RITOS PASCAIS NA GASTRONOMIA TRADICIONAL MINHOTA
O cabrito
assado no forno constitui uma das especialidades da nossa cozinha tradicional
que marca invariavelmente presença nas mesas dos portugueses por ocasião do
domingo de Páscoa. A origem de tal costume perde-se nos tempos e possui as suas
raízes em ancestrais hábitos pagãos, trazidos até nós através das influências
judaica e muçulmana.
Ultrapassado o período de abstinência alimentar e
penitência da quaresma, eis que se celebra a chegada da Primavera e, com ela, o
renascimento da vida e da natureza. Para os cristãos, a Ressurreição de Jesus
Cristo, na senda do Pessach,
a Páscoa judaica, instituída na noite em que ocorreu o Êxodo do Egito e
celebrada na Lua Cheia, no final do dia 14 do mês de Abibe; aproximadamente no
ano de 1445 a.C.
Segundo o relato bíblico (Êxodo 12.12.13), Yahweh
terá transmitido a Moisés: “E eu passarei pela terra do Egito esta noite e
ferirei todo primogênito na terra do Egito, desde os homens até os animais; e
sobre todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou Yahweh. E aquele sangue vos
será por sinal nas casas em que estiverdes: vendo eu sangue, passarei por cima
de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do
Egito”. A partir de então, passaram os judeus a celebrar a Festa do Cordeiro
Pascal em memória do ocorrido. Não obstante, a tradição possuía origens bem
mais remotas, sendo praticada ao tempo em que a maioria dos judeus eram
pastores nómadas do deserto e celebravam a chegada da Primavera com o
sacrifício de um animal.
Desde tempos imemoriais, a noção de sacrifício
encontra-se associada à de dádiva a um ou vários deuses, podendo esta assumir
as formas mais variadas. O cumprimento de uma promessa a um santo da devoção
vem dentro da mesma linha de adoração com que os povos ancestrais sacrificavam
um animal a fim de obter os favores divinos. Entre tais graças que se desejam
obter encontram-se naturalmente a cura de certos males do foro físico ou
psíquico e a expiação das culpas ou pecados, no entendimento de que o elemento
físico e o espiritual não se encontram dissociados e constituem uma única
dimensão. Por conseguinte, o sacrifício do animal, para judeus e cristãos
representado no cordeiro pascal, mais não representa do que um ritual de
expiação e de renascimento a que não é alheia o reinício do ciclo da natureza.
Cumprindo as profecias bíblicas, Jesus terá celebrado
juntamente com seus discípulos a Última Ceia no dia 14 de Nisã, precisamente o
dia em que os judeus imolavam o cordeiro pascal. E, desse modo, qual “cordeiro
de Deus que tira os pecados do mundo”, se ofereceu para ser crucificado e, pelo
seu sacrifício, redimir os pecados dos homens.
Também os muçulmanos sacrificam os animais naquela
que é considerada uma das mais importantes festas do islão – o Eid al-Adha ou
Festa do Sacrifício. Esta celebração marca o fim do Ramadão e pretende evocar a
disposição do profeta Abraão em sacrificar o seu filho Ismail em obediência a
Deus, tendo Allah providenciado um cordeiro em sua substituição.
Em Portugal e, de uma maneira geral em todo o
ocidente cristão, a Páscoa celebra-se no primeiro domingo de lua cheia
imediatamente após o equinócio da Primavera, variando, portanto, entre os dias
22 de março e 25 de abril, tendo a data sido fixada aquando do Primeiro
Concílio de Nicéia ocorrido no ano 325 da Era Cristã. Também entre nós, por
ocasião da Páscoa, é costume no domingo – dies Dominicus que significa dia do Senhor – sacrificarmos o cabrito ou
o borrego no altar da deusa Abundantia que, com sua cornucópia, espalha os alimentos que a
terra fértil generosamente providencia. Trata-se de um costume ao qual não é
certamente alheia também as influências judaicas e muçulmana que marcam
simultaneamente a nossa identidade cultural.
O pão-de-ló e os tradicionais folares, os ovos e as
amêndoas assemelhando-se a pequenos ovinhos constituem apenas algumas das
iguarias consumidas durante o período pascal ligados a ritos de fertilidade
associados ao início da Primavera.

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