CIMEIRA LUSO-ESPANHOLA: RIO MINHO FORA DA AGENDA MAIS UMA VEZ – CRÓNICA DE CARLOS SAMPAIO
O território falou claro, apresentou propostas concretas
e mostrou consenso institucional. Através do AECT Rio Minho, foram levadas à
cimeira luso-espanhola medidas objetivas: dragagens para combater o
assoreamento,
monitorização científica do
ecossistema,
gestão coordenada dos caudais
e clarificação jurídica da gestão do rio.
Ainda assim, tudo isto ficou de fora das decisões. Isto
não resulta de falta de informação nem de ausência de soluções. Resulta de uma
opção política clara: não priorizar o que é estrutural.
𝗗𝗢 𝗤𝗨𝗘 𝗘𝗦𝗧𝗔𝗠𝗢𝗦 𝗔 𝗙𝗔𝗟𝗔𝗥?
Falamos de assoreamento que compromete a navegabilidade e
aumenta o risco.
Falamos da gestão de caudais controlada a montante, sem
equilíbrio nem previsibilidade.
Falamos de espécies
invasoras que degradam o ecossistema.
Tudo isto com impacto direto na pesca, na segurança, na
economia local e na sustentabilidade do território. Não são questões técnicas
isoladas. São problemas com consequências reais no dia a dia de quem vive e
trabalha no rio.
𝗢 𝗤𝗨𝗘 𝗙𝗢𝗜 𝗙𝗘𝗜𝗧𝗢?
Apesar deste diagnóstico claro e partilhado, a cimeira
limitou-se a abordar matérias como a segurança da navegação e a
náutica de recreio.
Tudo legítimo, mas manifestamente insuficiente face à
dimensão dos problemas. O essencial voltou a ser adiado. E quando o essencial é
sucessivamente adiado, deixa de ser um lapso. Passa a ser uma escolha política
consistente.
𝗢 𝗜𝗠𝗣𝗔𝗖𝗧𝗢 𝗡𝗔 𝗣𝗘𝗦𝗖𝗔 𝗣𝗥𝗢𝗙𝗜𝗦𝗦𝗜𝗢𝗡𝗔𝗟
A ausência de decisões sobre dragagens, gestão de caudais
e equilíbrio ecológico tem consequências diretas na pesca profissional do 𝐑𝐢𝐨 𝐌𝐢𝐧𝐡𝐨. Menos profundidade significa menor navegabilidade e
mais risco. Caudais desregulados significam imprevisibilidade nas marés e na
atividade. A degradação do ecossistema afeta diretamente os recursos e a
sustentabilidade da pesca.
Estamos a falar de uma atividade que garante emprego
direto a pescadores e sustenta, de forma indireta, toda uma rede ligada à
comercialização, manutenção, logística e economia local. Quando o rio não tem
condições, a pesca deixa de ser viável. E quando a pesca falha, falha o
rendimento de centenas de famílias.
𝐄 𝐀 𝐄𝐂𝐎𝐍𝐎𝐌𝐈𝐀 𝐀𝐙𝐔𝐋?
Fala-se cada vez mais em economia azul como eixo
estratégico nacional e europeu. Mas no terreno, onde essa economia devia
começar, continuamos sem respostas para o básico. Um rio assoreado, sem gestão
coordenada de caudais e sem governação eficaz não sustenta pesca, não garante
navegabilidade e não cria valor económico.
A economia azul não se constrói em conferências nem em
documentos estratégicos. Constrói-se com infraestruturas funcionais, gestão
integrada e decisões concretas. Quando o essencial é ignorado, o discurso perde
credibilidade e transforma-se apenas em retórica.
𝐎 𝐑𝐢𝐨 𝐌𝐢𝐧𝐡𝐨 não precisa de mais intenções, nem de mais diagnósticos.
Precisa de decisões concretas, coordenação efetiva e responsabilidade política.
O território já fez a sua parte. Agora exige-se que quem decide faça a sua.
Se o 𝐎 𝐑𝐢𝐨 𝐌𝐢𝐧𝐡𝐨 não entra nas prioridades, então convém dizer com
clareza: não há estratégia de economia azul para este território. Há intenção,
mas não há execução.
Carlos Sampaio
Presidente Associação Pescadores Profissionais e
Desportivos Vila Praia de Âncora
Foto: Jornal C – O Caminhense

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