portugal manter-se atualizado em relação às grandes novidades
culturais que já então se faziam sentir noutros países europeus. Apesar disso e
paradoxalmente, foi precisamente o próprio contexto político em que se vivia
sob a dominação espanhola que veio a contribuir para o incremento do fervor
religioso e, em consequência, o florescimento da polifonia que então se
expandia em toda a Europa. Assim, este período grandioso da música portuguesa,
acabaria por coincidir com o auge da polifonia clássica na Europa do século
XVII.
E, tal como nos descreve o escritor Rodrigues Lobo na sua obra “Corte na Aldeia”, “os fidalgos e cortesãos por suas quintas e
casais, vieram a fazer cortes nas aldeias”, também a música e as
atividades que lhe estão subjacentes como o seu ensino e a construção de
instrumentos musicais encontraram nas catedrais e noutras instituições
religiosas situadas na província autênticos conservatórios que,
pese embora as condições políticas existentes à altura, transformaram
precisamente aquele período naquilo que é considerado “a
verdadeira idade de ouro da música portuguesa”. Entre essas
catedrais distinguiu-se a Sé de Évora, a tal ponto que passou a ser
classificada como a “Escola de Évora” por não só se
tratar de um local de aprendizagem como ainda e principalmente de um sítio que
se viria a revelar na formação de uma nova corrente estilística. À importância
que veio a ter a “Escola de Évora” não foi, naturalmente, alheio o facto de D.
João III ter decidido instalar a corte precisamente nessa cidade e ainda ter o
Cardeal D. Henrique dotado a Sé de Évora de uma magnífica capela musical e,
para o efeito, haver contratado diversos cantores e instrumentistas.
Foi ainda a convite do Cardeal D. Henrique que Manuel Mendes se
tornou em 1575 Mestre da Capela do Claustro da Sé de Évora, o qual veio a
formar uma autêntica plêiade de grandes compositores e músicos que se
notabilizaram durante esse período áureo da música portuguesa, salientando-se
entre eles Frei Manuel Cardoso, Filipe de Magalhães e Duarte Lobo.
Por seu turno, também o Duque de Bragança, D. Teodósio II,
patrocinou a edição de partituras musicais em Lisboa e em Amesterdão, muitas
das quais viriam a ser interpretadas na Sé de Évora. Foi ainda D. Teodósio II,
pai do futuro rei D. João IV, quem instituiu o Colégio dos Santos Reis Magos
que visava preparar os cantores que deveriam ingressar a capela do Paço Ducal
de Vila Viçosa.
A importância então atribuída à música religiosa e a razão do
seu predomínio sobre a música profana deve-se ao facto daquela ser então
considerada música séria cuja verdadeira finalidade é louvar o Criador, o que
explica o valor atribuído às capelas musicais das catedrais e outras
instituições religiosas. Destinava-se essencialmente a acompanhar as cerimónias
litúrgicas e, por conseguinte, era no seio da Igreja que a música desempenhava
a sua função. Portanto, o florescimento então verificado apenas se poderia
produzir no meio religioso.
Concretamente em relação às obras produzidas pela “Escola de
Évora”, não obstante as condições sociais então existentes, estas revelavam-se
de elevado valor técnico e artístico, alcançando um grande nível de perfeição
musical. E, pese embora a música sacra ser então especialmente destinada a
cumprir uma missão espiritual, ao contrário do que se verificava com a música
profana que apenas servia para divertir nos serões da corte ou nas festas do
povo humilde, a polifonia acabaria por vir a influenciar fortemente a música
tradicional do Alentejo, vulgarmente designada por “cante”,
principalmente da margem direita do rio Guadiana, onde o cantochão constitui a
expressão musical mais saliente, interpretado por corais polifónicos
constituídos quase sempre por componentes do sexo masculino, em grande medida
devido à distribuição do povo no seio da própria Igreja. Trata-se, com efeito,
uma herança cultural a que naturalmente não foi alheia a influência da “Escola de Évora” e dos frades da
Serra d’Ossa.
Também no reinado de D. João V, o famoso compositor Domenico
Scarlatti, filho do não menos célebre Alessandro Scarlatti, passa a viver em
Lisboa e radica-se na corte portuguesa, tendo sido compositor real e mestre dos
príncipes. Apesar de ter vivido durante o período do barroco, a sua arte viria
a influenciar sobretudo o período clássico. Recebe notável influência de Carlos
Seixas e inspira-se no folclore português, concretamente num fandango e numa
canção da Estremadura para produzir duas das suas sonatas.
Inúmeros são os exemplos que demonstram a influência do folclore
na música erudita em geral e não somente na música barroca. De resto, é o povo
que cria a música em relação à qual os compositores vão conferir-lhe uma forma
musical mais elaborada. Mas, o ensinamento que retiramos do conhecimento da
relação existente entre a música folclórica e a música erudita é que não existe
qualquer espécie de divórcio entre ambas como algumas mentes menos cultas
supõem, originando um certo preconceito sempre que se referem ao folclore com
manifesta ignorância.

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