QUEM ERAM AS “FAFEIRAS” DA GAFANHA DA NAZARÉ – MOÇAS DE FAFE QUE ÍAM PARA AVEIRO TRABALHAR NA SECA DO BACALHAU?
Tal como o nome indica, as “fafeiras” eram
moças do concelho de Fafe que migravam sazonalmente para a Gafanha da Nazaré, a
fim de trabalharem na seca do bacalhau. A sua presença naquela freguesia do
concelho de Ílhavo deixou marcas indeléveis na cultura local, mormente no seu
folclore. A esse respeito e acerca das suas lides e modos de vida,
transcrevemos a crónica de Gaspar Albino que é divulgada pelo Grupo Etnográfico
da Gafanha da Nazaré.
FAFEIRAS – POR GASPAR ALBINO
Era às segundas-feiras. Logo pela manhã, dirigia-me aos correios
de Aveiro em busca do sempre desejado telegrama com notícias de bordo do navio,
nos mares da Terra Nova.
E era com sofreguidão que regressava ao Largo do Rossio, ao
escritório da empresa, para abrir o cofre em busca da cifra que me permitia
descodificar o seu conteúdo. Quase todo ele incompreensível para quem não
tivesse a chave.
Ficava-se a saber do tempo que tinha feito, dos pesqueiros que o
barco tinha frequentado, da saúde e da doença da tripulação, das avarias e,
finalmente, a quantidade de bacalhau capturado na semana com aproximada
definição dos tamanhos do peixe embarcado no porão.
Os momentos que se seguiam eram comandados pela informação que
chegara: alegria pela fartura; tristeza, pela míngua. Às vezes, euforia pelas
somas de bons parciais; outras, a tristeza e a dúvida que as brisas (ventos
fortes, em linguagem marinheira) alimentavam de maus augúrios quanto ao
resultado final da safra.
Tudo isto, entretanto, era guardado com um certo secretismo,
conferindo ao ritual das segundas-feiras uma atmosfera singular que, hoje,
decorridos que são tantos anos, ainda recordo com emoção.
A nova safra da pesca iniciava-se sempre ainda com o bacalhau da
campanha anterior em mãos.
E era certo e sabido que ninguém me largava, ao sábado, quando
me deslocava à seca na Gafanha para fazer o pagamento ao pessoal.
Começava pela ti Maria Rita (como a recordo no seu corpanzil de
mulherona nos seus quarenta e tais anos que não passavam pela cara de menina
que, no fundo, sempre foi) com o seu "então, que tal vamos de
escama?"
E, depois, era o senhor Manuel Vareta, o carpinteiro, que, mal
me pressentia, lá saltava do sobrado até ao pequeno escritório, onde eu me ia
desfazendo dos envelopes das semanadas das mulheres. Os nossos olhares já
continham, também eles, um código. As mais das vezes, nem trocávamos palavra
sobre a pesca, mas o sorriso, ou o encolher de ombros com que ele ficava para o
fim do pagamento ao pessoal, era a garantia da mensagem transmitida e bem
compreendida.
Legenda da foto: Perspectiva aérea das secas da Cale da Vila com
os seus estendais de peixe. Em primeiro plano a "Seca do Milena",
hoje à espera de ser convertida em pólo do Museu Marítimo de Ílhavo.
O Zé Catarino, o ajudante de carpinteiro, nesta questão das
capturas, vinha sempre também ajudar à missa e conforme a reacção do chefe,
assim era o bulir da enchó que nunca largava.
A Fátima, a filha do guarda, o Ti Augusto, era mais afoita nos
seus assumidos dezoito anos que o título de segunda encarregada não conseguia
disfarçar.
E lá escorregava eu com a informação que mais tranquilizasse as
fafeiras que, respondendo ao seu número na folha de férias, lá se chegavam ao
postigo para receberem o soldo que guardavam, de pronto, no seio, por botão
entreaberto da blusa.
É que da forma como estivesse a correr a viagem muito dependia o
regresso às suas terras, lá para o Minho, para Fafe e seus arredores, onde as
famílias as aguardavam para as vindimas e os namorados para aprazar casamento.
Ainda sou do tempo em que o sol mandava no trabalho das secas.
Desarreigadas da sua terra, das suas famílias, as fafeiras
constituíam o grosso do pessoal que nelas trabalhava.
Na seca de Lavadores, na Barra, até dispunham dum dormitório.
Mas a maior parte das moças que trabalhava nas secas da Cale da Vila vivia em
grupos, em acomodações disseminadas pelo povoado, paredes meias com as famílias
locais e com estas muito intimamente ligadas.
A forma como se instalavam e viviam na Gafanha, longe da sua
terra, fazia com que se estabelecesse uma relação muito forte com a encarregada
da sua seca.
É que, pelas décadas de 50 e de 60, também neste sector, havia
uma grande fidelidade à empresa de pesca em que cada grupo trabalhava. Um grupo
de jovens mulheres, quase todas solteiras e casadoiras, que se comportava de
forma coesa, como se de uma irmandade se tratasse, e aceitando, de forma
natural, a liderança de uma colega mais experimentada nestas andanças do
trabalho nas secas.
Era com esta chefe pacificamente aceite que a encarregada tudo
tratava.
Eu conto.
Mal se adivinhava o final da viagem, com o carregamento de peixe
a propiciar o regresso do barco, a encarregada do secadouro, trabalhadora
permanente, começava a preparar tudo para a nova safra. E lá telefonava para a
chefe do grupo, lá para a sua aldeia fafense, para que o grupo se prevenisse.
Os carpinteiros já andavam às voltas com as "lambretas" e os carros
de mão que tinham de estar reconstruídos, afinados e lubrificados. Mas para
cortar a relva, reparar as mesas de secagem, lavar e pintar com cal e metabissulfito
de sódio os armazéns de peixe verde, de peixe em mãos, e de peixe seco, já era
necessária a primeira leva de mulheres.
E logo que chegavam se ficava a saber quem tinha casado e, por
isso, permanecia na sua terra. As neófitas já tinham metido a sua
"cunha" para preencher as vagas no grupo.
Era vê-las com os seus ademanes minhotos, com o seu tagarelar
exuberante, com o seu praguedo nortenho tão natural.
Sentia-se que a nova safreira vivia a sua deslocação para a
Gafanha como se fosse para uma festa.
Festa que, pelo que lhes tinha sido contado pelas mais batidas,
sabiam ser de não horários, de muito suor, de muito esforço, mas também de
agradáveis sestas quando o tempo o permitia, tudo à mistura com os seus
descantes minhotos que ritmavam tanto o trabalho como o descanso.
No dia da chegada do barco, tudo aparecia vestido como se fosse
para romaria.
E as fafeiras misturavam-se com as famílias da tripulação, quase
deixando transparecer a mesma ânsia de quem aguarda por longos meses o
reencontro de entes queridos.
O "spring"
era lançado para terra e o ti Vareta mais o Zé Catarino já sabiam que fazer. Nó
hábil e rápido no moitão e o barco, lentamente, aproximava-se do trapicho.
Ao longo do cais, que o guarda-fiscal não deixava que se
aproximassem, as fafeiras não perdiam pitada. Especialmente as "caloiras".
A encarregada, a Ti Maria Rita, essa já não era, ao fim de
tantos anos de experiência, para essas andanças. Aguardava no seu tugúrio, a
que pomposamente chamava de escritório, que o contra-mestre lá fosse combinar o
início da descarga.
Quantas mulheres para o porão, quantas para o convés e ao
trapicho, quantas aos carros, quantas para as pilhas, quem ficava à balança,
enfim: o princípio do rodopio comandado pelo bacalhau, rei e senhor.
Não era trabalho fácil este, o da descarga.
Mas a verdade é que estas mulheres do coração do Minho revelavam
um espírito de corpo, de inter-ajuda, verdadeiramente excepcional.
Um dia, logo nos princípios de responsável, verificou-se que o
ritmo de descarga tinha abrandado.
E o contra-mestre, velho amigo, aconselhou-me que fosse ao
porão, pois era lá que estava a causa.
Lá desci de gatas, que a altura até ao convés era pouca, e lá
andavam elas a atirar o peixe para a dala estendida.
Vi que não dava para mais. Mas mesmo assim lá gritei: "Amiguinhas! Só vamos sair daqui quando
estiverem pesados "tantos" quintais!"
E lá do escuro, bem do extremo do porão, uma voz que nunca
identifiquei saiu-se com esta que nunca mais esqueci:
"Ai o estupor do homem! Se nos chama a nós de
amigas, que há-de chamar à mulher?".
Para não me verem rir, corri a subir para o convés, deixando-as
no seu ritmo marcado pelas suas cantigas.
Não sei como, mas a verdade é que à hora prevista, da balança
vieram-me dizer que os quintais previstos para o dia de descarga tinham sido
ultrapassados.
Ainda havia peixe no porão e já se começava a lavar nas pias.
Os tempos eram de dinheiro magro e havia que começar a secar,
para se começar a realizar fundos.
E apesar de o trabalho, por vezes, se iniciar às seis da manhã,
a verdade é que, se o tempo o justificava, se fazia serão, a lavar nos tanques,
a separar e a enfardar, por noite dentro.
O espírito da "fafeira"
era esse mesmo.
O que interessava era juntar o melhor pé-de-meia possível no
decurso da safra para o enxoval que todas sonhavam rico de promessas de casório
futuro.
Safra que não rendesse mais um cordão de ouro não era safra nem
era nada.
As horas extra eram sempre desejadas e o castigo do corpo –
diziam elas – afastava vícios.
Para moças que sempre tinham vivido o campo, era de espantar
como, num ápice, se adaptavam ao novo meio, às novas gentes, às novas práticas
do seu trabalho.
As expressões mais cerradas do seu novo oficio eram aprendidas e
usadas como de nascença.
O "tratamento"
do bacalhau "seleco", que aparecia sempre
que os cascos de madeira dos barcos deixavam entrar água no porão e o seu
esgoto se não fazia convenientemente, para elas era canja. O lavar e salgar de
novo afastava os fumos de cheiros doentios e o bacalhau ressuscitava nas mesas,
como se nada se tivesse passado.
Fazer a cosmética ao "rouge"
e ao "empoado" para elas era
brinquedo. Pincel na mão, peixe na mesa, caldo de metabissulfito e lá se ia o
vermelho ao fim de algumas horas de sol.
Escova bem esfregada na carne do bacalhau e lá desaparecia o
acastanhado do pó que atirava para sortido de segunda o peixe mais especial, o
grado.
Fadas de milagres, estas fafeiras.
Sentia-se que o bacalhau era a sua razão de ser e que a seca era
a sua casa. O convívio que se estabelecia no trabalho era encarado como
sucedâneo da família que se tinha deixado lá para o norte.
Durante todo o santo dia cantavam. Normalmente, era quando se
lavava peixe que as cantigas brilhavam mais.
À solista, que sempre havia, respondia o coro. Canções de
trabalho do Minho, próprias do amanho dos campos, mas que a inventiva adaptava
às tarefas da seca.
E à merenda, quando se sabia que o peixe só seria recolhido lá
mais para tarde, às cantigas juntava-se o bailarico dumas com outras.
Era certo e sabido. Ao fim de pouco tempo, as que não tinham
deixado namoro na terra arranjavam derriço gafanhão.
E era vê-los, aos moços, ao portão, à hora do despegar, à espera
da fafeira apetecida, namorada de outras falas, de outros lados.
Quando se desenhava o fim da safra, todo o mundo começava a
sonhar com a festa: era o jantar da seca, para algumas com a presença do
namorado e o bailarico que entrava pela noite dentro.
E depois era a despedida até que houvesse notícia de novo
carregamento a chegar ao cais.
Mas quantas daquelas moças não ficaram por cá, enriquecendo, com
os seus costumes, a sua cozinha, os seus cantares, as suas danças, os hábitos
das nossas Gafanhas?
A conclusões bem seguras nesta matéria já terá chegado, de há
muito, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré no seu cuidadoso levantamento
das riquezas culturais da sua terra.
E por certo que só esta interpenetração de danças e cantares do
Minho – mais precisamente da região de Fafe – daria para um trabalho de grande
fôlego etnográfico.
Haja quem o queira fazer.
A todos nos enriqueceria.
Fonte:
Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré


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