“SECOS E MOLHADOS”: MENTOR DA FAMOSA BANDA BRASILEIRA NASCEU EM PONTE DE LIMA
Corria o ano de 1973 quando um verdadeiro
meteorito atravessou o panorama musical brasileiro, repercutindo-se nos dois
lados do Atlântico e provocando uma reação do público mista de perplexidade e
admiração. Tratou-se do aparecimento da banda musical brasileira que deu pelo
nome “Secos & Molhados” e do seu primeiro álbum com o mesmo nome, o
qual continha música que, mais de três décadas decorridas, continuam a fazer
enorme sucesso, como “O Vira”, “Rosa de Hiroshima”, “O patrão nosso de cada dia” e “Sangue latino”. O sucesso foi imediato e as suas melodias
persistem nos ouvidos de muita gente.
Entretanto, os companheiros decidem prosseguir uma carreira a
solo e João Ricardo procura um vocalista para integrar a banda e acaba por
conhecer Ney de Sousa Pereira que haveria de adotar o nome de Ney Matogrosso e
Gerson Conrad que, aliás, era seu vizinho. É precisamente esta formação que em
1973 grava o primeiro disco e, num ápice vende mais de um milhão de cópias,
conseguindo mesmo arrebatar os recordes até então alcançados pelo próprio “rei”
Roberto Carlos. Aliás, o seu êxito dentro e fora do Brasil foi de tal ordem
que, a propósito, conta-se o seguinte episódio cuja autenticidade não está
assegurada: após o lançamento do primeiro disco, os “Secos & Molhados”
receberam de um empresário americano uma proposta para efetuarem um lançamento
semelhante nos Estados Unidos da América, ao que eles recusaram. Alguns anos
decorridos, o público veria aparecer na cena mundial a banda Kiss, ostentando
um visual em tudo semelhante aos “Secos
& Molhados”…
O reportório da banda era constituída por um misto de
canções políticas e performances teatrais a que alguns identificam como rock
progressivo, uma simbiose de estilos que passam pelo jazz, o folk, o rock
progressivo e ainda a chamada musica popular brasileira, marcando uma época
pós-hippie na defesa do pacifismo e da libertação sexual. Aliás, quem não se
recorda ainda da “Rosa de Hiroshima”, poema de
Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad que fez furor no espetáculo que
realizaram em 1974, no Maracanãzinho do Rio de Janeiro.
A maior parte das letras do seu primeiro álbum foi da
autoria de João Ricardo, incluindo também poemas de João Apolinário e Vinicius
de Moraes. De resto, o “Secos
& Molhados” inspira-se em acordes e melodias do folclore
português bem patentes n’O Vira, procurando ao mesmo tempo fundir a música dos
Beatles com a poesia de Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Vinicius de Moraes
e João Apolinário entre outros autores. Certamente não existe quem não se
recorde dos seguintes verssos:
O gato preto cruzou a estrada,
Passou por debaixo da escada
E lá do fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou, a dança, a roda a festa
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem
Bailam corujas e pirilampos
Entre os jardins e as fadas
E lá do fundo azul na noite da floresta
A lua iluminou, a dança, a roda a festa
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem
Vira, vira
Vira, vira lobisomem
Entretanto, como quase sempre acontece com a generalidade das bandas musicais que alcançam bastante sucesso, também os “Secos & Molhados” acabaram por se desintegrar em consequência dos conflitos de personalidade existentes entre os vários componentes do grupo. João Ricardo ainda tenta ressurgir a banda por duas vezes mas sem grande sucesso. É assim que surge em 1977 com a edição e um novo disco e, mais tarde, em 1980. Em 1981 é editado ainda um último disco de caráter mais revivalista, o qual apresenta gravações dos começos do grupo, altura em que realizam o concerto no Maracanãzinho. Uma vez dissolvido o grupo, João Ricardo prossegue a sua carreira a solo.
Carlos Gomes, in “Anunciador das Feiras Novas”, XXV, Ponte de
Lima, 2008.



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