ARCOS DE VALDEVEZ: OS DEVOTOS À SENHORA DA PENEDA JÁ NÃO VÃO ENFIADOS EM CAIXÕES COMO OUTRORA CUMPRIAM AS SUAS PROMESSAS
Antigamente,
os romeiros que pagavam promessas iam metidos dentro de caixões
A Romaria a Nossa Senhora da Peneda realiza-se entre
os dias 1 e 8 de setembro, no seu imponente santuário situado na freguesia da
Gavieira, no concelho de Arcos de Valdevez. É uma das mais importantes romarias
do Minho, chamando àquele lugar recôndito da serra da Peneda muitos milhares de
romeiros que, dos mais variados pontos da nossa região e também da Galiza,
fazem-se ao caminho levando consigo a Fé, a alegria e a concertina uma vez que,
após o dever cumprido, haverá lugar à folia.
A partir de 31 de agosto e até 8 de setembro, depois
das cinco horas da tarde, realiza-se o terço cantado, percorrendo as capelas da
escadaria do santuário. No dia 6 de setembro, os populares cantam e dançam ao
som das concertinas durante toda a noite, até às sete horas da manhã.
A festividade assenta num espaço natural e
arquitetónico de beleza universal, com um magnífico afloramento rochoso de
grande dimensão, uma queda de água e uma envolvente paisagística natural
assombrosa. Ali se encontra edificado o magnífico templo cuja construção
remonta aos séculos XVIII e XIX, com o seu escadório de vinte capelas
temáticas, formando um conjunto de inigualável caracterização, dentro do espaço
privilegiado do único Parque Nacional de Portugal: o Parque da Peneda-Gerês.
Ao que se crê, em 5 de Agosto de 1220, terá ali
aparecido a Senhora da Peneda sob a forma de pomba branca a uma jovem
pastorinha que apascentava o seu rebanho de cabras, voando em seu redor e
ordenando-lhe que dissesse às gentes do lugar da Gavieira que ali lhe
edificassem uma ermida. A criança falou aos seus pais acerca da aparição da
Senhora mas estes não lhe deram crédito.
Voltando a criança àquelas paragens para apascentar o
seu rebanho, eis que a Senhora lhe voltou a aparecer. Porém, desta feita, já
sob a forma na qual é atualmente venerada. E, vendo que a pastorinha não era
bem-sucedida, ordenou-lhe o seguinte:
“-Filha, já que te não querem dar crédito ao que eu mando, vai
ao lugar de Roussas (que fica na mesma freguesia de Gavieira, no mesmo termo do
então concelho de Soajo) onde está uma mulher entrevada há dezoito anos e diz
aos moradores do lugar que tragam à minha presença, para que ela fique de
perfeita saúde, e assim te darão crédito ao que eu te ordeno.”
A criança assim o fez e, trazendo a enferma que se
chamava Domingas Gregório ao local indicado, esta imediatamente se recompôs,
ficando livre de todos os males de que padecia. A partir de então, a Senhora da
Peneda passou a ser bastante venerada pelo povo das redondezas que, por baixo
da Rocha da Meadinha, lhe ergueram a partir dos finais do século XVIII um
imponente santuário de estilo neoclássico, com alguns traços caraterísticos da
arquitetura barroca, que é atualmente um dos mais concorridos de toda a região,
atraindo milhares de romeiros do Minho e da Galiza.
Até meados do século passado, era frequente os
romeiros que pagavam promessas serem levados à igreja metidos dentro de
caixões. Algumas pessoas mais antigas ainda se recordam de tão estranho ritual
o qual, secundo se crê, constituiria uma forma dos miraculados exprimirem a sua
gratidão pela graça recebida, sugerindo através da sua teatralização o destino
que lhes estaria traçado caso a Senhora não intercedesse a seu favor.
Tais cortejos “funerários”
percorriam em regra um longo e acidentado trajeto que ia do pórtico situado ao
fundo das capelas até ao interior da igreja, incluindo o longo escadório,
sucedendo nalguns casos prolongar-se até ao próprio cemitério. Uma vez no
interior do templo, era celebrada missa de “corpo presente” a que o “defunto”
geralmente assistia ainda deitado na urna geralmente já aberta no local. Por
vezes, o “funeral” era acompanhado de banda de música.
O padre Bernardo Pintor, autor do livro “Uma Joia do
Alto Minho”, relata-nos a propósito: “Tudo
isto observei de pequeno e lembra-me de ouvir falar de uma pessoa que foi até à
beira da sepultura, mandada abrir no cemitério, onde lançou a sua roupa
exterior, e, também de uma outra que seguia em caixão aberto mas que se
impressionou de tal modo ao entrar no templo que saltou fora e rachou a cabeça
de encontro aos umbrais da portaria”.
Com efeito, todo este ritual a que muitos devotos se
submetiam produz um efeito psíquico de tal intensidade que pode despertar na
mente efeitos perturbadores perante novos estados de consciência e meditação
acerca da nossa própria existência.
Entretanto, há muito tempo que tal costume
desapareceu, não havendo mais lugar a cortejos “fúnebres”
de mortos-vivos. Agora, a festa faz-se de alegria sem perda de devoção, bem à
maneira das gentes do Minho!
Fotos: Santuário de Nossa Senhora da Peneda


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