A PÁSCOA: DAS ORIGENS PAGÃS À ATUALIDADE – O QUE É O COMPASSO PASCAL?
"Padre de
aldeia abençoando em dia de Páscoa" - Costumes portugueses da província do
Minho. Autor: Augusto Roquemont (1804-1852)
Na Páscoa, o Cristianismo celebra a morte e
ressurreição de Jesus Cristo, o que faz desta festividade porventura a mais
importante e de maior significado para os cristãos. Com efeito, é a crença na
ressurreição de Jesus Cristo que distingue a fé cristã em relação a outras
confissões religiosas. Foi apenas no século II que a Igreja Católica fixou a
Páscoa no domingo, sem a menor referência à celebração judaica. Sucede que
Jesus Cristo, segundo o calendário hebraico, terá morrido em 14 de Nissan,
precisamente o início do Pessach ou seja, o mês religioso
judaico que marca o início da Primavera.
Com efeito, de
acordo com a tradição judaica, a Páscoa provém de Pessach que
significa passagem e evoca a fuga dos judeus do Egipto em
busca da Terra Prometida. Na realidade, tal significação remonta a raízes ainda
mais ancestrais, concretamente às celebrações pagãs que ritualizavam a passagem
do Inverno para a Primavera ou seja, as festas equinociais associadas à
fertilidade e ao renascimento dos vegetais.
Tais celebrações eram antecedidas pela Serração
da Velha, o Entrudo e as saturnais que originaram as festividades de Natal.
Mas, as novas religiões monoteístas alicerçaram-se sobre as ruínas das crenças
antigas e, por cima dos antigos santuários pagãos ergueram-se as novas
catedrais românicas e góticas. Da mesma forma que, sobre as ruínas dos velhos
castros foram construídos os castelos medievais. E, assim, também as
celebrações pagãs se revestiram de novas formas mais de acordo com novas
conceções religiosas e se cristianizaram, adquirindo uma nova simbologia e
significação.
Subsistem, no entanto, antigas usanças que
denunciam as origens pagãs da festividade pascal associadas a costumes
importados da cultura anglo-saxónica que, em contacto com as tradições
judaico-cristãs originam um sincretismo que conferem à celebração pascal uma
conceção religiosa bastante heterodoxa. É o que se verifica, nomeadamente, com
toda a simbologia associada ao coelho e aos ovos da Páscoa, sejam eles
apresentados sob a forma de chocolate, introduzidos nos folares ou escondidos
no jardim, rituais estes ligados à veneração praticada pelos nórdicos a Ostera,
considerada a deusa da fertilidade e do renascimento, por assim dizer a “deusa
da aurora”.
Tal como para os judeus, a Pessach alude
à passagem do anjo exterminador antes da sua partida do Egipto e, ao
assinalarem as suas casas com o sangue do cordeiro levaram a que fossem
poupados da praga lançada por Javé, para os cristãos é o próprio Jesus Cristo
que incarna a vítima sacrificial ou seja, o cordeiro pascal que expia os
pecados dos homens. Também para os cristãos, a Páscoa representa a passagem da
morte para a vida eterna e o reencontro com Deus.
Na Páscoa, o sol primaveril irrompe pelas veigas
verdejantes enquanto as árvores se espreguiçam num novo amanhecer. As flores
exalam um perfume inebriante que inundam os céus e a todos contagia. As casas
dos lavradores engalanam-se para receber a visita pascal. Junca-se o caminho
com um tapete colorido feito de funcho, cravo e rosmaninho. O pároco, de
sobrepeliz e estola entra pelos quinteiros, logo seguido a curta distância pelo
mordomo, vestindo a opa vermelha e levando consigo a cruz florida que a dá a beijar,
e o sacristão com a sineta e a caldeirinha de água benta. Lá fora, o estalejar
dos foguetes indica o local exato onde segue a cruz. Em redor, a natureza
renasce e adquire especial fulgor.
Mais intensamente vivida nas alegres aldeias
minhotas, os casais e lugares de Ourém há muito que têm vindo a perder a
tradição da visita pascal. E, no entanto, a visita pascal constitui um
quadro de inigualável beleza e colorido que bem merecia ser preservado.
MINHO: O QUE É
O COMPASSO PASCAL?
O termo
“Compasso” no sentido de Visita Pascal ou Compasso da Visita Pascal tem a sua
origem na expressão latina Crux cum passo Domino que significa
“Cruz em que o Senhor padeceu”, tomando a sua forma abreviada.
Na sua forma
atual, trata-se de um costume que tem origem na Idade Média, constituindo uma
forma solene de benzer as casas cuja jurisdição é atribuída ao pároco. Não
obstante, e tal como a sua designação indica, o Compasso é a Cruz que preside
aos ritos cristãos, razão pela qual ela é empunhada pelo Juiz da Cruz a quem
cumpre empunhar a “Cruz Paroquial” em todas as cerimónias de culto, incluindo a
visita pascal.
As suas origens são porém mais remotas. Confiavam
os romanos e os etruscos a proteção das suas casas aos deuses Lares, divindades
que tinham por missão proteger os lares domésticos, relacionado então com o
local onde se acendia o lume para cozinhar e aquecer a casa, sinal evidente da
prática do culto do fogo. Entretanto, o termo lar, no sentido em que era então
compreendido, foi substituído por lareira.
Coincidindo com o ciclo da Primavera – o
renascimento da Natureza e a Ressurreição de Cristo – o pároco leva a cruz a
benzer as casas dos fiéis. Porém, sempre dados a preservar as suas tradições e
à exuberância do seu modo de viver, os minhotos passaram a enfeitar a cruz e
dá-la a beijar em suas casas, cumprindo um ritual hierárquico dentro da própria
família que começa com o dono da casa e esposa até ao filho mais novo e
restantes familiares.
O Compasso Pascal é uma das festas mais queridas
das gentes minhotas – assim entendidas como pertencendo à região de
Entre-o-Douro e Minho – sendo ocasião de convívio e visita a casa dos
familiares e amigos.
DOMINGO DE
PASCHOA NA ALDEIA
O Natal é a
festa da noite, a Paschoa e festa do dia!
Pelos caminhos da aldeia o parocho revestido de
sobrepeliz e estola vae acompanhado pelo mordomo da cruz,
pelo caldeirinha de agua benta, pelo campainha, pelo
creado encarregado de receber os folares. Partem sol nado.
São muitos e distantes os logares, e a cruz,
enfeitada com belos cordões de ouro e laços de fita coloridos, aromatisada com
essência de cravo ou rosmaninho, tem de ser beijada por todos os freguezes.
Os vizinhos invadem uns as casas dos outros; os
parentes teem de ir beijal-a a casa dos parentes, embora a distancia seja
longa.
Avista-se além a Cruz, n’uma volta da
azinhage. A campainha vibra no ar ambalsamado pelo perfume das macieiras em
flôr, e então todos se dão pressa em juncar de flores e plantas aromaticas a
entrada do seu lar, e estender sobre a mesa a alva toalha de rendas, onde o
folar é depositado.
O padre chega. Enche-se a casa.
Alleluia, boas festas.
E a todos ajoelhados o parocho dá a Cruz para
beijar, correndo assim a freguesia inteira.
Os ausentes teem vindo de fora, esquecem-se
antigos ódios, visitam-se amigos velhos; a panella é gorda n’esse dia, o vinho
espuma alegremente. É a natureza que ressurge, e quando a seiva ascende
exhuberante e fecunda, não é para admirar que o espírito se vivifique pela
alegria.
J. Augusto
Vieira, in “Branco e Negro” (Semanario Illustrado), nº.1 de 5 de Abril de 1896


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