QUEM FOI ARTUR DE OLIVEIRA SANTOS, O ADMINISTRADOR DO CONCELHO DE OURÉM QUE SEQUESTROU OS VIDENTES DE FÁTIMA?
Artur de Oliveira Santos correspondia-se no exílio com
Bernardino Machado
Em 3 de Agosto de 1932, encontrando-se Artur
de Oliveira Santos no exílio, em Espanha, escreveu a Bernardino Machado a
partir de Cárceres, em papel timbrado do Hotel “La Española”, dando conta das
movimentações políticas dos militantes monárquicos do Integralismo Lusitano.
Ainda no mesmo ano – em 22 de Dezembro – voltaria a escrever ao antigo chefe de
Estado a lamentar as dificuldades por que passava no exílio. Em Portugal, o
regime do Estado Novo encontrava-se em processo de instauração. Mas, afinal, quem
era Artur de Oliveira Santos?
À data das aparições na Cova da Iria em 1917, Artur de Oliveira
Santos era Administrador do concelho de Ourém. Por essa altura, ainda os
comunistas na Rússia não haviam ascendido ao poder, pelo que a associação entre
ambos os acontecimentos históricos é extemporâneo.
Em
1907 tornou-se membro da Comissão Municipal Republicana que era a célula local
do Partido Republicano Português, na qual exercia as funções de vogal. Até
então ou seja, ao ano em que começaram as aparições, ainda não havia saído do
quase anonimato.
Porém,
foi o seu controverso envolvimento na questão religiosa em torno das referidas
ocorrências e, sobretudo, no sequestro das crianças que diziam ter contactado
com Nossa Senhora – elas não seguiram o administrador de sua livre vontade! –
que então lhe conferiu notoriedade, pese embora continuar a ser um ilustre
desconhecido para a larga maioria dos portugueses, incluindo aqueles que
regularmente peregrinam à Cova da Iria.
Artur de Oliveira Santos nasceu em 1884 no concelho de Ourém. Iniciou a sua atividade profissional no início do século XX, com a fundação de uma oficina de latoaria denominada “A Social”. Fundou os jornais locais “Voz de Ourém” e “Povo de Ourém”. Colaborou nos jornais “O Mundo”, “A Vanguarda”, “O País”, “A Razão” e “A Voz da Justiça”. Em 1924, tornou-se Delegado do Governo em Ourém. Mas com a Revolução do 28 de Maio de 1926, acaba perseguido e preso pelo Estado. Em 1931 exilou-se em Espanha, permanecendo até 1939, onde acabou por participar na Guerra Civil espanhola como maqueiro. Uma vez terminada a guerra civil com a derrota do sector republicano, regressa a Portugal, quando já se encontrava vigente o regime do Estado Novo. Por essa altura, os seus conterrâneos davam já os primeiros passos para a criação em Lisboa da Casa de Ourém que veio a concretizar-se em 1953, da qual foi um dos fundadores. E, a partir de então, sob o pseudónimo “João de Ourém”, passou a colaborar com o jornal “Notícias de Ourém”. Faleceu em Lisboa a 27 de junho de 1955. Na casa onde viveu funciona atualmente o Museu Municipal de Ourém.
Artur de Oliveira Santos e o 5 de Outubro de 1910
Acerca do seu envolvimento pessoal na revolução do 5 de Outubro,
em Lisboa, José Poças descreve no jornal “Notícias de Fátima” o seguinte:
“Qualquer artigo que se escreva sobre os 100 anos da implantação
da República, visando o concelho, pecará por defeito. É impossível condensar
uma história que, ao contrário do que muitos possam imaginar, é riquíssima em
pormenores, situações caricatas e actores políticos.
Em 1907 fundava-se, na então Vila Nova de Ourém o Centro
Republicano. Concorrendo às eleições durante os últimos anos da Monarquia,
obteria em 1908, 32 votos e em 1910, 60.
Em 25 de Março de 1910 realizou-se um comício em Vila Nova de
Ourém em que falaram José Relvas (que proclamaria a instauração da República em
Lisboa e seria primeiro-ministro em 1919), João Chagas (primeiro-ministro em
1911) e Anselmo Xavier (Presidente da Câmara Municipal de Benavente). Presidiu
Manuel António das Neves (nascido em Alburitel, foi um activo republicano, quer
em Ourém quer na cidade onde se fixou, Santarém. Entre outros cargos foi
vice-presidente da Câmara Municipal e senador do Congresso da República).
Os republicanos do concelho, apesar de pouco numerosos,
destacavam-se pelas suas iniciativas, criando uma escola mista gratuita,
orientada pela professora Alice da Conceição Mendes e uma Liga Republicana, que
organizou um Partido Médico Particular, a cargo do Dr. Raul Ribeiro Abranches.
João Chagas no jornal nacional O Mundo, de 28 de Março de 1908,
escrevia:
«Ao terminar este artigo, eu praticaria uma grave injustiça se
não enviasse das colunas deste jornal uma calorosa saudação aos republicanos de
Ourém, porque - meus amigos:- a República entrou em toda a parte mesmo em
Ourém. Mas ser republicano em Ourém, não é ser republicano em toda a parte, em
Tomar, por exemplo, onde a República se proclamou ontem; ser republicano ali, é
ser a Fé abrazadora na sua pura expressão apostólica, a Fé abrazadora que
combate sempre e que não renuncia a vencer nem mesmo o Dragão. A esses
republicanos, a esses verdadeiros apóstolos da Democracia, o meu salvé!»
Não cabe aqui (por manifesta falta de espaço) descrever o afã
revolucionário de Artur de Oliveira Santos que no dia 2 de Outubro de 1910, de
manhã, partia para Lisboa, onde se encontrou com o líder republicano, António
José de Almeida (futuro Presidente da República de 1918 a 1925). Na posse da
senha do movimento republicano - «Mandou-me procurar? Passe, cidadão» - foi uma
testemunha ocular da revolução do 5 de Outubro, no que descreveria como “um dos
momentos mais felizes da vida”, confessando que “durante trinta e duas horas
não dormi e pouco comi”.
Também significativo é o telegrama enviado para Ourém no dia 3,
à tarde, dirigido a Álvaro Mendes, dando conta, em código, do inicio da
revolução - «o tio entra amanhã no Hospital».
Artur de Oliveira Santos só regressará ao concelho no dia 7 de
madrugada, de comboio. Sem descansar e acompanhado por Álvaro Mendes e demais
apaniguados, foi içar a bandeira republicana no castelo da velha Ourém.
Concretizava-se assim o seu sonho político, a vitória do ideal republicano.”
Artur de Oliveira Santos - um
“revolucionário civil”
Em 9 de Julho de 1917, deu entrada na Câmara dos Deputados um
parecer referente a uma petição através da qual se pedia que os indivíduos
constantes da mesma, de entre os quais figurava Artur de Oliveira Santos,
fossem reconhecidos como "revolucionários
civis". À semelhança de outras do género submetidas ao
parlamento, esta petição foi aprovada e publicada no “Diário
da Câmara dos Deputados”.
A denominação “revolucionários
civis” era a forma como então eram designados os membros da
Carbonária Portuguesa que não pertenciam às Forças Armadas. Por conseguinte, a
identificação de Artur de Oliveira Santos como “revolucionário civil” associa-o
àquela organização”.
Casa onde residia o Administrador do Concelho de Vila Nova de
Ourém, Artur de Oliveira Santos, e onde decorreram alguns dos interrogatórios
aos videntes de Fátima (Foto em 12/5/1967)
Artur de Oliveira Santos quis fazer um comício mas só encontrou
burros a zurrar…
Nas suas “Invocações de Nossa Senhora em Portugal, d’Aquém e
d’Além-Mar e seu Padroado”, publicado em. Lisboa no ano de 1967, o Padre
Jacinto Reis dá-nos conta de um episódio bizarro que passamos a transcrever:
“Num belo domingo de Agosto de 1917, já depois da prisão dos
videntes, estava programado um comício a realizar junto da igreja paroquial, à
saída da missa das 11 horas, tendo como protagonistas o administrador do
concelho de Vila Nova de Ourém que se fazia acompanhar pelo orador José do
Vale. Não faltavam piquetes da polícia de Vila Nova de Ourém, de Torres Novas,
de Leiria e, até os cabos de ordem da freguesia tinham sido expressamente
intimados a comparecer. O comício, organizado pela Maçonaria e pela Carbonária,
tinha como finalidade provar ao povo a “intrujice” das Aparições da Cova da
Iria.
Mas, surpresa e desilusão! A igreja, àquela hora, estava fechada
e as casas da aldeia também. É que o Pároco, tendo sido prevenido do que iria
acontecer, avisara na missa das almas, celebrada de manhãzinha, que a missa das
11 horas teria lugar na Capela da Senhora da Ortiga.
Pensando que o povo estivesse na Cova da Iria, os homens do
comício para lá se dirigiram, mas bem se enganaram. Ao regressarem,
desiludidos, encontraram a certa altura uma quantidade de burros presos, a
zurrar, enquanto do alto, a pouca distância, o povo que voltava da missa
apupava a caravana. Tinha sido uma partida preparada por alguns habitantes da
Lomba de Égua. Os cabos de ordem da freguesia juntaram-se então à multidão e
fizeram coro com ela. Nada mais restava aos intrusos do que fugirem para Ourém,
perante as gargalhadas provocadas pelo ridículo da situação.
Este episódio é muito conhecido entre os habitantes da freguesia
de Fátima.”
Documentos:
Fundação Mário Soares / Fotos: ANTT








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