REI D. CARLOS FOI ASSASSINADO HÁ 118 ANOS! – O REGICÍDIO QUE ABRIU O CAMINHO À IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA
Não fora o regicídio e hoje teríamos o Aquário Vasco
da Gama instalado no Palácio das Necessidades e Lisboa como sede da Organização
Hidrográfica Internacional
Passou
no passado dia 1 de fevereiro precisamente 118 anos sobre a data em que o rei
D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço.
Nascido
em Lisboa, no Palácio da Ajuda, a 28 de setembro de 1863, D. Carlos I foi o
pioneiro da Oceanografia em Portugal. Ele é, pois, a agulha que norteia todos
quantos se dedicam ao estudo e investigação na área das ciências do mar.
A
História dos povos não é obra do acaso. Portugal, nação de marinheiros, quatro
séculos decorridos das grandes navegações quinhentistas, regressa de novo ao
mar, desta feita partindo à descoberta das profundezas do oceano. E, tal como
no passado, jamais os portugueses poderiam ter outro timoneiro que não fosse o
seu próprio Rei!
Desde
1889 até ao seu falecimento, D. Carlos I foi Rei de Portugal. Foi também
diplomata, pintor, aguarelista e desportista. Mas é, sobretudo, como homem de
ciência que emerge em toda a sua grandeza. A ele deve Portugal o grande
contributo para o lançamento das bases da oceanografia portuguesa ao
impulsionar de forma sistemática o estudo e investigação científica do mar.
O
Rei D. Carlos I era um espírito atento e aberto às ideias do tempo e às
realizações da ciência. Acolhia sempre com grande interesse as novidades do
progresso, vendo nelas as vantagens que proporcionavam para o quotidiano. Com o
aparecimento da luz elétrica, fez planos para a eletrificação da iluminação
pública das ruas de Lisboa e procedeu à sua instalação no Palácio das
Necessidades.
Como
português, sentiu naturalmente o apelo do mar que se transformou numa
verdadeira paixão. O seu interesse pela oceanografia herdou-o provavelmente de
seu pai, o Rei D. Luís I que também foi um importante patrocinador de diversos
projetos científicos nesta área. Porém, as profundas transformações sociais que
então o país registava, deverão ter sido decisivas para a sua entrega empenhada
à investigação do mar.
Mas,
também como pintor, D. Carlos I encontra-se entre os maiores vultos do seu
tempo no que se refere à pintura naturalista. Porém, não cultivou a arte pela
arte. Antes a colocou ao serviço da ciência. As suas aguarelas representam
objetos realistas num cenário natural, documentando o que via procurando
retratar a natureza com a maior exatidão possível, descrevendo na tela as cores
e a luminosidade. É isso que explica o fato dos seus diários e relatórios serem
simultaneamente obras de arte repletas de aguarelas e despertarem idêntico
interesse também entre os estudiosos e apreciadores de arte.
A
partir da segunda metade do século XIX, Portugal recuperava de um certo atraso
económico devido às guerras liberais e à Patuleia. Os governos de Fontes
Pereira de Melo imprimiram ao país um período de grande desenvolvimento,
industrialização e fomento de obras públicas. A população quase duplicou,
passando a concentrar-se sobretudo nas grandes cidades. Havia, pois, que
providenciar o acesso a novos recursos alimentares para uma população cada vez
mais numerosa. E, uma vez mais, qual viveiro aparentemente inesgotável, o mar
apresentava-se como o nosso desígnio.
Mas
não era apenas o fomento das pescas que movia o Rei D. Carlos I. O conhecimento
do mar podia fornecer respostas para inúmeras preocupações de ordem científica
que então interessavam os investigadores. As questões relacionadas com a origem
da vida e a evolução das espécies, a existência provável de vida e de fosseis
vivos nas profundidades abissais, as relações entre os fosseis de animais
invertebrados e a fauna então existente encontram-se entre as preocupações que
então despertavam o interesse dos cientistas na Europa e nos Estados Unidos da
América.
Havia
ainda mais: o estudo do oceano poderia proporcionar um conhecimento mais exato
da agitação marítima e outros aspetos relacionados com as condições do mar, de
modo a possibilitar uma navegação mais segura e o salvamento de náufragos.
A
visão do Rei D. Carlos I não podia ser mais acertada e atual. O mar não é
somente um viveiro de recursos piscícolas como guarda ainda no seu ventre
enormes riquezas, matérias-primas e fontes de energia que fazem falta aos
países mais industrializados. Não admira, pois, que decorrido pouco mais de um
século desde a realização das campanhas oceanográficas dirigidas por D. Carlos
I, os portugueses se façam uma vez mais ao mar, desta feita para desvendar os
segredos da Plataforma Continental e, das suas entranhas, resgatar as imensas
riquezas que lá se escondem.
Durante
milhares de anos, o mar era apenas encarado como um espaço onde se desenvolviam
as rotas comerciais e um palco onde se travavam grandiosas batalhas navais com
vista a proteger os navios mercantes e assegurar o seu domínio. Apesar do
enorme avanço das ciências náuticas, sobretudo à época dos Descobrimentos
Portugueses, o mar continuava a ser um completo desconhecido.
Carlos
I patrocinou, organizou e dirigiu então a realização de campanhas
oceanográficas, nas quais ele próprio participou. Desse trabalho de
investigação procurou tirar o melhor partido do desenvolvimento técnico e
científico que já então se verificava no domínio da oceanografia.
Ao
iniciar a publicação dos resultados preliminares do seu primeiro cruzeiro, o
Rei D. Carlos I deixou as seguintes e elucidativas palavras: «As numerosas
investigações oceanographicas, que as nações estrangeiras têem realizado
n’estes últimos annos, com tão profícuos resultados, a importancia que esta
ordem de estudos tem para a industria da pesca, uma das principaes do nosso
paiz, e a excepcional variedade de condições bathymetricas, que apresenta o mar
que banha as nossas costas, sugeriram-nos no anno findo a idéa de explorar
scientificamente o nosso mar, e o dar a conhecer, por meio de um estudo
regular, não só a fauna do nosso plan’alto continental, mas também a dos
abysmos, que, exemplo quasi unico na Europa, se encontram em certos pontos, a
poucas milhas da costa.»
Entre
1896 e 1907, D. Carlos I reuniu à sua volta uma equipa de cientistas que
estudaram a fauna marinha na costa portuguesa. Sob a sua sábia orientação,
realizaram levantamentos hidrográficos que levaram ao reconhecimento de
profundos vales submarinos próximo do Cabo Espichel. Efetuaram colheitas de
plâncton. Realizaram ensaios com flutuadores para o estudo das correntes de
superfície e procederam ao inventário metódico de aves e espécies piscícolas.
Os
estudos efetuados abrangeram domínios tão diversos como a hidrografia e o
estudo das correntes oceânicas, colheita de sedimentos e medição de
temperaturas, a captura de espécies marinhas e ornitológicas. Analisaram-se as
correntes e a topografia dos fundos oceânicos.
O
objetivo principal era o conhecimento exaustivo da fauna marítima,
especialmente aquela que apresentava maior valor económico para a pesca.
Esperava-se também, por via do estudo das espécies, desenvolver métodos mais
eficazes de captura do pescado.
Uma
vez que não era viável instalar todos os aparelhos a bordo com vista ao
tratamento das espécies recolhidas e de outras amostras, D. Carlos I criou em
Cascais o Laboratório de Biologia Marítima, devidamente equipado com aquários e
dotado de água corrente do mar, para apoio às suas pesquisas.
À
medida que o trabalho se desenvolvia e os meios navais disponíveis se tornavam
mais limitados, D. Carlos I promovia a substituição do próprio iate por outro
que, possuindo maiores dimensões, dispusesse de capacidade para ser utilizado
nas missões. Os investigadores puderam, desse modo, contar sucessivamente com a
utilização de quatro navios aos quais foi sempre atribuído o nome da sua
própria esposa, a Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança.
Como
sábio que era, o Rei D. Carlos I tinha a plena consciência da necessidade de
dotar a investigação científica dos meios necessários ao seu desenvolvimento,
sem os quais o país não poderia alcançar os resultados esperados.
Entre
1896 e 1907, realizaram-se 12 campanhas oceanográficas a bordo dos iates
“Amélia”. Fizeram-se ensaios com flutuadores para o estudo das correntes de
superfície. Efetuaram-se colheitas de plâncton. Inventariou-se a fauna e alguns
dos biótipos mais característicos da Baía de Cascais, das zonas lodosas da
costa, da foz do rio Tejo e dos vales submarinos do Cabo Espichel. Estudou-se
os problemas relacionados com a pesca do atum no Algarve. Promoveu-se o
inventário e a classificação das espécies que povoam os mares portugueses.
Em
resultado das suas pesquisas, D. Carlos I reuniu uma coleção zoológica de
incalculável valor histórico e científico que tem vindo a servir de base à
realização de diversos estudos, nomeadamente sobre peixes e crustáceos. As suas
mostras marcaram presença em muitos salões internacionais, com os exemplares
mais curiosos e raros da nossa fauna marinha. De novo, os cientistas e
marinheiros portugueses deslumbraram o mundo com as suas descobertas!
A
sua coleção inclui também os instrumentos utilizados nas suas campanhas
oceanográficas, numerosas aguarelas de sua autoria e vasta documentação e
bibliografia relacionada com a atividade científica que empreendeu.
O
Rei D. Carlos I guardava este precioso acervo no Palácio das Necessidades.
Tencionava aí criar um Museu Oceanográfico cuja grandiosidade seguramente em
nada ficaria a dever ao Museu Oceanográfico do Mónaco, criado pelo Príncipe
Alberto I, com quem partilhou o interesse pela oceanografia.
Mas
os tempos eram já conturbados e nem sempre as ambições políticas levam em
consideração o interesse nacional. Nesses anos longínquos do início do século
XX, enquanto o Rei D. Carlos I trabalhava com afinco para dotar o país de meios
científicos que permitissem suprir as dificuldades, a situação política
deteriorava-se. E, com ela, o país mergulhava numa grave crise económica.
Procurando
retirar o país da situação em que se encontrava, o Rei acabaria por ser
atingido no fogo cruzado do ódio e lutas partidárias. O regicídio veio
interromper de forma abrupta a obra que D. Carlos I vinha realizando.
Após
a sua morte, as coleções que o soberano reuniu ficaram à guarda da Liga Naval
Portuguesa que, no Museu de Marinha, criou a Secção Oceanográfica D. Carlos I.
Encontrava-se então instalado no Palácio do Calhariz, em Lisboa, pertencente
aos Duques de Palmela.
Em
1929, foi extinta a Liga Naval Portuguesa e as coleções transitaram para o
Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais. E, só em 1935, foram doadas ao
Aquário Vasco da Gama-Estação de Biologia Marítima. Na mesma altura, foi também
oferecida ao Aquário Vasco da Gama a Biblioteca Científica do Rei D. Carlos I.
Pelo
caminho, muitos foram os exemplares e outras peças de elevado interesse que se
perderam ou se degradaram. Deveu-se este atribulado percurso à instabilidade
vivida em Portugal nas primeiras décadas do século XX. Apesar de tudo, chegou
até aos nossos dias um legado de incalculável valor histórico e científico,
estreitamente ligado ao nascimento da moderna oceanografia em Portugal.
Carlos
I deixou-nos também obra publicada cujo mérito científico é unanimemente
reconhecido. São exemplo:
“Yacht Amélia. Campanha oceanográfica de 1896”,
publicado em 1897;
“Pescas
marítimas, I - A pesca do atum no Algarve em 1898. Resultados das Investigações scientificas feitas a bordo
do yacht “Amélia” e sob a direcção de D. Carlos de Bragança”,
publicado em 1899;
Ichthyologia.
II - Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a
1903. Resultados das
Investigações scientificas feitas a bordo do yacht “Amélia” e sob a direcção de
D. Carlos de Bragança, publicado em 1904.
Para
além do seu exemplo pioneiro e dos estudos que nos legou, D. Carlos I
deixou-nos ainda as ferramentas com que se prosseguiram os trabalhos de
investigação por si iniciados. Foi a bordo do iate “Amélia”, entretanto
rebatizado com o nome “5 de Outubro”, que a partir de 1913, foram retomados os
cruzeiros oceanográficos com vista à realização de estudos no âmbito da
cartografia e dos sedimentos. E, em 1923, sob a orientação técnica do Dr.
Magalhães Ramalho, da Estação de Biologia Marítima de Lisboa, efetuou-se o
reconhecimento geral e sistemático das condições oceanográficas ao largo da
costa de Portugal.
Por
fim, o Rei D. Carlos I legou-nos a perceção da pluridisciplinaridade e
interdisciplinaridade das ciências e técnicas do mar. E, acima de tudo, uma
enorme paixão pelo mar!


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